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13 julho, 2010

Racismo em nome da lei judaica: Editorial do Haaretz

Racism in the name of halakha - Haaretz Daily Newspaper | Israel News Published 03:09 11.07.10


Este foi o editorial do Haaretz de domingo passado. Escolhi publicá-lo porque entendo que ele nos ajuda a compreender as forças presentes na sociedade israelita e as tensões que nela existem.

Não haverá paz se a sociedade israelita não a entender como um bem supremo e não fizer dela uma opção clara.

Este editorial é o reflexo de uma sociedade com valores positivos mas onde o fundamentalismo religioso e o ultra "nacional"-sionismo detém lugares dominantes e determinantes. Veja-se a sua representação no Knesset e na aliança governamental Netanyahu-Lieberman e a sua cada vez maior preponderância nos lugares de chefia das Forças Armadas israelitas.

São essas forças - onde até está representado um partido denominado de "Trabalhista", filiado na "Internacional Socialista"e que tem como líder um criminoso de guerra chamado Ehud Barak, - que suportam o racismo e o apartheid, a opressão e a violência repressiva.

São essas forças que o Haaretz corajosamente denuncia.

Rabis estão explorando medos e exaltando emoções sob o pretexto de fazer cumprir a lei religiosa judaica (Halakha).

Uma carta foi distribuída, por três rabis, no sul de Telavive em que eles apelavam aos residentes para que não alugassem os seus apartamentos para migrantes e refugiados que tentam instalar-se na cidade com a pretensa preocupação com o bem-estar dos moradores e compaixão para com os requerentes de asilo. Mas dificilmente consegue esconder o racismo flagrante escondido nas entrelinhas.

Os rabis alertam os moradores para não darem acesso às suas casas a "trabalhadores ilegais", mas é claro que a manutenção da lei não é a sua preocupação, na medida em que não estão exigindo um tratamento semelhante para os cidadãos israelitas.

Quanto ao argumento de que a presença dos estrangeiros está causando um aumento da criminalidade e de casamentos interculturais, os rabis estão mesmo tomando a lei nas suas próprias mãos e ignorando as autoridades civis e a polícia.

Os grupos mais desfavorecidos da população que vivem no sul de Telavive encontram-se pressionados para receberem refugiados, trabalhadores migrantes e colaboradores.

Esta situação cria atrito preocupante que agrava a sensação dos moradores de um tratamento injusto e de alienação.

É difícil pedir aos habitantes desses bairros desfavorecidos que recebam os párias do mundo com os braços abertos, sem se sentirem ameaçados. Nesta realidade complexa, o papel dos líderes religiosos e civis é tentar colmatar as falhas e encontrar maneiras criativas de convivência.

Os rabis que assinaram a carta não são funcionários públicos. No entanto, o público é muito influenciado pelas suas opiniões.

O município de Telavive fez mais do que um pequeno esforço para cuidar dos trabalhadores migrantes e poderia ter usado a ajuda dos rabis nos contactos com os migrantes e os seus líderes, para tentar integrar os recém-chegados na vizinhança, como têm sido feito em muitos outros países.

Os rabis, no entanto, preferem explorar o medo dos moradores e inflamar emoções em nome da halakha, a lei religiosa judaica.

No fim-de-semana, um corajoso líder, o rabi Yehuda Hamutal, que fundou o movimento político Meimad, faleceu.

O seu partido, transportou o estandarte da tolerância, do humanismo e da busca da paz em nome da fé religiosa e, embora os membros do seu movimento tenham sido sempre uma minoria, forneceu uma alternativa importante à radicalização dos nacionalistas ultra-ortodoxos.

Nos últimos anos, os alunos e seguidores do rabi Hamutal caíram no silêncio, e o estatuto de rabis, como estes que escreveram a carta sobre os migrantes, tornou-se mais forte.

