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26 fevereiro, 2011

Sextas-feiras da Liberdade, por Tariq Ramadan

Tariq Ramadan
February 25, 2011

Freedom Fridays

Today, more than ever, homage is due to the historical uprising of the Tunisian people. Millions of women and men overcame fear and faced down terror. The Egyptian people followed their example and brought down the despot.

While the regimes may still be in place, an irreversible, uncontrollable movement has begun. North Africa and the Middle East will never again be the same. Whatever the schemes of military and the Western powers for political, geopolitical and economic control, a new dynamic has been created. Non-violent, determined and courageous mass movements have shown that anything is possible, that History is now forging ahead in the Arab world and the Muslim majority countries. 

From now on, it will be impossible to silence the craving for freedom and to halt the onward march of liberation, even though setbacks and missteps may occur.

The people of Libya have now taken to the streets and, city after city, freed its country from the grip of the eccentric dictator of Tripoli. The despot’s madness, as cunning as it is unpredictable, has not yet spoken its last. But it is clear that he too will fall ; that Libya will be freed of the horrors of his long reign. 

He too stole, tortured, summarily eliminated, and lied. For more than forty years he cleverly manipulated, provoked and humiliated the Western powers. Today, his own people have courageously chosen to confront him empty-handed. 

It is a question of vital importance to salute them, encourage them, assist them and support them. 

There is little that can be done from outside. But the movement is gathering strength ; we must do all we can to convince our own authorities to take a clear and forthright position. It will not come a moment too soon ! For how dismal is the now-confirmed revelation of years of silence, hypocrisy and falsehood : the Orient now stands as a revealing and distorting mirror in which the craven policies of the United States, of Canada, of Europe and Australia are reflected. 

Today, the people in revolt are chanting not a word of reproach toward the West. It could do no better than shake itself out of its stupor, as the Arab world is now doing. Courageous self-criticism is worth far more than guilty silence. Wait not a moment longer !

In Yemen, Bahrain, and Iraq ; in Morocco, Algeria, Iran, and Jordan… peoples are calling out their desire for freedom and dignity. Expressed in their Friday gatherings, the power of the people defies description ; the symbolism is overwhelming, irresistible. Muslim women and Muslim men, praying together, give voice to the universal human aspiration for liberty, justice and dignity, for the power of sovereign people. 

For those who have, over the years, painted Muslims as impermeable to the ideals of liberty and democracy, and naturally inclined to violence—due to the very essence of Islam—the answer is clear-cut and unequivocal : tens of millions of Muslims, on these Fridays, have chosen the path of resistance, of sacrifice and of liberation in a spirit of non-violence, respect for life, without ever criticizing the West, its values and its betrayals. They have done so alongside Christians, Anglicans and Copts, alongside atheists, communists, and citizens of all beliefs and ideologies. What finer answer could there be to the simple-minded, racist analyses propagated by populist parties in the West? 

On Freedom Fridays, with its massive crowds coming together to pray in the name of resistance and liberty, we witness, in real time, Islam—and of Muslims—joining forces with liberty, justice and democratic principles. 

That the first European leader to have greeted the resisting peoples and called upon the dictators to leave was the Turkish Prime Minister should serve as a caustic reminder of the value of the short-sighted and tendentious analyses of the “Muslim world” that have long infested Western diplomacy and intellectual life.

The movement must not end here. We must hope that the peoples continue their onward march, that they completely free themselves from the yoke of the tyrants and complete their democratic revolution. 

The final word has not yet been spoken, either in Tunisia, Egypt or Libya or elsewhere, but the movement will surely prove stronger than those who are attempting to control it. Therein lies its power. 

It is essential that all the components of the pluralist opposition seize this historic occasion to dialogue, to establish common fronts representing civil society in order that army commanders do not turn the revolution to their advantage, or to the advantage of foreign political or economic powers. We must hope that governments pay heed. 

They must either implement thoroughgoing reform or leave the scene entirely, and make way for systems of government that respect the popular will, and that apply uncompromisingly the five basic and inalienable principles : the rule of law, equality of all citizens, universal suffrage, limited electoral terms (accountability) and the separation of powers. This is the imperative, and the minimum acceptable : without corruption, insider privilege, and in full independence.

We must hope that the movement continues to spread throughout North Africa and the Middle East…up to and including Israel, that Prime Minister Benjamin Netanyahu and his racist foreign minister Avigdor Lieberman also be overthrown and with them, the interminable policy of colonization and non-respect of the dignity of the Palestinians and the Arab citizens of Israel.

On Freedom Fridays, everything is possible. Full of hope, with clear eyes, we must hail the march of the peoples and remind governments—whoever they may be, those of the tyrants or the shameless friends of those same tyrants—that nothing lasts forever, that despots and traitors can never be eternally shielded from their peoples, or from the judgment of History.

11 setembro, 2010

Um Brasil no Oriente?

Um Brasil no Oriente? in "CartaCapital"

Um artigo muito interessante comparando duas das potências regionais emergentes e em fase de afirmação, Brasil e Turquia, quer apresentando dados sócio-económicos, quer quanto ao seu percurso como Nações, desde a sua definição como Repúblicas, há mais de um século.

De facto Brasil e Turquia são duas potências regionais que estão a ganhar a cada dia maior relevo e credibilidade na cena internacional.

O Brasil, no entanto, em minha opinião, apresenta maiores fragilidades - existe desde logo menor coesão nacional e maior influência cultural e política norte-americana - e enfrenta maiores riscos de intervenções "amigas" para o manter no "rumo certo".

