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26 agosto, 2012

ESSE DESEMPREGO!

Revisitando Berthold Brecht:

ESSE DESEMPREGO!

Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!

Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.

Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.

É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!

25 junho, 2012

A LA TRISTEZA


In: "Plenos Poderes" de Pablo Neruda

Tristeza, necesito tu ala negra,
tanto sol, tanta miel en el topacio,
cada rayo sonríe
en la pradera
y todo es luz redonda en torno mío
todo es abeja eléctrica en la altura.
Por eso,
tu ala negra
dame,
hermana tristeza:
necesito que alguna vez se apague
el zafiro y que caiga
la oblicua enredadera de la lluvia
el llanto de la tierra:
quiero
aquel madero roto en el estuario,
la vasta casa a oscuras
y mi madre
buscando
parafina
y llenando la lámpara
hasta no dar la luz sino un suspiro

La noche no nacía.

El día resbalaba
hacia su cementerio provinciano
y entre el pan y la sombra
me recuerdo
a mí mismo
en la ventana
mirando lo que no era
lo que no sucedía
y un ala negra de agua que llegaba
sobre aquel corazón que allí tal vez
olvidé para siempre en la ventana.
Ahora echo de menos
la luz negra.

Dame tu lenta sangre,
lluvia
fría,
dame tu vuelo atónito!
A mi pecho
devuélvele la llave
de la puerta cerrada
destruida,
Por un minuto, por
una corta vida
quítame luz y déjame
sentirme
perdido y miserable
temblando entre los hilos
del crepúsculo,
recibiendo en el alma
las manos
temblorosas
de
la
lluvia.

23 novembro, 2011

"NESTA TERRA" de Mahmud Darwich declamado por Omar Offendum

Omar Offendum declama "NESTA TERRA" de Mahmud Darwich em árabe e em inglês.

(Encontrará as palavras, em Português, na tradução de Albano Martins, que as publicou na colectânea de poemas de Mahmud Darwich, por si selecionados, intitulada "O Jardim Adormecido e outros poemas" e editada pela Campo das Letras. Tentei manter a organização original do texto )




NESTA TERRA

Nesta terra há coisas que merecem viver:                             a
hesitação de abril, o cheiro do pão ao amanhecer, as opiniões
duma mulher acerca dos homens, os escritos de Ésquilo, o
despertar do amor, a erva sobre as pedras, as mães erguidas
sobre um fio de flauta e o medo que a lembrança inspira
aos conquistadores.

Nesta terra há coisas que merecem viver:                   o fim
de setembro, uma mulher que entra nos quarenta, com todo
o seu vigor, a hora de sol na prisão, as nuvens que imitam
um bando de criaturas, as aclamações dum povo pelos que
caminham, sorridentes, para a morte e o medo que as can­ções
inspiram aos tiranos.

Nesta terra há coisas que merecem viver:                    nesta
terra está a dona da terra, mãe dos prelúdios e dos epílo­gos.
Chamavam-lhe Palestina. Chama-se ainda Palestina.
Minha Dama, eu mereço, mereço viver, porque tu és
a mi­nha Dama

27 janeiro, 2011

Hoje é o Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto...Recordemos...

Recordemos para que nunca mais se repita.

Recordemos todos os que pereceram nos campos de extermínio em nome da loucura e da miséria moral nazi.

Recordemos os números do absurdo:
  • 6 a 7 milhões de polacos, dos quais 3 a 3,5 milhões de polacos judeus
  • 5,6 a 6,1 milhões de judeus, dos quais 3 a 3,5 milhões de judeus polacos
  • 3,5 a 6 milhões de outros civis eslavos
  • 2,5 a 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos
  • 1 a 1,5 milhões de dissidentes políticos com destaque para os comunistas
  • 200 a 800 mil ciganos (roma e sinti)
  • 200 a 300 mil deficientes
  • 10 a  25 mil homossexuais
  • 2,5 a 5 mil Testemunhas de Jeová
E neste dia tenhamos presente que em 9 de dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Convenção para a Prevenção e Punição de Crimes de Genocídio. Esta Convenção estabeleceu o "genocídio" como crime de carácter internacional, e as nações signatárias da mesma comprometeram-se a "efectivar acções para evitá-lo e puní-lo", definindo-o assim:

Por genocídio entende-se quaisquer dos actos abaixo relacionados, cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso, tais como:

(a) Assassinato de membros do grupo;
(b) Causar danos à integridade física ou mental de membros do grupo;
(c) Impor deliberadamente ao grupo condições de vida que possam causar sua destruição física total ou parcial;
(d) Impor medidas que impeçam a reprodução física dos membros do grupo;
(e) Transferir à força crianças de um grupo para outro.