Espera-se que o município entenda o dano que estes rabis estão fazendo e publicamente desassocie a cidade das suas questionáveis actividades e, em vez disso, ofereça a opção de uma alternativa, de convivência para todos os moradores da cidade - tanto temporários como permanentes - uma coexistência livre do medo e do racismo.

06 julho, 2009

BANANAS, por Uri Avnery, ou como um exército de cidadãos se transforma numa máquina de opressão

NEM TODOS os dias, nem mesmo em cada década, o Supremo Tribunal Militar censura o Procurador-Geral. A última vez que isso aconteceu foi há 20 anos atrás, quando o Procurador-geral se recusou a produzir acusação contra um oficial que ordenara aos seus homens que quebrassem os braços e as pernas de um palestino que se encontrava amarrado. O polícia alegou que considerava ser este o seu dever, depois de o ministro da Defesa, Yitzhak Rabin, ter exortado a "quebrar os seus ossos".


Bem, esta semana aconteceu de novo. O Supremo Tribunal tomou uma decisão que foi equivalente a uma bofetada na cara do actual chefe do departamento jurídico do Exército, o Brigadeiro Avichai Mendelblit.

O incidente em questão ocorreu em Ni'alin, uma aldeia que foi roubada de uma grande parte das suas terras pela Barreira de Separação [o Muro]. Tal como os seus vizinhos em Bil'in, os moradores manifestam-se todas as semanas contra a Barreira. Geralmente, as reacções do exército em Ni’alin são ainda mais violentas do que em Bil'in. Quatro manifestantes já lá foram mortos.

Neste particular incidente, o tenente-coronel Omri Borberg deteve um manifestante palestino, que estava sentado no chão, algemou-o e vendou-lhe os olhos, e sugeriu a um dos seus soldados "anda cá, vamos dar-lhe uma borracha". Ele ordenou ao soldado categoricamente que disparasse uma bala de borracha.

Para quem não sabe: "balas de borracha" são balas de aço revestidas com borracha. A uma certa distância podem causar ferimentos dolorosos. A curta distância podem ser fatais. Oficialmente, os soldados estão autorizados a utilizá-las desde que guardem uma distância mínima de 40 metros.

Sem hesitar, o soldado atingiu o prisioneiro no pé, mas esta foi uma "ordem manifestamente ilegal", que um soldado do exército é obrigada por lei a desobedecer.

Segundo a clássica definição de juiz Binyamin Halevy no caso do massacre de Kafr Kassem, em 1957, a "bandeira negra da ilegalidade" está ondeando sobre tais ordens. O prisioneiro, Ashraf Abu-Rakhma, foi atingido e caiu no chão.

Veteranos das manifestações de Ni'alin e Bilin sabem que incidentes semelhantes acontecem o tempo todo. Mas o caso de Abu-Rakhma foi especial por um motivo: ele foi documentado por uma jovem mulher de uma varanda próxima à cena do crime com uma das câmeras fornecidas aos aldeões pela B'tselem, uma organização israelita de direitos humanos.

Assim, o Tenente-Coronel cometeu um pecado imperdoável: foi fotografado no acto. Geralmente, quando os activistas pela paz divulgam esses erros, o porta-voz do exército chega com o seu saco de mentiras e surge com alguma declaração mentirosa ("Atacou o soldado", "Tentou tirar-lhe a arma", "Resistiu à prisão"). Mas mesmo um talentoso porta-voz tem dificuldades em negar algo que é claramente visto no filme.

Quando o Procurador-Geral Militar decidiu processar o oficial e o soldado por "conduta imprópria", Abu-Rakhma e algumas organizações de direitos humanos israelitas apelaram ao Supremo Tribunal. Os juízes aconselharam o Procurador a mudar a acusação. Ele recusou, e por isso o assunto chegou novamente ao tribunal.

Esta semana, numa decisão incomum pela sua linguagem severa, os três juízes (incluindo um juiz do sexo feminino e um outro religioso), fixaram que a acusação de "conduta imprópria" era em si mesmo imprópria. Assim ordenaram a acusação de ambos, oficial e soldado, por um crime muito mais grave, a fim de tornar claro para todos os militares que maltratar um prisioneiro "é contrário ao espírito do estado e do exército."