A reacção norte-americana face ao acordo Brasil-Turquia-Irão, sobre a gestão do combustível nuclear - um passo muito positivo e que no caso só honrou a diplomacia brasileira e turca - a reacção, escrevia, foi arrogantemente despropositada e ao pretender apoucar e menorizar o meritório trabalho realizado só demonstrou a sua incapacidade para "ler" o mundo de hoje, e a sua frustração por assim ter ficado ainda mais claro que a questão da periculosidade do Irão, neste momento, é a de um "tigre de papel".

Em meu entendimento, os sucessivos “insucessos” dos EUA são de sua inteira responsabilidade e meros álibis para justificarem a sua política de agressão na região.

Mas leia o artigo de Antonio Luiz Costa.

Um Brasil no Oriente?


Há muitas analogias entre o crescimento de Ancara como potência regional no Oriente Médio e o de Brasília na América do Sul

Além da parceria na tentativa de negociar um acordo do Irã com o Ocidente, há muitas semelhanças entre os momentos históricos vividos pelo Brasil e pela Turquia. Com cerca de 40% da população e do PIB e 67% das exportações do Brasil (mas volume maior de importações) o país do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan pesa menos na economia global, mas sua importância geopolítica é comparável, pois está numa das encruzilhadas estratégicas mais importantes do planeta e possui uma força militar considerável.

É o segundo país da Otan em contingente militar (depois dos EUA), tem a terceira maior força aérea (depois dos EUA e Reino Unido) e é uma potência nuclear informal, com 40 a 90 armas nucleares made in USA em seus arsenais, embora só possa usá-las de acordo com o comando da Otan (assim como a Alemanha, a Itália, a Holanda e a Bélgica).

Os dois países são comparáveis em termos de renda per capita e desenvolvimento humano. A Turquia está ligeiramente à frente no primeiro quesito e um pouco atrás no segundo, mas na mesma categoria. Ambos sofreram com décadas de alta inflação, controlada em 1995 no Brasil e em 2005 na Turquia (que converteu a antiga moeda à razão de 1 milhão para 1) e, por vezes, se alternaram no papel de paí-s com juros mais altos no mundo. Ambos também são exportadores de novelas de tevê – e as turcas, picantes pelos padrões da região, são tão populares em todos os países muçulmanos que as permitem quanto às brasileiras na América Latina.

Ao contrário do governo brasileiro, o turco tem um discurso religioso e conservador e é tido como de centro-direita, mas suas políticas social, econômica e externa não são tão diferentes quanto isso poderia fazer supor. O partido de Erdogan, Justiça e Desenvolvimento, é visto como o defensor dos interesses das maiorias contra a elite privilegiada. Seu viés conservador aparece mais na promoção do uso do véu e redução do número de mulheres em cargos executivos (de 15% para cerca de 11%), embora, por outro lado, 30 das 50 mulheres do Parlamento turco sejam de seu partido.

Ambos passam por trajetórias políticas comparáveis há mais de cem anos. Na Turquia, como no Brasil, militares positivistas derrubaram uma monarquia anacrônica, impuseram uma modernização laica e conservadora, arrogaram-se o papel de guardiões da República e desferiram golpes de Estado contra governos democraticamente eleitos.

Nos dois, a elite econômica concentrou uma parcela desproporcional da riqueza nacional – Istambul é a quarta cidade do mundo em número de bilionários, depois de Moscou, Nova York e Londres –, desprezou o Terceiro Mundo e sua-s próprias massas “atrasadas” e quis fazer-se europeia ou norte-americana. As duas elites fracassaram ao alinhar-se às potências ocidentais com a esperança de entrar em seus clubes fechados – o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a Turquia na União Europeia.

As elites, cá e lá, resistiram e conspiraram – no Brasil, com a agitação em torno do “mensalão”, na Turquia com uma tentativa de golpe logo após a posse de Erdogan, em 2003, e agitação militar ante a eleição presidencial de Abdullah Gul, do partido de Erdogan, em 2007 –, mas foram forçadas a se conformar com a eleição de “populistas” e ver esses conseguirem inéditos êxitos sociais, econômicos e diplomáticos. De 2003 a 2010, o PIB da Turquia cresceu com inflação controlada a uma média de 4,3%, ante 4% do Brasil. Este cresceu menos até 2006, mas reagiu bem melhor à crise mundial que a Turquia, muito dependente da Europa no comércio exterior.

Neste ano, a Turquia além de se projetar no cenário internacional tanto quanto o Brasil, quando Lula e Erdogan mediaram a tentativa de acordo com o Irã juntamente com os chanceleres Celso Amorim e Ahmet Davutoglu, tornou-se uma estrela regional ao defender a flotilha que tentou romper o bloqueio a Gaza, liderada por uma ONG islâmica turca que tem o apoio oficioso do governo e do partido de Erdogan.

Após a ação brutal e desastrada de Israel, Ancara acusou Tel-Aviv de pirataria, arrancou uma condenação formal da Otan e exigiu a libertação imediata e incondicional dos tripulantes e passageiros, que Israel queria submeter a julgamento. Benjamin Netanyahu, que não se dobrava ante Barack Obama e Hillary Clinton quanto a fazer concessões aos palestinos, cedeu e em seguida viu-se forçado a relaxar o bloqueio a Gaza, que dizia ser o elemento mais importante de sua política de segurança. Foi um recuo como não se via em Israel desde que os EUA forçaram sua retirada do Sinai em 1978.

Da noite para o dia, o gesto de Erdogan fez mais pela causa palestina do que anos de retórica do iraniano Mahmoud Ahmadinejad, para não falar da solidariedade vazia dos líderes árabes. Uma pesquisa, logo após o incidente, mostrou que 43% dos palestinos consideravam a Turquia como seu maior aliado, ante apenas 6% que indicaram o Irã.