E reflictamos sobre os genocídios que ocorrem durante a nossa guarda.

E neste dia de memória que o véu da hipocrisia se descerre e mostre em toda a sua miséria o holocausto que decorre na... PALESTINA!

"Os Filhos... e os Meus Filhos"

Os filhos nascem
recebem-nos no berço
os nomes escolhidos
na árvore genealógica
dos respeitáveis antepassados
Recembem-nos os programas de poupança
a visão distante do futuro
e o aroma da canela fervida
no lume do desejo
Recebem-nos os aniversários
as festas
e os fatos novos

Os meus filhos nascem
recebem-nos as lágrimas do amor
o arrepio do medo
À porta da maternidade
esperam-nos
os olhos dos cães raivosos
esperam-nos as matracas da polícia
esperam-nos
os programas da liquidação física
e da visão distante da morte

Os meus filhos nascem
e com eles nascem
as bombas de fósforo
com seus clarões espantosos
como os fogos de arifício
do carnaval
Os meus filhos nascem
com seus pequenos caixões

Samih Al-Quassim
in Pequena antologia da Poesia Palestiniana Comtemporânea

Tradução de Albano Martins

31 dezembro, 2010

Esperança de Mário Quintana

Mário Quintana
(1906/07/30- 1994/05/05)

Esperança

Lá bem no alto no décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança.
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os recos-recos tocarem
Atira-se
E
- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, menininha de olhos verdes?
E ela lhes dirá:
(é preciso dizer-lhes tudo de novo)
Ela lhes dirá bem devagarinho,para que não se esqueçam:?
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA"

do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

Mário Miranda Quintana - Natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul. É o poeta das coisas simples. Despreocupado em relação à crítica, fez poesia porque "sente necessidade", segundo as suas próprias palavras.


Para conhecer mais: http://marioquintana.blogspot.com/

17 junho, 2010

Se isto é um homem

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Se questo è un uomo

Voi che vivete sicuri
Nelle vostre tiepide case,
Voi che trovate tornando a sera
Il cibo caldo e visi amici:
Considerate se questo è un uomo
Che lavora nel fango
Che non conosce pace
Che lotta per mezzo pane
Che muore per un sì o per un no.
Considerate se questa è una donna,
Senza capelli e senza nome
Senza più forza di ricordare
Vuoti gli occhi e freddo il grembo.
Come una rana d’inverno
Meditate che questo è stato:
Vi comando queste parole:
Scolpitele nel vostro cuore
Stando in casa andando per via,
Coricandovi alzandovi;
Ripetetele ai vostri figli.
O vi si sfaccia la casa,
La malattia vi impedisca,
I vostri nati torcano il viso da voi.

Tradução não profissional para português. Sugestões de melhoria aceitam-se.

Vós que viveis seguros
Nas vossas casas aquecidas,
Que encontram, ao regressar pela tarde
Comida quente e rostos amigos:

Considerem se este é um homem
Que trabalha na lama
Que não conhece a paz
Que luta pela metade de um pão
Que morre por um sim ou por um não.

Considerem se esta é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem forças para recordar
Vazio o olhar e frio o regaço.
Como uma rã invernal.

Meditai no que aconteceu:
Lembrem-se destas palavras.
Gravai-as nos vossos corações
Em casa descendo a rua,
Ao deitar ao levantar;
Repitam-nas aos vossos filhos.
Ou que a vossa casa se desfaça
A doença vos tolha,
Os vossos descendentes vos voltem a cara.

06 junho, 2010

"What is not allowed" "(O que não é permitido [em Gaza]) de Richard Tillinghast


Richard Tillinghast é um poeta americano que vive em Co Tipperary, na Irlanda, autor de oito livros de poesia, o último dos quais tem o título de "Selected Poems" (Dedalus Press, 2010), bem como de várias obras de não-ficção.