Após esta bofetada no rosto, qualquer pessoa decente ter-se-ia demitido por vergonha. Mas não Mendelblit. O barbudo brigadeiro que usa kippa é um amigo pessoal do Chefe do Estado-Maior, Gabi Ashkenazi, e está esperando promoção a Major-General, a qualquer momento.

Recentemente, o Procurador-Geral recusou-se a acusar um oficial superior que afirmou em tribunal, enquanto testemunhava a favor de um subalterno, que é correcto maltratar palestinos fisicamente.

Ashkenazi deve muito ao seu Procurador-Geral, e por outras razões. Mendelblit tem feito um enorme esforço para encobrir crimes cometidos durante a recente guerra de Gaza, desde o plano de guerra de Ashkenazi aos crimes cometidos individualmente por soldados. Ninguém tem sido levado a julgamento, ninguém sequer foi seriamente investigado.

NO DIA em que a decisão do Supremo Tribunal relativa a Mendelblit foi publicada, outro brigadeiro também fez as manchetes. Curiosamente, o seu primeiro nome também é Avichai (não é um nome muito comum), também é barbudo e usa um kippa.

Num discurso perante mulheres-soldado religiosas, o Rabino-Chefe do exército, Brigadeiro Avichai Rontzky, expressou a opinião de que o serviço militar das mulheres é proibido pela religião judaica.

Uma vez que todas as jovens mulheres judias em Israel são obrigadas por lei a servir por dois anos, e as mulheres desempenham muitas tarefas essenciais no exército, esta é uma declaração sediciosa. Mas ninguém ficou realmente surpreso com este rabino.

Rontzky foi escolhido para este cargo pelo ex-Chefe do Estado-Maior, Dan Halutz. Ele sabia o que estava a fazer.

O rabino não nasceu numa família religiosa. Na verdade, ele era bastante "secular", membro de uma unidade de elite do exército, quando ele viu a luz e "renasceu". Tal como muitos outros deste tipo, ele não ficou a meio caminho, foi para extremo mais radical, tornando-se colono e criando uma Yeshiva (seminário religioso) num dos mais fanáticos colonatos.

Rontzky é um homem à medida de quem o nomeou. Recorde-se que, quando lhe perguntaram o que ele sentia quando deixava cair uma bomba de uma tonelada, numa área residencial, o General da Força Aérea Halutz respondeu: "um ligeiro solavanco na asa".

Numa discussão acerca de quando se deveria tratar um ferido palestino durante o Shabat, Rontzky escreveu que "a vida de um goy é certamente importante ... mas o Shabat é mais importante." Significado: um goy a morrer não deve ser tratado num Shabbat. Mais tarde retractou-se. (Em hebraico moderno coloquial, um goy é um não-judeu. O termo tem claramente conotações depreciativas.)

O exército israelita tem algo que é chamado de "Código Ético". É verdade, o pai espiritual do Código, o Professor Asa Kasher, não defendeu as atrocidades da operação "chumbo fundido", mas Rontzky fui muito mais longe: afirmou inequivocamente que "Quando há um choque entre... o Código Ético e os Halakha (lei religiosa), certamente o Halakha deve ser seguido. "

Numa publicação distribuída por ele, foi dito que "a Bíblia proíbe-nos que desistamos nem que seja de um milímetro de Eretz Israel". Por outras palavras, o Rabino-Chefe do exército, um brigadeiro das Forças de Defesa de Israel, afirma que a política oficial do governo israelita – desde a "separação" de Ariel Sharon até ao recente discurso de Binyamin Netanyahu, sobre um "Estado palestino desmilitarizado" - é um pecado mortal.