Os povos do Oriente Médio que, por várias gerações, viram a Turquia com desconfiança, pela aliança com a Otan ou pela lembrança do domínio otomano, passaram a enxergá-la como porta-voz do mundo muçulmano. A Turquia busca uma política de “problemas zero” com os vizinhos – principalmente o Irã e a Rússia, que lhe fornecem, respectivamente, 30% e 60% de suas necessidades de petróleo – e sua aproximação com os governos da Síria e do Irã, que os EUA quiseram relegar ao “eixo do mal”, vem mudando a geopolítica da região.

Com exceção do Tadjiquistão (que fala uma língua aparentada ao farsi iraniano), as nações da Ásia Central – Azerbaijão, Turcomenistão, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão – falam línguas muito semelhantes ao turco e veem o país como modelo de nação que se modernizou sem abrir mão da identidade nacional e das raízes islâmicas. O crescimento da China e a recuperação da Rússia dissiparam os sonhos de hegemonia sobre a região que a Turquia alimentou após a queda da União Soviética, mas suas relações com esses países são boas e Ancara é a sua principal alternativa para reduzirem sua dependência dos dois gigantes e exportarem seu gás e petróleo ao Ocidente.

Ao mesmo tempo, a Turquia melhorou as relações com vizinhos europeus. A cúpula de 23 de junho, em Istambul, do Processo de Cooperação do Sudeste Europeu, que reúne a Turquia aos 12 países dos Bálcãs, apoiou oficialmente o governo de Ancara e condenou o ataque israelense à flotilha. A Sérvia esqueceu o rancor contra a antiga dominação otomana e pediu a mediação da Turquia em conflitos com as minorias muçulmanas do país.

O atual governo grego, em especial, tem procurado pôr um ponto-final em gerações de tensão com a Turquia, depois da amarga guerra pela independência contra os otomanos no século XIX, da derrota na guerra greco-turca de 1919-1922 (que causou a expulsão de 1,5 milhão de gregos da Ásia Menor) e da humilhação em Chipre, que, em 1974, fez cair a ditadura grega (que pretendia anexar a ilha, dividida a partir daí em duas repúblicas, uma das quais é um protetorado da Turquia). A necessidade tornou-se ainda mais premente com a crise financeira: a Grécia não tem mais como sustentar as Forças Armadas proporcionalmente mais caras da Europa contra a ameaça hipotética da Turquia, que é sua aliada na Otan. Suspendeu a compra de armas e quer negociar uma solução pacífica para a reunificação do Chipre, enquanto tenta atrair investimentos turcos para sua combalida economia.

A Turquia deixou de ser apenas uma periferia da Europa, ou uma cabeça de ponte para eventuais ações da Otan contra a Rússia ou o Oriente Médio, para ser uma liderança, se não o centro geopolítico de sua própria região. Mas seria simplista dizer que deixou de pretender ser a cauda da Europa para assumir o papel de cabeça do mundo muçulmano, ou do Oriente Médio.

O governo Erdogan elegeu-se prometendo pôr o país na União Europeia, que absorve 57% das exportações turcas e fornece 40% de suas importações. Por todos os critérios objetivos de estabilização da economia, gestão fiscal e reformas econômicas e políticas, fez mais para atender às exigências da organização que os governos seculares anteriores. Inclusive no que diz respeito aos direitos humanos: a ideologia islamista do partido de Erdogan mostrou-se mais compreensiva em relação à minoria curda que o nacionalismo extremado dos secularistas herdeiros da revolução de Kemal Atatürk.

Até os anos 1990, o governo turco negava a própria existência da língua curda, mas hoje há uma tevê e uma faculdade nessa língua. O governo tem aceitado o retorno de curdos que haviam se refugiado no norte do Iraque. Investimentos consideráveis têm sido feitos para promover o desenvolvimento da região curda, em busca de uma solução pacífica – por enquanto, frustrada pela intransigência dos separatistas curdos.

Apesar disso (e de a Turquia oferecer a possibilidade de reduzir a dependência europeia de gás russo intermediando exportações da Ásia Central e Oriente Médio), cresceu ainda mais a oposição à sua adesão, com Alemanha e França a insistir no caráter “cristão” da Europa. Por outro lado, o apoio popular turco à União Europeia caiu de 70%, em 2002, para 50% hoje. A crise europeia não eliminou, em princípio, o interesse de Erdogan, que continua a tentar mostrar-se otimista, mas tornou a aceitação na organização ainda menos provável. Desemprego em alta, exploração populista do ressentimento contra imigrantes e disputas entre os próprios europeus tornam ainda mais distante a possibilidade de um acordo para a integração de um grande sócio muçulmano, que implicaria a liberdade de seu povo migrar e trabalhar em países europeus.

A própria Europa, por seus preconceitos, e os EUA e Israel, por sua agressividade, vêm empurrando a Turquia para uma posição cada vez mais distante do Ocidente. O primeiro sinal da nova política, na primeira semana do governo Erdogan, foi o veto ao uso das bases e do e-spaço aéreo turco para a invasão estadunidense do Iraque, em 2003. Neoconservadores estrilaram, mas o novo governo recebeu total apoio dos militares e do povo e o próprio Bush júnior não ousou punir o país, dada sua importância estratégica.

