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06 dezembro, 2011
17 fevereiro, 2011
Revolução no Egito é ruim para Israel
Publicado em Carta Maior(2011.02.17)
Entre as suas obras destacamos "The Ethnic Cleansing of Palestine, (London and New York: Oneworld, 2006) onde faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes. Em particular, defende que houve limpeza étnica, ou expulsão deliberada da população civil palestina por parte das forças israelitas. Na verdade, vai ainda mais longe e argumenta que existiu um plano elaborado ainda antes de 1948 e da criação do Estado de Israel para tal acção.
Independentemente do modo como tudo isso vá acabar, (a revolta na Tunísia e no Egito) expõe as falácias e o simulacro de Israel como nunca antes. o que está em jogo é a falácia de que Israel é um país estável, ilha civilizada ocidental no mar agitado da barbárie e do fanatismo islâmico árabe. O "perigo" para Israel é que a cartografia seja a mesma, mas que a geografia mude. O país ainda seria uma ilha, mas de barbárie e fanatismo em um mar de Estados democráticos e igualitários recém-formados. O artigo é de Ilan Pappe.
Ilan Pappe*
As revoluções da Tunísia e do Egito, se realmente obtiverem sucesso, serão ruins, muito ruins para Israel. Árabes educados – nem todos vestidos como "islâmicos", a maioria sem falar um inglês perfeito, cujo desejo de democracia não recorre à retórica "antiocidental" – são ruins para Israel.
Exércitos árabes que não atirem nos manifestantes são tão ruins para Israel como o são muitas outras imagens que movimentam e entusiasmam tantas pessoas ao redor do mundo, inclusive no Ocidente. Essa reação mundial também é ruim, muito ruim para Israel. Faz a ocupação israelense na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, e as políticas sionistas de apartheid dentro de Israel, parecerem atos de um típico regime "árabe".
Por algum tempo não soubemos o que os oficiais de Israel pensavam [sobre a intifada egípcia]. Na primeira mensagem a seus pares, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu a seus ministros, generais e políticos que não comentassem em público os acontecimentos no Egito. Por um breve momento qualquer um de nós pensaria que Israel havia passado de bandido do bairro para o que ele sempre foi: um visitante ou um residente permanente [na Palestina].
Parece que Netanyahu ficou particularmente envergonhado com os comentários infelizes sobre a situação proferidos publicamente pelo general Aviv Kochavi, o chefe da inteligência militar israelense. Especialista em assuntos árabes, Kochavi declarou confiante, no Knesset [o Parlamento de Israel], duas semanas antes da queda de Mubarak, que o regime do ditador estava mais sólido e resistente do que nunca. Mas Netanyahu não pôde ficar de boca fechada por tanto tempo. E, quando falou, todos os outros o seguiram. E, quando todos falaram, suas opiniões fizeram os comentaristas da Fox News [de direita, conhecidos pela virulência] parecerem um bando de hippies pacifistas e amantes da liberdade da década de 1960.
A essência da narrativa israelense é simples: essa é uma revolução semelhante à iraniana, auxiliada pela Al Jazeera e estupidamente permitida pelo presidente dos EUA, Barack Obama, que é um novo Jimmy Carter, e por um mundo estupefato. No comando da interpretação israelense estão os ex-embaixadores de Israel no Egito. Todas as suas frustrações por terem sido trancados em um apartamento de um arranha-céu no Cairo agora explodem como um vulcão em erupção. Suas invectivas podem ser resumidas nas palavras de um deles, Zvi Mazael, que declarou ao canal de televisão israelense One, em 28 de janeiro, que "isso [a intifada egípcia] é ruim para os judeus, muito ruim".
Em Israel, claro, quando você diz "ruim para os judeus," você quer dizer “para os israelenses” – mas também significa que tudo que é ruim para Israel é ruim para os judeus de todo o mundo (apesar das evidências em contrário desde a fundação do Estado).
Mas o que é realmente ruim para Israel é a comparação.
Independentemente do modo como tudo isso vá acabar, [a revolta na Tunísia e no Egito] expõe as falácias e o simulacro de Israel como nunca antes. O Egito está passando por uma intifada pacífica – a violência letal vem do lado do regime. O exército não atirou contra os manifestantes, e até mesmo antes da partida de Mubarak, com os protestos alcançando a marca de sete dias, o ministro do interior, que liderou seu capangas num choque violento contra os manifestantes, foi demitido e, provavelmente, será levado à justiça.