Mas o ponto mais alto foi alcançado numa brochura que o corpo de rabinos do exército distribuiu aos soldados durante a Guerra Gaza: "Exercer misericórdia para com um inimigo cruel significa ser cruel para com inocentes e honestos soldados. Na guerra como na guerra ".

Isto foi uma clara incitação à brutalidade. Pode ser visto como um convite para os actos que constituem crimes - os mesmos actos que o seu colega, o Procurador-Geral Militar, fez todo o possível por encobrir.

NENHUM DOS dois barbudo brigadeiros teriam permanecido no cargo por um único dia se não desfrutassem do pleno apoio do Chefe do Estado-Maior. O exército é uma instituição hierárquica, e a responsabilidade total por tudo o que acontece recaí clara e inteiramente sobre o Chefe.

Diferentemente dos seus antecessores, Gabi Ashkenazi não se mostra e não fala em público com frequência. Se tem ambições políticas, está a esconde-las bem. Mas, durante o seu mandato, o exército assumiu um determinado carácter, que é perfeitamente representado por estes dois oficiais.

Isso não começou, naturalmente, com Ashkenazi. Ele está a continuar - e talvez a intensificar - uma tendência que começou há muito tempo, e que vem mudando o exército israelita tornando-o irreconhecível.

O fundador do sionismo, Theodor Herzl, escreveu excelentemente no seu livro "Der Judenstaat", o documento fundador do movimento: "Saberemos como manter os nossos clérigos nos templos, como saberemos manter o nosso exército regular nas casernas... eles não serão autorizados a interferir nos assuntos do Estado. "

Agora está a acontecer exactamente o contrário: os rabinos introduziram-se no exército, os oficiais do exército provêm das sinagogas.

O núcleo duro dos colonos fanáticos, que é quase totalmente composto por pessoas religiosas (muitos dos quais são "judeus renascidos") decidiu há muito tempo obter o controlo do exército a partir de dentro. Numa campanha sistemática, que está em pleno andamento, elas penetram o corpo de oficiais a partir de baixo - a partir dos escalões mais baixos, para os do meio, até aos mais altos. Podemos ver o seu sucesso nas estatísticas: de ano para ano o número de oficiais usando kippa é crescente.

Quando o exército israelita foi criado, o corpo de oficiais estava cheio de membros dos kibutz. Não só os kibbutzniks eram considerados a elite da nova sociedade hebraica, que foi baseada nos valores da moralidade e da cultura, como eram os primeiros a voluntariar-se para cada tarefa nacional, mas também existiram razões "técnicas".

O núcleo do exército veio do estádio pré-Palmach. As companhias do Palmach constituíam um exército regular completamente mobilizado, uma parte da organização militar clandestina, o Haganah. Podiam existir e operar livremente apenas no kibbutzim, onde a sua identidade podia ser camuflada. Como resultado, quase todos os excelentes comandantes na guerra de 1948 foram provenientes do Palmach, membros dos kibbutz ou perto deles.

Eles tudo fizeram para imbuir nas novas Forças de Defesa com o espírito de um exército de cidadãos, pioneiro, moral e humanista, exactamente o contrário de um exército de ocupação.

É verdade, a realidade sempre foi diferente, mas o ideal era importante como um objectivo para que lutar. Como eu mostrei no meu livro de 1950, "O outro lado da moeda", a nossa "pureza das armas" sempre foi um mito. Mas a aspiração de ser um exército com valores humanistas era importante. Atrocidades foram escondidas ou negadas, porque eram consideradas vergonhosas e desonrosas para o nosso campo.

Nada se tem mantido de tudo isso, excepto palavras. 


Desde o início da ocupação em 1967, o carácter do exército mudou completamente. O exército, que foi fundado, a fim de proteger o estado de perigos externos tornou-se um exército de ocupação, cuja tarefa é a de oprimir outro povo, esmagar sua resistência, desapropriar terras, proteger ladrões de terras chamados colonos, bloquear passagens, humilhar seres humanos, todos os dias. Evidentemente, não é só o exército que mudou, mas também o Estado que dá ao exército as suas ordens, bem como a contínua lavagem cerebral.