Ainda em 2007, Israel via a Turquia como aliada e Shimon Peres foi o primeiro presidente israelense a falar no Parlamento turco. A virada deu-se com a retaliação desproporcional de Israel a Gaza em 2008. Isso ofendeu tanto a solidariedade religiosa dos turcos com os palestinos quanto a diplomacia turca, na época engajada em mediar um acordo entre Síria e Israel, a pedido de Tel-Aviv. No ano seguinte, com a eleição de um governo israelense ainda mais radical, as relações turco-israelenses esfriaram proporcionalmente.

O governo turco condenou repetidamente o terrorismo de Estado israelense, ajudou famílias palestinas com documen-tos otomanos provando sua posse da terra desde antes da chegada dos israelenses e não fez objeções a um seriado sobre Gaza que pintou os israelenses como vilões na tevê turca. O governo israelense não conteve o discurso agressivo de radicais como o chanceler Avigdor Lieberman, que rejeitou a mediação turca com a Síria e começou a congelar a venda de armas avançadas à Turquia. Em outubro de 2009, a Turquia suspendeu uma manobra militar conjunta da Otan com a aviação de Israel – e se essa ainda foi uma medida simbólica, que não suspendeu os acordos mais gerais e o comércio de armas entre os dois países, os acontecimentos deste ano precipitaram uma ruptura real.

Além de retirar seu embaixador de Tel-Aviv – e ameaçar não restaurar relações diplomáticas plenas se Israel não pedir desculpas formais e suspender o bloqueio a Gaza –, a Turquia congelou praticamente todos os acordos militares com Israel, exceto as vendas já fechadas. São 16 acordos no valor total de 56 bilhões de dólares, incluindo mísseis, tanques e aviões de combate.

Após o confronto com Israel, sionistas e republicanos carregaram contra Ancar-a. O Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional (Jinsa) cobrou a expulsão da Turquia da Otan: “Como membro, tem acesso à inteligência relacionada a terrorismo e ao Irã… Se a Turquia acha que seus melhores amigos são o Irã, o Hamas, a Síria e o Brasil (olhando para a Venezuela no futuro), a segurança dessa informação (e a tecnologia ocidental nas armas no arsenal turco) está em risco”. O Wall Street Journal, representante da oposição, tem atacado a Turquia sistematicamente, acusando seu governo de cumplicidade com extremistas. O conservador The Weekly Standard sugeriu um golpe militar na Turquia como “mal menor”.
Washington reagiu de maneira destemperada à mediação turco-brasileira que tentou evitar sanções ao Irã, mas foi mais cauteloso ante a crise turco-israelense, que ameaça pôr a perder sua estratégia global. Para a centro-direita liberal, a democrática e basicamente ocidentalizada Turquia, por insubmissa que seja, é um contrapeso importante ao Irã e às forças radicais no Oriente Médio – assim como o nacionalismo moderado do Brasil é visto por muitos como contrapeso à Venezuela e ao bolivarianismo.

Sabe que a oposição é uma aposta arriscada e um golpe de Estado poderia radicalizar a população em um sentido antiocidental. Talvez todo o mundo árabe, visto que Erdogan tornou-se o líder mais popular da região. No momento em que o peso relativo dos EUA e do Ocidente no mundo está encolhendo, seus governos se debatem com crises financeiras e a estratégia militar no Afeganistão e Iraque caminha para um completo fracasso, Washington não está em condições de correr mais esse risco.

Robert Gates, o secretário de Defesa dos EUA, preferiu culpar a União Europeia por recusar à Turquia a ligação orgânica com o Ocidente que ela deseja. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, respondeu responsabilizando a pressão de Bush júnior sobre o mundo muçulmano.

Mais lhes vale tentar reconquistar a Turquia com vantagens comerciais e políticas. O governo Erdogan não vai durar para sempre, mas a tendência natural do país, se não puder se integrar inteiramente ao Ocidente, é assumir um papel cada vez mais importante como potência emergente independente e mediadora entre o Ocidente e a Periferia, ao lado dos BRIC e do Irã.

Antonio Luiz M. C. Costa

Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica

17 agosto, 2010

Obama pressiona Turquia

O presidente dos EUA, Barack Obama, “alertou” ontem, segunda-feira, 16, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, de que a posição política de Ancara sobre Israel e o Irão poderão reduzir as possibilidades do país obter armamentos americanos, de acordo com reportagem do jornal britânico Financial Times (FT).

Erdogan quer comprar aviões não tripulados e teleguiados "drone" para atacar os separatistas curdos, após os EUA retirarem totalmente as suas tropas do Iraque até ao fim de 2011, segundo o FT.

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo) tem bases nas montanhas no norte do Iraque, na região semi-autónoma do Curdistão iraquiano, perto da fronteira com a Turquia.

"O presidente disse a Erdogan que algumas das acções que a Turquia tomou provocaram dúvidas que foram levantadas no Congresso (dos EUA) ", disse um funcionário superior americano ao FT.

Essas dúvidas centram-se sobre a questão "será que podemos ter confiança na Turquia como um aliado", afirmou o funcionário americano. "Isso significa que será difícil apresentar ao Congresso alguns dos pedidos que a Turquia nos fez, nomeadamente quanto à compra de certo tipo de armamento que a Turquia gostaria de comprar para lutar contra o PKK."

Os EUA já manifestaram “desapontamento” com a Turquia, por ter votado contra a quarta ronda de sanções ao Irão no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), em Junho.

Ancara afirma que o Irão deveria ter a oportunidade de levar em frente o acordo de troca de urânio por combustível nuclear, avalizado pela Turquia e pelo Brasil.

As relações entre a Turquia e Israel deterioraram-se muito após Israel ter atacado a flotilha de ajuda humanitária que se dirigia à Faixa de Gaza, em 31 de Maio. Nove activistas turcos foram mortos no ataque realizado por forças especiais israelitas.