Sim, isso foi feito para o governo ganhar tempo e tentar convencer os manifestantes a ir para casa. Mas mesmo esta cena, agora esquecida, nunca poderia acontecer em Israel. Israel é um lugar onde todos os generais que ordenaram o massacre de manifestantes palestinos e judeus contra a ocupação agora concorrem ao mais alto cargo, o de chefe do estado-maior das forças armadas.
Um deles é Yair Naveh, que deu ordens, em 2008, para matar palestinos suspeitos até mesmo quando eles podiam ser presos de maneira pacífica. Ele não vai para a cadeia, mas a jovem Anat Kamm, que tornou públicas essas ordens, enfrenta agora nove anos de prisão por revelá-las ao diário israelense Haaretz. Nenhum general ou político israelense passará um único dia na prisão por requisitar tropas para disparar contra manifestantes desarmados, civis inocentes, mulheres, velhos e crianças. A luz que irradia do Egito e da Tunísia é tão intensa que também ilumina os espaços mais escuros da "única democracia do Oriente Médio" [como Israel se autodenomina].
Não violentos, democráticos (religiosos ou não), os árabes são ruins para Israel. Mas talvez esses árabes estivessem ali o tempo todo, não só no Egito como também na Palestina. Os comentadores israelenses insistem que a questão mais importante em jogo – o tratado de paz israelense com o Egito – é um desvio, com pouca relevância para o impulso poderoso que agita o mundo árabe como um todo.
Os tratados de paz com Israel são os sintomas da corrupção moral, não a doença em si – e é por isso que o presidente sírio, Bashar Asad, sem dúvida um líder antiisraelense, não está imune a essa onda de mudança. Não, o que está em jogo é a falácia de que Israel é um país estável, ilha civilizada ocidental no mar agitado da barbárie e do fanatismo islâmico árabe. O "perigo" para Israel é que a cartografia seja a mesma, mas que a geografia mude. O país ainda seria uma ilha, mas de barbárie e fanatismo em um mar de Estados democráticos e igualitários recém-formados.
Aos olhos de grande parte da sociedade civil ocidental, a imagem democrática de Israel desapareceu há muito tempo, mas agora pode ter sido ofuscada e embaciada aos olhos de outros, os políticos e os que estão no poder. Quão importante é a velha e positiva imagem de Israel para a manutenção de sua relação especial com os Estados Unidos? Só o tempo dirá.
De um jeito ou de outro, o grito da Praça Tahrir é um aviso de que as falsas mitologias da "única democracia do Oriente Médio", do fundamentalismo cristão hardcore (muito mais sinistro e corrupto do que a Fraternidade Muçulmana), do lucro da cínica corporação das indústrias militares, do neo-conservadorismo e do lobby brutal não vão garantir a sustentabilidade da relação especial entre Israel e Estados Unidos para sempre.
E, mesmo que essa relação especial se mantenha por algum tempo, será baseada em fundamentos ainda mais precários. Os estudos de caso diametralmente opostos dos até agora resistentes poderes regionais antiamericanos do Irã e da Síria, e, em certa medida, da Turquia, por um lado, e a queda derradeira dos tiranos pró-EUA, por outro lado, são indicativos: mesmo que se prolongue, o apoio estadunidense pode não ser suficiente, no futuro, para manter um "Estado judeu" étnico e racista no coração de um mundo árabe em mutação.
Essa poderia ser uma boa notícia para os judeus, mesmo para aqueles que vivem em Israel, a longo prazo. Não será fácil viver cercado por povos que prezam a liberdade, a justiça social e espiritualidade, e que navegam às vezes com segurança, às vezes de maneira precária, entre a tradição e a modernidade, o nacionalismo e o mundano, a globalização capitalista agressiva e a sobrevivência diária.
No entanto, há um horizonte que carrega a esperança de desencadear mudanças similares na Palestina. Pode chegar ao fim o mais de um século de desapropriação e de colonização sionista, substituído por uma reconciliação mais equitativa entre os palestinos – vítimas dessas políticas criminosas onde quer que estejam –, e a comunidade judaica. Essa reconciliação seria construída sobre a base do direito de retorno palestino e sobre todos os outros direitos pelos quais o povo do Egito tão bravamente lutou nos últimos 20 dias.
Mas os israelenses não perdem uma oportunidade de perder a paz. Eles uivariam como lobos. Exigiriam, e receberiam, mais recursos do contribuinte estadunidense, em função dos novos "acontecimentos". Interfeririam de modo clandestino e destrutivo para minar qualquer transição para a democracia (lembram-se da força e da agressividade que caracterizaram a reação israelense à democratização da sociedade palestina?) e elevariam a campanha islamofóbica a patamares novos e sem precedentes.