Num tal exército, ocorre um processo de selecção natural. Pessoas diferentes, com elevados padrões morais, que detestam estas acções, saem mais cedo ou mais tarde. O seu lugar é tomado por outros tipos, pessoas com diferentes valores, ou sem valores de todo, "soldados profissionais" que "apenas seguem ordens".

Evidentemente, tem que se ter cuidado ao generalizar. No exército de hoje ainda existem algumas pessoas que acreditam que estão cumprindo uma missão, para quem o Código Ético é mais do que apenas uma compilação de frases hipócritas. Essas pessoas estão repugnadas com o que vêem. De vez em quando ouvimos os seus protestos e vemos as suas revelações. No entanto, não são elas que dão o tom, mas figuras como Rontzky e Mendelblit.

Isto deve-nos preocupar muito. Não podemos tratar o exército como se fosse um reino estrangeiro que não nos diz respeito. Não podemos dizer a nós próprios: "não queremos ter nada a ver com o exército de um Moshe Ya'alon, de um Shaul Mofaz, de um Dan Halutz ou de um Gabi Ashkenazi." Não podemos virar as costas ao problema. Devemos enfrentá-lo, porque ele é o nosso problema.

O estado precisa de um exército. Mesmo depois de alcançar a paz, vamos precisar de um exército forte e eficaz, a fim de proteger o estado até que a paz crie raízes profundas, e poderemos talvez então criar um organismo regional de acordo com as orientações da União Europeia.

O exército somos nós. O seu carácter tem impacto sobre toda a nossa vida, sobre a vida do nosso próprio Estado. Já foi dito: "Israel não é uma 'república das bananas. É uma república que desliza sobre bananas. " E que bananas!

28 janeiro, 2009

Do lado errado

Um texto datado de 24.01.2009 da autoria de Uri Avnery, do Gush Shalom (Bloco da Paz), uma organização israelita que se bate pela Paz na Palestina e em Israel, onde analisa o discurso de tomada de posse de Barack Obama.
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DE TODAS as belas frases que Barack Obama proferiu no seu discurso de tomada de posse, estas são as palavras que ficaram presas na minha memória:

"Estão do lado errado da história".

Obama referia-se aos regimes ditatoriais no mundo. Mas nós, também, devemos reflectir sobre estas palavras.

Nos últimos dias tenho ouvido inúmeras declarações de Ehud Barak, Tzipi Livni, Binyamin Netanyahu e Ehud Olmert. E de cada vez que as oiço, estas oito palavras voltam para me assombrar: "Estão do lado errado da história".

Obama estava a falar como um homem do século XXI. Os nossos líderes (israelitas) falam a linguagem do século XIX. Eles lembram-me os dinossauros que antes aterrorizavam a sua vizinhança sem que notassem que o seu tempo já tinha passado.

DURANTE a cerimónia, uma e outra vez, o mosaico multicolorido da família do novo presidente foi mencionado.

Todos os 43 presidentes anteriores eram brancos protestantes, excepto John Kennedy, que era um branco católico.

38, entre eles, foram descendentes de imigrantes das Ilhas Britânicas.

Dos outros cinco, três foram de ascendência holandesa (Theodor e Franklin D. Roosevelt, bem como Martin Van Buren) e dois de ascendência alemã (Herbert Hoover e Dwight Eisenhower).

O rosto da família Obama é muito diferente.

A família alargada inclui brancos e descendentes de escravos negros, africanos do Quénia, indonésios, chineses do Canadá, cristãos, muçulmanos e até mesmo um judeu (um convertido Afro-Americano).

Os dois primeiros nomes do presidente, Barack Hussein, são árabes.

Este é a face da nova nação americana - uma mistura de raças, religiões, países de origem e de cores de pele, uma sociedade aberta e diversificada, onde todos os seus membros são supostamente iguais e identificam-se com os "pais fundadores".

