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01 agosto, 2010

Uri Avnery: Nada de novo no "front oriental”

Uma crónica de Uri Avnery, publicada em 31 de Julho, e traduzida por Caia Fittipaldi, de que se manteve a norma de escrita.

Pessoas dotadas de audição política sensível surpreenderam-se essa semana com duas palavras que, parece, escaparam por acidente dos lábios de Binyamin Netanyahu: “front oriental”.

Há muito tempo, as mesmas palavras andavam em todas as bocas, parte do vocabulário diário da ocupação. Nos últimos anos ficaram esquecidas, cobertas de pó no fundo do quintal político.

A expressão “front oriental” nasceu depois da Guerra dos Seis Dias. Era usada como muro de arrimo, para sustentar a doutrina estratégica segundo a qual o rio Jordão seria “fronteira de segurança” de Israel.

A teoria rezava que seria possível que três exércitos árabes – do Iraque, da Síria e da Jordânia – se reunissem a leste do Jordão, cruzassem o rio e ameaçassem a existência de Israel. Israel teria de contê-los antes de entrarem no país. Portanto, o vale do Jordão teria de ser base permanente do exército de Israel, os soldados não poderiam afastar pé de lá.

Para começar, sempre foi teoria muito duvidosa. Para participar de tal ofensiva, o exército do Iraque teria de reunir-se, atravessar o deserto, acampar na Jordânia, em operação logística demorada e complexa, o que daria ao exército de Israel tempo de sobra para atacar os iraquianos, muito antes de alcançarem a margem do rio Jordão. Quanto aos sírios, muito mais fácil seria atacarem Israel nas Colinas do Golan, em vez de mover seus exércitos para o sul, para atacar pelo leste. E a Jordânia sempre foi parceiro secreto – mas leal – de Israel (menos durante o curto episódio da Guerra dos Seis Dias.)

Em anos recentes, essa teoria tornou-se muito evidentemente ridícula. Os EUA invadiram o Iraque e derrotaram e desmontaram o glorioso exército de Saddam Hussein, o qual, como logo se constatou, não passava de tigre de papel. O reino da Jordânia assinou tratado oficial de paz com Israel. A Síria não perde ocasião de demonstrar que anseia pela paz, bastando para isso que Israel devolva as colinas do Golan. Em resumo, Israel não tem o que temer dos vizinhos orientais.

Sim, as coisas podem mudar. Mudam os regimes, mudam as alianças. Mas é impossível imaginar situação na qual três assustadores exércitos cruzem o Jordão rumo a Canaã, como os filhos de Israel na história bíblica.

Sobretudo, a ideia de ataque por terra, como a blitzkrieg dos nazistas na 2ª Guerra Mundial, já é história. Em todas as guerras presentes e futuras, fator dominante serão os mísseis de longo alcance. Podem-se imaginar os soldados israelenses em espreguiçadeiras no vale do Jordão, assistindo ao voo dos mísseis pelo céu, em todas as direções.

Assim sendo, como essa ideia estúpida voltou à vida?