Uma das suas poesias "What is not allowed", ontem publicada no The Irish Times, é sobre Gaza. Nela escramenta e escarmece do opressor, desmascarando o Bloqueio como uma ferramenta para aniqilar e subjugar a vontade de um Povo e os efeitos devastadores no seu quotidiano, potenciados pela destruição e horror provocados pela agressão "Cast Lead".

Transcrevo o original e de seguida apresento a respectiva tradução.

"What is not allowed" by Richard Tillinghast

No tinned meat is allowed, no tomato paste,
no clothing, no shoes, no notebooks.
These will be stored in our warehouses at Kerem Shalom
until further notice.
Bananas, apples, and persimmons are allowed into Gaza,
peaches and dates, and now macaroni
(after the American Senator’s visit).
These are vital for daily sustenance.


But no apricots, no plums, no grapes, no avocados, no jam.
These are luxuries and are not allowed.
Paper for textbooks is not allowed.
The terrorists could use it to print seditious material.
And why do you need textbooks
now that your schools are rubble?
No steel is allowed, no building supplies, no plastic pipe.
These the terrorists could use to launch rockets
against us.

Pumpkins and carrots you may have, but no delicacies,
no cherries, no pomegranates, no watermelon, no onions,
no chocolate.

We have a list of three dozen items that are allowed,
but we are not obliged to disclose its contents.
This is the decision arrived at
by Colonel Levi, Colonel Rosenzweig, and Colonel Segal.

Our motto:
‘No prosperity, no development, no humanitarian crisis.’
You may fish in the Mediterranean,
but only as far as three km from shore.
Beyond that and we open fire.
It is a great pity the waters are polluted
twenty million gallons of raw sewage dumped into the sea every day
is the figure given.

Our rockets struck the sewage treatments plants,
and at this point spare parts to repair them are not allowed.
As long as Hamas threatens us,
no cement is allowed, no glass, no medical equipment.
We are watching you from our pilotless drones
as you cook your sparse meals over open fires
and bed down
in the ruins of houses destroyed by tank shells.

And if your children can’t sleep,
missing the ones who were killed in our incursion,
or cry out in the night, or wet their beds
in your makeshift refugee tents,
or scream, feeling pain in their amputated limbs –
that’s the price you pay for harbouring terrorists.

God gave us this land.
A land without a people for a people without a land.


"O que não é permitido" de Richard Tillinghast

(NB: Esta é uma tradução não profissional. Agradeço sugestões de melhoria)

Não é permitido carne enlatada, nem pasta de tomate,
nem roupas, nem sapatos, nem notebooks.
Estes itens serão armazenados nos nossos armazéns em Kerem Shalom
até novo aviso.
Bananas, maçãs, dióspiros podem entrar em Gaza,
e pêssegos e tâmaras, e agora macarrão
(após a visita do senador americano).
São vitais para o sustento diário.

Mas damascos não, ameixas não, uvas não, abacates não, compotas não.
São luxos e não são permitidos.
Papel para livros didácticos não é permitido.
Os terroristas poderiam usa-lo para imprimir material sedicioso.
E porquê que precisam de livros
agora que as vossas escolas são entulho?
Nenhum aço é permitido, nem materiais de construção, nem tubo de plástico.
Os terroristas poderiam usa-los para lançarem foguetes
contra nós.

Abóboras e cenouras podem ter, mas não iguarias,
cerejas não, romãs não, melancia não, cebolas não,
chocolate não.

Temos uma lista de três dezenas de itens que são permitidos,
mas não somos obrigados a revelar o seu conteúdo.
Esta é a decisão a que chegaram
o coronel Levi, o coronel Rosenzweig e o coronel Segal.

O nosso lema:
"Não à prosperidade, não ao desenvolvimento, nenhuma crise humanitária".
Podem pescar no Mediterrâneo,
mas apenas até trés quilómetros da costa.
Para além disso abrimos fogo.
É uma pena as águas estarem poluídas
cinquenta* milhões de litros de esgotos não tratados são despejados no mar todos os dias
é o valor indicado.

Os nossos mísseis atingiram as centrais de tratamento de esgotos,
e neste momento as peças de reposição para repará-los não são permitidas.
Enquanto o Hamas nos ameaçar,
não é permitido cimento, nem vidro, nem equipamentos médicos.
Estamos a vigiar-vos com os nossos aviões sem piloto
enquanto cozinham as vossas escassas refeições em fogueiras
e deitam-se
nas ruínas das casas destruídas pelas bombas dos tanques.