O americano Barack Hussein Obama, cujo pai nasceu num vilarejo do Quénia, pode falar com orgulho do "George Washington, o pai da nossa nação", da "Revolução Americana" (a guerra de independência contra os britânicos), e manter o exemplo dos "nossos antepassados", que incluem tanto os pioneiros brancos como os negros escravos que "sofreram o açoite do chicote".

Essa é a percepção de uma nação moderna, multi-cultural e multi-racial: uma pessoa pertence-lhe ao adquirir cidadania, e a partir desse momento, é o herdeiro de toda a sua história.

Israel é o produto do estreito nacionalismo do século XIX, um nacionalismo fechado e exclusivo, com base na raça e na origem étnica, no sangue e na terra.

Israel é um "Estado judeu", e um judeu é uma pessoa nascida judia ou convertida de acordo com a lei religiosa judaica (Halakha).

Tal como o Paquistão e a Arábia Saudita, Israel é um estado cuja dimensão espiritual é em grande medida condicionada pela religião, raça e origem étnica.

Quando Ehud Barak fala sobre o futuro, ele fala a linguagem de séculos passados, em termos de força bruta e ameaça brutal, com exércitos fornecendo a solução para todos os problemas.

Essa foi também a linguagem de George W. Bush, que na semana passada se escapou furtivamente de Washington, uma linguagem que já soa aos ouvidos ocidentais como um eco do passado distante.

As palavras do novo presidente ressoam no ar:

"O nosso poder por si só não pode proteger-nos, nem nos dá o direito de fazer o que nos apetecer."

As palavras-chave foram "humildade e moderação".

Os nossos líderes estão agora ostentando a sua participação na Guerra de Gaza, na qual desenfreada força militar foi desencadeada intencionalmente contra uma população civil, homens, mulheres e crianças, com o objectivo declarado de "criação de dissuasão".

Na era que se iniciou terça-feira passada, essas expressões só podem despertar horror.

ENTRE Israel e os Estados Unidos abriu-se uma fissura, esta semana, uma estreita fissura, quase invisível - mas ela pode abrir-se num abismo.

Os primeiros sinais são pequenos.

No seu discurso de tomada de posse, proclamou Obama que:

"Somos uma nação de cristãos e de muçulmanos, judeus e hindus - e de não-crentes."

Desde quando?

Desde quando é que os muçulmanos precederam os judeus?

O que aconteceu com o "Património judaico-cristão"? (Uma ideia completamente falsa para começar, já que o Judaísmo está muito mais próximo do Islamismo do que do Cristianismo. Por exemplo: nem o Judaísmo nem o Islamismo apoiam a separação entre religião e estado).

Na manhã seguinte, Obama telefonou a alguns líderes do Médio Oriente.

E decidiu ter um gesto bastante singular: fazendo a primeira chamada para Mahmoud Abbas e só depois telefonando a Olmert.

A media israelita não teve estômago para tanto.

O Haaretz, por exemplo, falsificou conscientemente a informação escrevendo - e não uma vez, mas duas vezes sobre a mesma questão - que Obama teria telefonado a "Olmert, Abbas, Mubarak e ao rei Abdallah" (por essa ordem).

Em vez do grupo de judeus americanos que haviam sido responsáveis pelo conflito israelo-palestiniano durante as administrações de Clinton e de Bush, Obama, no seu primeiro dia no cargo, nomeou um árabe-americano, George Mitchell, cuja mãe havia chegado à América vinda do Líbano com 18 anos, e que, órfão de seu pai irlandês, foi criado por uma família libanesa cristã-maronita.

Estas não são boas notícias para os dirigentes israelitas.

Nos últimos 42 anos, têm prosseguido uma política de expansão, ocupação e de colonização em estreita cooperação com Washington.

Têm confiado no ilimitado apoio americano, desde a oferta massiva de dinheiro e de armas, ao uso do veto no Conselho de Segurança. Este apoio foi essencial para sua política. Este apoio poderá agora ter atingindo o seu termo.
Vai acontecer, naturalmente, de forma gradual.