Obama pediu à Turquia que moderasse a retórica que está usando sobre o incidente quando teve uma reunião, em Junho, com Erdogan durante a Cimeira do G-20, em Toronto, informou o FT.

Esta posição de Obama em nada abona a sua credibilidade. Um Prémio Nobel da Paz disponibiliza-se a vender armamento sofisticado que servirá para matar guerrilheiros autonomistas curdos – e civis como está largamente demonstrado no Afeganistão, no Iraque e em Gaza – tendo como única condição, que o promitente-comprador não afronte as suas imperiais decisões?

Em quê que serão os autonomistas curdos distintos dos kossovares? A quem os EUA forçaram o reconhecimento pelos países seus aliados, enredando os países da União Europeia, numa teia, em que mais cedo do que tarde irão ter que pagar o preço das suas próprias autonomias, enfraquecendo ainda mais o fraco cimento da União.

14 agosto, 2010

Turquia cria comissão governamental de inquérito ao ataque de Israel à "Flotilha daLiberdade"

A Turquia criou uma comissão governamental para investigar o ataque de Israel, à flotilha que levava ajuda humanitária a Gaza, informou na passada quinta-feira, 12, o jornal Haaretz, citando informações da agência de notícias AFP.

A investigação será dirigida pelo governo turco e investigará "o ataque e o tratamento dado aos activistas" antes de tirar conclusões, informou o gabinete do primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan.

A comissão turca incluirá peritos internacionais das áreas de justiça e dos transportes, assim como do Ministério da Marinha Turco.

A Turquia disse ter planos para apresentar as conclusões das investigações à Organização das Nações Unidas (ONU).

Na terça-feira, o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, reafirmou que Israel deveria assumir a responsabilidade pelo ataque e pelas mortes. "Ninguém mais pode ser culpado pela morte de civis em águas internacionais. Israel matou civis e deve admiti-lo", declarou.

28 julho, 2010

Cameron condena Israel e descreve Gaza como um "campo de prisioneiros"

O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, condenou na terça-feira o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, descrevendo o território palestino como uma "campo de prisioneiros" durante uma visita a Turquia.

"Não se pode permitir que a Faixa de Gaza continue como um campo de prisioneiros", afirmou Cameron.

"Há muito tempo que apoiamos o fim do bloqueio a Gaza", disse. "Há muito tempo que apoiamos que seja permitido o acesso humanitário adequado, e embora algum progresso tenha ocorrido, ainda temos uma situação em que é muito difícil entrar, é muito difícil sair, é muito difícil levar e trazer bens que são necessários."

"As pessoas em Gaza estão vivendo sob ataques e pressão constantes, numa prisão a céu aberto."

Israel e o Egipto mantêm desde Junho de 2007 um bloqueio à Faixa de Gaza que restringe o trânsito livre de produtos e pessoas para dentro ou para fora do território, governado pelo Hamas.

Um porta-voz da embaixada israelita em Londres afirmou que os moradores da Faixa de Gaza são prisioneiros do grupo Hamas, considerado por alguns países, entre eles Israel, uma organização terrorista.

"A situação em Gaza é o resultado directo do governo e das prioridades do Hamas", afirmou o porta-voz.

"Pirataria"

Cameron também criticou Israel pelo ataque das suas forças contra uma frota de navios que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, há cerca de dois meses.

A acção israelita do dia 31 de Maio contra a frota de seis barcos, que pretendia furar o bloqueio imposto por Israel ao território palestino para entregar ajuda humanitária, deixou nove mortos, cidadãos turcos, dezenas de feridos e gerou fortes críticas internacionais contra Israel.

Durante uma conferência de imprensa conjunta com Cameron, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, descreveu o ataque contra a frota como um acto de "pirataria".

"Israel deve pedir desculpas o mais rápido possível, pagar uma indemnização e suspender o bloqueio", afirmou Erdogan.

Depois do ataque, a Turquia retirou o seu embaixador e suspendeu exercícios militares conjuntos com Israel.

O governo turco também vem exigindo desde então um pedido de desculpas de Israel, que vem se recusando a fazê-lo.

Fonte: BBC

25 julho, 2010

Irão-Israel: Dois pesos e duas medidas

Actualizado a 27 de Julho de 2010

Hoje o Público informa que "União Europeia aprova novas sanções contra o Irão " ... "devido ao seu controverso programa nuclear."

Será que a UE vai sancionar as nações que detêm MESMO armas nucleares e que já ameaçaram usá-las, como o Paquistão e a Índia? Ou agravar as sanções à Coreia do Norte?

Ou sancionar Israel que detendo armamento nuclear, tem demonstrado total desrespeito pelos direitos humanos e humanitários e o direito internacional?

Isto para não referir os "intocáveis" - China, EUA, França, Reino Unido e Rússia - e os "fiéis depositários" da NATO (aquele tipo de aliança "defensiva" que já devia ter terminado), como a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália e ... a Turquia. 

Duvido.

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O editorial do Público de hoje (25 de Julho) "A retórica nuclear a dois andamentos" (http://jornal.publico.pt/noticia/25-07-2010/a-retorica-nuclear-a-dois-andamentos-19898137.htm), observa:

"O Irão projecta um reactor nuclear e o mundo agita-se. A Coreia do Norte ameaça com uma bomba e ninguém liga"

Um editorial interessante que eu recomendo.

Para mim a dualidade abissal de critérios tem a seguinte justificação:

Enquanto a Coreia do Norte está na zona de influência da China e por mais ténue que pareçam os apoios, a China não permitiria que os EUA se atrevessem a alterar o "status quo".