E se os vossos filhos não dormirem,
faltam os que foram mortos na nossa incursão,
ou gritarem no meio da noite, ou urinarem nas suas camas
nas vossas improvisadas  tendas de refugiados,
ou gritarem, sentindo dor nos seus membros amputados -
esse é o preço que pagam por abrigar terroristas.


Deus deu-nos esta terra.
Uma terra sem povo para um povo sem terra.

* Entre a dúvida na conversão de galões americanos - o autor é americano - e os galões britânicos, entendi usar os dados de um relatório da ONU de Maio de 2008.

26 abril, 2010

No Dia da Liberdade um voto pela Palestina


Hoje é Dia da Liberdade. Só quem a não teve é que lhe sabe dar valor e em cada dia a saboreia.

Por isso neste dia 25 de Abril de 2010 faço votos pela liberdade da Pátria Palestina ocupada e anexada por Israel, aqui cantada por um seu poeta maior, Mahmoud Darwich.

EU SOU DALI

Eu sou dali. E tenho lembranças. Nasci como nascem as
as pessoas. Tenho mãe
e uma casa com muitas janelas. Tenho irmãos. Amigos. E
uma prisão com um frio postigo.

Tenho uma onda arrebatada pelas gaivotas, a minha
paisagem favorita, a erva daninha,
uma lua nos confins da palavra, o sustento dos passáros e
um olival que não morre.

Andei pela terra antes da passagem das espadas por um
corpo à volta do qual abancaram como à volta de uma mesa.

Eu sou dali. Restituo o céu a sua mãe quando chora por ela
e choro para que a nuvem me reconheça no seu regresso.

Aprendi, para quebrar a regra, todas as palavras ajustadas
ao tribunal do sangue.

Aprendi toda a linguagem e destruí-a para construir uma única
palavra: Pátria...

in: O Jardim Adormecido e outros poemas, Mahmud Darwich,
Selecção e tradução de Albano Martins, Colecção Campo da Poesia,
Editora Campo das Letras

25 abril, 2010

As portas que Abril abriu! de Ary dos Santos

É uma poesia datada (Julho-Agosto de 1975)  e engajada: Ary dos Santos nunca escondeu após 25 de Abril que era membro do Partido Comunista Português.

É uma longa poesia - 2.109 palavras. Mas é uma poesia que canta e conta a gesta de Abril,  sendo  premonitório quanto aos perigos que já então se anunciavam e que infelizmente se concretizaram.

"Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade."

Assim nos canta e encanta Ary. Por isso o escolhi. 

Para que o murmúrio final de que "...ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!", ecoe na nossa alma e se transforme num coro ensurdecedor que cale de vez as mentiras, patranhas e engodos que nos querem fazer engolir.

Neste tempo de sombras e tartufos é tempo de dizer : Basta!

As portas que Abril abriu!

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos nossos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975
José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)
in: "Obra poética" - Edições Avante

25 de Abril de 1974 - A poesia está na rua


A visão da pintora Maria Helena Vieira da Silva sobre o 25 de Abril de 1974 integrando a feliz expressão poética de Sophia de Mello Breyner Andersen: A poesia está na rua

Recordações do dia 25 de Abril de 1974 - A tarde (I) - Os capitães de Abril conquistaram a Liberdade Sozinhos?

À tarde passei pelo Largo do Carmo. Já estava pejado de gente, As pessoas irmanavam-se entoando palavras de ordem e fundiam-se com o aço dos carros de combate. Era como se os quisessem proteger com a sua própria carne. E como se o aço lhes fortalecesse a sua determinação.
 


É tempo de honrar este Povo anónimo que saiu à rua, cidadãos e cidadãs e militares - praças, cabos, furriéis e sargentos - e que por tantos terem sido, tão pouco são recordados.

Parafraseando Bertolt Brecht nas " Perguntas de um operário que lê" 1):

Os capitães  de Abril conquistaram a Liberdade
Sozinhos?


Notas:


1)
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?


Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?


Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?


No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros?


A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? 


Sobre quem
Triunfaram os Césares? 


A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? 


Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.


O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?


César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?


Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?


Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?


Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?


Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?


Tantas histórias
Quantas perguntas