O lobby pró-Israel em Washington vai continuar a colocar o medo de Deus no Congresso. Um navio enorme como os Estados Unidos só pode mudar de rumo muito lentamente, numa curva suave. Mas a mudança começou já no primeiro dia da administração Obama.

Isso não poderia ter acontecido, se a própria América não tivesse mudado.

Não se trata apenas de uma mudança política. É uma mudança na visão do mundo, na mentalidade, nos valores.

Um certo mito americano, que é muito semelhante ao mito sionista, foi substituído por um outro mito americano. Não é por acaso que Obama dedica ao tema uma tão grande parte do seu discurso (no qual, por sinal, não houve uma única palavra sobre o extermínio dos nativos americanos).

A Guerra de Gaza, durante a qual dezenas de milhões de americanos viram a horrível carnificina na Faixa de Gaza (mesmo que uma rigorosa auto-censura, cortasse quase tudo excepto uma ínfima parte), acelerou o processo de afastamento.

Israel, a corajosa irmãzinha, o fiel aliado de Bush na "guerra ao terror", tornou-se no violento Israel, o monstro enlouquecido, que não tem qualquer compaixão pelas mulheres e crianças, os feridos e os doentes. E quando ventos destes estão soprando, o Lobby perde peso.

Os líderes de Israel não deram conta. Eles não sentiram, quando Obama os colocou num outro contexto, que "o terreno fugira debaixo deles." Eles pensam que este não é mais do que um problema político temporário que pode ser resolvido a contento com a ajuda do Lobby e dos membros servis no Congresso.

Os nossos líderes continuam intoxicados com a guerra e embriagados com a violência.

Refraseando a famosa expressão do general prussiano, Carl von Clausewitz: "A guerra é apenas a continuação de uma campanha eleitoral mas por outros meios." Competem, uns contra os outros, vangloriando-se e bazofiando pela sua parte dos "créditos".

Tzipi Livni, que não pode competir com os homens para a coroa de senhor da guerra, tenta supera-los na tenacidade, na belicosidade, e na dureza de coração.

O mais brutal é Ehud Barak.

Uma vez chamei-lhe "criminoso da paz", porque levou ao fracasso a conferência de Camp David, em 2000, e destruiu o campo da paz em Israel.

Agora, devo chamá-lo de "criminoso de guerra", pois que planificou a Guerra de Gaza sabendo que iria assassinar massivamente civis.

Aos seus próprios olhos e aos olhos de uma grande parte do público, esta é uma operação militar, que merece todos os elogios.

Os seus assessores também pensaram que esta operação iria trazer-lhe sucesso nas eleições.

O partido trabalhista, que tinha sido o maior partido no Knesset durante décadas, tinha encolhido nas sondagens para 12, até 9 lugares, num total de 120.

Com a ajuda da atrocidade de Gaza subiu agora para os 16, se tanto. Não é uma vitória retumbante e não há nenhuma garantia de que não se vá afundar novamente.

Qual foi o erro de Barak?

Muito simples: qualquer guerra ajuda a direita. A Guerra, por sua própria natureza, desperta na população as mais primitivas emoções - ódio e medo, medo e ódio.

Estas são as emoções que a Direita tem cavalgado por séculos.

Mesmo quando é a "Esquerda", que começa uma guerra, ainda é a direita que dela beneficia.

Num estado de guerra, a população prefere uma honesto-e-bondoso direitista que um impostor esquerdista.

Isso está acontecendo com Barak pela segunda vez.

Quando, em 2000, ele espalhou o mantra "Tenho virado cada pedra no caminho para a paz, / Tenho feito aos palestinos ofertas sem precedentes, / Eles rejeitaram tudo, / Não há ninguém com quem falar" -, conseguiu não só estilhaçar a esquerda, mas também preparar o caminho para a ascensão de Ariel Sharon nas eleições de 2001.