O Irão encontra-se na zona de influência da antiga URSS. Hoje, a sua sucessora, a Federação Russa, está enfraquecida, e mais desejosa de ter acesso às tecnologias americanas do que em defender activamente a sua suposta "zona de influência". Veja-se a sua posição na última decisão do Conselho de Segurança que aprovou um novo pacote de sanções contra o Irão.

O Irão é um espinho cravado no pueril "orgulho/arrogância" americano, desde 1979, quando os funcionários da sua embaixada foram feitos reféns por estudantes iranianos e as tentativas de resgate terminaram em desastre. E por ser um "mau exemplo" de independência para o mundo face ao "império".

Para além do mais o Irão é "apetecido" quer pelas suas importantes reservas de petróleo, quer pelo seu posicionamento geográfico em geral, quer pela posição que detém de fácil controlo sobre o Golfo Pérsico, nomeadamente no tocante ao Estreito de Ormuz, o que só por si, em meu entendimento, torna a bomba nuclear dispensável, para o Irão.

De facto, com a possibilidade de fechar o Estreito de Ormuz, pelo menos durante algum tempo, bastando para isso afundar alguns navios em pontos estratégicos, o Irão, de facto, não precisa de bombas nucleares, para manter os “interesses ocidentais” – leia-se EUA, “capangas”, alienados e "capachos" – sob ameaça.

O que acontece com o Irão é simplesmente vergonhoso.

Podemos não gostar do regime iraniano em si – para mim está nas antípodas do que eu defendo;

Podemos clamar contra a inobservância de valores que defendemos, nomeadamente no tocante aos direitos humanos – mas certas potências e organizações não tem moral para atacar o Irão nesse plano, nomeadamente, quando os desrespeitam em sua própria casa e quando apoiam, quer à descarada, quer de forma indirecta, estados párias, que também os desrespeitam;

Podemos entender que alguns dos discursos do Senhor Mahmoud Ahmadinejad são anti-semitas – eu aqui fico sempre na dúvida, porque sendo ele um homem inteligente, não sei se é por populismo para uso interno que os profere ou se nessas ocasiões é um “agente adormecido” da Mossad que “acorda” a servir os interesses da clique “nacional"-sionista que governa Israel... mas que dizer dos discursos anti-iranianos de dirigentes americanos, europeus, e dos "nacionais"-sionistas israelitas?

Podemos entender as suas ameaças contra Israel como um "crime de ódio e de incitamento"... mas como poderemos classificar as declarações da Senhora Hillary Clinton, actual Secretária de Estado da Administração Obama, quando em campanha eleitoral, a 21 de Abril de 2008, declarou, referindo-se ao Irão, e no contexto de um possível futuro ataque nuclear deste a Israel "... we totally obliterate them", traduzindo, "...nós extinguíamo-los totalmente". TOTALMENTE!
.


O certo é que mais de dois anos passados… da bomba nuclear iraniana nem vê-la e as sanções entretanto agravaram-se e a retórica "imperial" subiu de tom.

De facto sanciona-se o Irão por querer desenvolver energia nuclear para fins pacíficos, no pressuposto de que, o que pretende é construir armas nucleares, mas cala-se o poderio nuclear israelita - a única potência nuclear de facto da região - fornecido pelos EUA, e até as comprovadas tentativas de vender esses “produtos” a outros Estados, como já foi provado, no tocante à África do Sul, quando ainda vigorava o regime do apartheid

O que continua por provar é que o Irão tenha por objectivo construir uma bomba nuclear.

Mas sanciona-se o Irão... porque a questão não é o nuclear mas antes o Irão em si.

Destruído o Iraque resta o Irão como potência regional. O que não é bom para os americanos e pouco simpático para os Russos. E a Turquia tem-se salvo porque tem sido uma aliada na NATO e de certa forma subserviente para com os interesses do "império".

A prova provada é a recusa liminar de uma solução que permitiria abrir caminho para o controlo do enriquecimento do urânio, construída pelo Brasil e pela Turquia e acordada com o Irão. Porquê?

Porque a solução não foi gizada pelo "império", apesar de estar de acordo com os princípios basilares pelos seus representantes enunciados uns tempos antes?

Não! Porque a Paz na região não interessa ao "império" e aos interesses "nacional"-sionistas que de certa forma o influenciam.

Entretanto, se de Ahmadinejad se refuta o discurso anti-semita – e bem – nada se diz do discurso dos governantes de Israel, cada vez mais arabofobo, xenófobo, racista e eugenista, nem das medidas concretas de descriminação e de apartheid que de forma opressiva, repressiva e violenta está a tentar impor à sociedade israelita e desde há muito é política seguida nos territórios ocupados da Palestina.

E pouco se fala da ocupação colonial da Palestina; nem do maior campo de concentração a céu aberto: a Faixa de Gaza; nem dos crimes que quotidianamente ocorrem contra os palestinos. E nada se resolve|

Dois pesos e duas medidas ou parafraseando a velha máxima tão americana: "Sim Israel comete crimes contra o direito internacional, contra o direito humanitário, contra os direitos do homem, mas é dos nossos".

(O Presidente Franklin D. Roosevelt (FDR) supostamente declarou em 1939: "Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch.")

07 julho, 2010

Israel, U.S.: Um encontro e uma concessão de Israel

Israel, U.S.: A Meeting and an Israeli Concession | STRATFOR


Na conferência de imprensa conjunta após a reunião de 6 de Julho, em Washington, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o presidente dos EUA, Barack Obama, sairam a mostrarem que as relações bilaterais continuam fortes apesar de meses de divergências muito públicas sobre a questão palestina. A percepção foi que Netanyahu vem resistindo às concessões que Obama procura de Israel sobre a questão.

Washington tem trabalhado para demonstrar que o sócio minoritário não pode desprezar o sócio sénior na relação EUA-Israel.

Não foi a reunião Obama-Netanyahu [de ontem] que estabeleceu que os Estados Unidos conseguiram o que queriam, mas sim uma notícia na media israelita, no mesmo dia, que relatava como as Forças de Defesa Israelitas indiciaram um soldado sob a acusação de homicídio, que remonta à ofensiva israelita de 2008, à Faixa de Gaza.

O sargento de infantaria é acusado de matar duas mulheres palestinas e está entre um grupo de três militares, incluindo um comandante, que enfrentam processos disciplinares pela sua conduta durante a ofensiva de 2008, conhecida como "Operação Cast Lead". Até agora, Israel tinha negado que qualquer um de seus soldados estivessem envolvidos na matança de civis, apesar do Relatório Goldstone para o Conselho dos Direitos Humanos, ter concluido que Israel atacava deliberadamente alvos civis.

O movimento israelita, que representa uma grande concessão, permite à administração de Obama argumentar que Washington está a fazer progressos nos seus esforços para resolver a questão palestina. 

Os Estados Unidos tem estado sob pressão de seus aliados muçulmanos para levar Israel a um compromisso, especialmente da Turquia, que assumiu a questão palestina como uma causa fundamental. Mais importante ainda, a administração de Obama pode agora exigir que os palestinos retribuiam avançando em direcção a uma solução.

Washington entende que, com toda a probabilidade, a luta intracomunitária entre o Hamas e o Fatah impedirá os palestinos de serem capazes de agir concertadamente.

Mas o objetivo de Washington é a inversão do ónus da responsabilidade para os palestinos e os estados muçulmanos seus patronos, pela falta de progresso sobre as negociações, e não necessariamente para obter progressos. E isso serve os israelitas, que podem reduzir alguma da pressão internacional em que se encontram actualmente sem oferecer concessões significativas.

06 junho, 2010

Egípcios casados com israelitas podem perder nacionalidade. Uma tontice obscena

Egípcios casados com israelitas podem perder nacionalidade - Mundo - PUBLICO.PT

É pena que a maior parte dos comentários sobre estas questões, no espaço a eles dedicados pelo Público, caiam tantas vezes numa tontice tão obscena como a da decisão que o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto acaba de publicar.

É interessante notar que esta decisão saí no momento em que o presidente Hosni Moubarak corre o risco de perder influência face a uma Turquia que se ergue e se afirma, não só como potência regional, mas como o "campeão dos países islâmicos. pela mão de Tayyip Erdogan.

A primeira resposta foi ter aberto as portas de Rafah no dia 1 de Junho, - o único ponto de passagem oficial, em território egípcío, para Gaza - antes fechadas para agradar ao seu aliado Israel, ao seu patrono EUA e pelo temor que tem aos palestinos, enquanto "agentes sediciosos" que poderiam ajudar a minar o seu poder.

Quanto à questão religiosa eu diria que os islamitas lá chegarão.

As posições de Mohammed Sayyed Tantawi, o já falecido grande imã da Al-Azhar, a mais antiga e importante universidade do mundo islâmico, e referido na notícia, são a prova que o caminho se está a fazer.

Tal como o trabalho que o Prof. Tariq Ramadan, entre outros, tem desenvolvido, através de seus escritos e palestras onde tem contribuído substancialmente para o debate sobre a presença dos muçulmanos no Ocidente e sobre o ressurgimento islâmico no mundo muçulmano. Ele está activo tanto a nível académico, como público, através de palestras por todo o mundo, sobre justiça social e o diálogo entre civilizações.

A notícia do Público trazia uma fotografia onde se vê um casal muçulmano numa cerimónia de casamento onde a noiva aparece toda velada. Aliás deve ser uma fotografia de um casamento realizado em 29 de Julho de 2009 em Amã, quando se casaram 124 casais, e é pena não se ver o desfecho, que é, na maioria dos casos, o descobrir do rosto, que parece ser o que o noivo se prepara para fazer.

Confundir franjas da sociedade islamita, que tem uma visão mais integrista do Corão e por isso, onde o uso da Niqba e da Burka, estão mais arreigados na sua cultura, com a restante comunidade, é tomar a árvore pela floresta.

Entendo que a comunicação social, neste caso o Público, deveria ser mais cuidadosa a tratar destes assuntos.


Assim aquela imagem fora do seu contexto foi o suficiente para despertar os sentimentos islamofóbicos de uns tantos, que logo ali verteram toda a sua asca.

Acho que lhes faria bem seguirem este link para conhecerem as diferentes formas de cobrir a cabeça e esconder os cabelos usadas pelas mulheres muçulmanas.

E talvez não fosse má ideia recordar que em Portugal, ainda não há muito tempo, as católicas não podiam entrar de cabeça descoberta, nem de calças, nem de braços ao léu nas igrejas e que ainda hoje o seu papel, na comunidade religiosa e civil, continua a ser menorizado e secundarizado; que é tradição que as noivas entrem cobertas por um véu, hoje em dia, cada vez mais diáfano é certo; e que muitas das "esposas de Cristo" ainda se vestem de forma muito idêntica a uma mulher muçulmana que use hijab  e jilab.

 hijab                                          jilab

Isto para não falar nos lenços de cabeça (hijabs) usados em algumas regiões do país, ou em certo tipo de ocasiões.