Agora, está preparando o caminho para Binyamin Netanyahu (esperando, claramente, tornar-se o seu ministro da Defesa).

E não só para ele.

O verdadeiro vencedor da guerra é um homem que não teve parte em nada dela: Avigdor Liberman.

O seu partido, que, em qualquer país normal seria chamado de fascista, tem vindo a subir nas sondagens. Por quê? Porque Liberman parece e soa como um Mussolini israelita, ele odeia os árabes desenfreadamente, um homem do mais brutal vigor. Comparado a ele, inclusive Netanyahu parece um “fraco”.

Uma grande parte da geração jovem, alimentada por anos de ocupação, mortandade e destruição, depois de duas guerras atrozes, considera-o um líder digno.
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ENQUANTO OS E.U.A. deram um gigantesco salto à esquerda, Israel está prestes a saltar ainda mais para a direita.

Quem viu os milhões agitando-se em Washington, no dia da tomada de posse. sabe que Obama não estava a falar apenas para si próprio. Ele expressava as aspirações do seu povo, o espírito da sua época (Zeitgeist).

Entre a mentalidade de Obama e a mentalidade de Liberman e de Netanyahu não há qualquer contacto. Entre Obama e Livni e Barak (Ehud) também se escancara um abismo.

A pós-eleição de Israel poderá encontrar-se em rota de colisão com o pós-eleitoral da América.

Onde estão os judeus americanos?

A esmagadora maioria deles votaram a favor de Obama. Ficaram entre o martelo e da bigorna - entre o seu governo e a sua natural simpatia por Israel.

É razoável supor, por isso, que irão exercer pressão sobre os "líderes" do judaísmo americano, que aliás nunca foram eleitos por ninguém, e sobre organizações como a AIPAC.(The American Israel Public Affairs Committee – America’s Pro-Israel Lobby).

O forte bordão, aonde os dirigentes israelitas estão habituados a encostar-se em momentos de angústia, poderá revelar-se não ter qualquer valor.

A Europa, também, não é intocável pelos novos ventos.

É verdade que, no final da guerra, vimos os líderes da Europa - Sarkozy, Merkel, Browne e Zapatero - sentados como crianças de escola, atrás de uma mesa, na sala de aula, a ouvir, respeitosamente, as mais abomináveis e arrogantes posições de Ehud Olmert, recitando seu texto, depois dele.

Pareciam aprovar as atrocidades da guerra, falando dos Qassams e esquecendo a ocupação, o bloqueio e os colonatos. Provavelmente não irão pendurar esta foto nas paredes do seu escritório.

Mas durante esta guerra multidões de europeus, vieram em torrentes para as ruas manifestando-se contra os horríveis acontecimentos. As mesmas multidões que saudaram Obama no dia da sua tomada de posse.

Este é o novo mundo. Talvez os nossos dirigentes já estejam sonhando com o slogan: "Pare o mundo, quero descer!" Mas não existe um outro mundo.

SIM, AGORA ESTAMOS no lado errado da história.

Felizmente, há também um outro Israel.

Não está na ribalta, e sua voz é ouvida apenas por aqueles que a querem escutar.

Este é um Israel são e racional, virado para um futuro, de progresso e de paz.

Nas próximas eleições, a sua voz vai ser fracamente ouvida, porque todos os velhos partidos estão firmemente assentes no mundo de ontem.

Mas o que aconteceu nos Estados Unidos terá uma profunda influência sobre o que acontecerá em Israel. A imensa maioria dos israelitas sabe que não poderão existir sem se manterem estreitos laços com os E.U.A.

Obama é agora o líder do mundo, e nós vivemos neste mundo.

Quando ele promete trabalhar "agressivamente" para a paz entre nós e os palestinos, é uma ordem de marcha para nós.

Queremos estar do lado certo da história. Isso vai levar meses ou anos, mas estou certo de que vamos chegar lá. O tempo de começar é agora.