As diferenças, em certo estádio de desenvolvimento religioso-cultural, não são assim tão distintas, como se pode verificar nesta imagem:

01 junho, 2010

Israel criticado no Conselho de Segurança; foi convocada com urgência uma reunião da NATO

Israel criticado no Conselho de Segurança - Mundo - PUBLICO.PT

Para além do que se vai passando no Conselho de Segurança e de mais algumas posições a última linha deste artigo é de facto significativa:

"A NATO convocou também uma reunião de urgência para amanhã, em Bruxelas."

A Turquia é membro da NATO e a sua soberania foi posta em causa por Israel e vai querer clarificar a situação. Vai querer ver como é que os EUA e a Europa vão responder a este incidente. E o papel da Turquia é decisivo no sistema de defesa e controlo daquela parte do mundo.

A Turquia está de volta querendo afirmar-se não só como uma potência regional  mas como uma potência emergente a nível mundial.

31 maio, 2010

O silêncio de Cavaco Silva quanto às vítimas do acto de agressão israelita

Durante o seu mandato até hoje o Presidente da República já enviou 101 mensagens de condolências - pelo menos foi este o número que surgiu quando fiz uma pesquisa no site da PR utilizando o termo "condolências.

Mensagens de condolências pelo falecimento de figuras portuguesas ou da cena internacional; ou pelas vítimas de desastres naturais - sismos, cheias, intempéries; por acidentes de viação, aviação e ferroviários e até pelo rebentamento de paióis.

E também às vítimas dos seguintes (7) actos de terrorismo::
  • 2006.06.12 - Ataques terroristas na Índia
  • 2007.04.12 - Atentados sangrentos na Argélia
  • 2007.12.27 - Atentado contra Benazir Bhutto
  • 2008.05.19  - Atentado em Jaipur
  • 2008.11.27 - Acto de terrorismo em Mumbai
  • 2009.07.17 - Terrorismo em Jakarta
  • 2010.03.29 - Actos de terrorismo em Moscovo
Verifico, com surpresa e desagrado, que Sua Excelência ainda não teve tempo de enviar, (2010.05.31 - 22:48) pelo menos para a Turquia, uma mensagem de condolências às famílias dos activistas humanitários, que pereceram sobre o tombadilho de um barco de bandeira turca, em águas internacionais, às mãos de um grupo de comandos israelitas, num acto que muitos consideram um acto de pirataria, contrário ao Direito Internacional, em geral, e à Convenção do Direito do Mar, em especial.

Turquia: Crescem os protestos contra Israel

Centenas de pessoas protestam contra o ataque israelita à flotilha que transportava ajuda humanitária para Gaza, junto do consulado israelita em Istambul, de acordo com a Israel National News.

Um dos organizadores da flotilha Yardim Vakfi declarou que os manifestantes que se encontram junto do edifício do consulado irão dirigir-se para a Praça Taksim ao meio-dia (hora local) onde poderão manifestar-se em maior número. De seguida voltar
ão para junto do consulado, aonde permanecerão até que os detidos por Israel sejam libertados, segundo a  NTV Turquia.

Turquia: Manifestantes confrontam polícia junto ao Consulado de Israel

Segundo o Haaretz, dezenas de manifestantes arremessaram pedras contra as instalações do consulado de Israel em Istambul, entrando em confronto com a Polícia turca que guardava o edíficio.

Flotilha de 8 navios transportando 700 activistas e 10.000 toneladas de ajuda humanitária para Gaza enfrentam bloqueio israelita


Um comboio de seis navios que transporta 10.000 toneladas de ajuda humanitária partiu para Gaza no passado domingo, desafiando os avisos de Israel de que serão interceptados, apressados e conduzidos para Aschkelon, onde os activistas ficarão detidos e daí deportados.

Os navios, liderados por uma embarcação turca, partiram de águas internacionais próximas de Chipre, na tarde de domingo, transportando cerca de 700 activistas, incluindo escritores, jornalistas e parlamentares da Irlanda, da Suécia e da Turquia. 

"Se tudo correr bem e não houver problemas ou interrupções de qualquer tipo, deveremos chegar a Gaza por volta das 14 horas (tempo local) de amanhã (segunda-feira), declarou Mary Hughes-Thompson, porta-voz do movimento "Free Gaza", um das entidades organizadoras. 

A frota foi organizada por grupos pró-palestinos e por uma organização turca de direitos humanos. 

A Turquia pediu a Israel que permita a passagem da flotilha com segurança e afirmou que os navios transportam  apenas ajuda humanitária. 

A Turquia é um dos mais próximos aliados de Israel no Médio Oriente , mas o relacionamento entre os dois países tem vindo a degradar-se. Aliás o primeiro-ministro turco Tayyip Erdogan tem criticado frequentemente as políticas de Israel quanto aos palestinos. 

Recorde-se que Israel e Egipto fecharam as fronteiras de Gaza após o Hamas, ter assumido o controlo do território em 2007 e que a tensão na região mantém-se elevada desde a agressão israelita a Gaza entre os finais de 2008 e Janeiro de 2009.

A população de Gaza, milhão e meio de seres humanos sobrevive à míngua de tudo, devido ao desumano bloqueio de Israel, apesar da ajuda das Nações Unidas.

De todas as formas Israel enfrenta um dilema insolúvel segundo Ismail Haniyeh, o líder do Hamas na Faixa de Gaza, que afirmou no passado sábado: “Se os navios chegarem a Gaza, é uma vitória para Gaza. Se forem interceptados e aterrorizados pelos Sionistas, será igualmente uma vitória para Gaza, e eles continuarão a vir com novos navios para quebrar o bloqueio a Gaza.”