Talvez, porém, o contribuinte estadunidense não se movesse dessa vez. E talvez os políticos europeus seguissem o sentimento geral de seu público e permitissem não apenas que o Egito fosse dramaticamente transformado, mas também dessem as boas vindas a uma mudança semelhante em Israel e na Palestina. Em um cenário assim, os judeus de Israel teriam a chance de se tornar parte do Oriente Médio real e não membros estrangeiros e agressivos de um Oriente Médio inventado pela imaginação alucinatória sionista.
Tradução: Baby Siqueira Abrão
(*) Ilan Pappe de origem judaica alemã, nasceu em Haifa, Israel, em 1954. Prestou serviço militar e combateu durante a Guerra do Yom Kipur. (1973).
Licenciou-se em História na Universidade Hebraica de Jerusalém, em 1978, e, em 1984, recebeu o título de Doutor pela Universidade de Oxford, com a tese "Britain and the Arab-Israeli Conflict, 1948–1951" ("A Grã-Bretanha e o conflito árabe-israelita, 1948-1951)", que publicou em 1988.
Actualmente é Professor de História, na Universidade de Exeter, no Reino Unido, Director do Centro Europeu para o Estudo da Palestina e Co-director do Centro Exeter para os Estudos Etno-Políticos.
A sua área de investigação concentra-se no Médio Oriente moderno e em particular na história de Israel e da Palestina. Também tem escrito sobre multiculturalismo, Análise Crítica do Discurso e sobre Poder e Conhecimento.
Entre as suas obras destacamos "The Ethnic Cleansing of Palestine, (London and New York: Oneworld, 2006) onde faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes. Em particular, defende que houve limpeza étnica, ou expulsão deliberada da população civil palestina por parte das forças israelitas. Na verdade, vai ainda mais longe e argumenta que existiu um plano elaborado ainda antes de 1948 e da criação do Estado de Israel para tal acção.
O seu livro mais recente é Out of the Frame: The Struggle for Academic Freedom in Israel [Fora do esquema: a luta pela liberdade académica em Israel] (Pluto Press, 2010).
Recorda-se que Ilan Pappe foi demitido da Universidade de Haifa, em 2007, após ter apoiado o boicote académico a Israel. Já em 2005, numa entrevista ao jornal israelita Haaretz, tinha declarado que "o boicote atingiu a academia porque a academia em Israel optou por ser oficial [...] A academia escolheu a propaganda oficial de Israel. [...] A academia é o mais importante embaixador de Israel na alegação de que somos a única democracia no Oriente Médio".
Outros posts no Blogmaton sobre Ilan Pappe:
A limpeza étnica da Palestina. Entrevista ao historiador judeu Ilan Pappe
Recorda-se que Ilan Pappe foi demitido da Universidade de Haifa, em 2007, após ter apoiado o boicote académico a Israel. Já em 2005, numa entrevista ao jornal israelita Haaretz, tinha declarado que "o boicote atingiu a academia porque a academia em Israel optou por ser oficial [...] A academia escolheu a propaganda oficial de Israel. [...] A academia é o mais importante embaixador de Israel na alegação de que somos a única democracia no Oriente Médio".
Outros posts no Blogmaton sobre Ilan Pappe:
A limpeza étnica da Palestina. Entrevista ao historiador judeu Ilan Pappe
Silio Boccanera entrevista Ilan Pappe em 19 de Maio de 2008 para a TV Globo, poucos meses depois de este ter sido expulso da Universidade de Haifa (Israel), onde era professor de Ciências Políticas, desde 1984. O alegado motivo para a sua expulsão foi o de que apoiava os inimigos de Israel.
16 janeiro, 2011
"O sofrimento dos cristãos palestinianos" por Frei Bento
In: Jornal "Público" de 2011.01.15
Condenamos todas as formas de racismo, religioso ou étnico, incluindo o anti-semitismo e a islamofobia
1. Quando se fala da perseguição aos cristãos no Médio Oriente, não se tem em conta a situação especial na Palestina. O Conselho Ecuménico das Igrejas publicou, agora, um documento elaborado pelos cristãos e teólogos palestinianos que, perante o drama do seu povo, perguntam: o que faz a comunidade internacional? Que fazem os chefes políticos na Palestina, em Israel e no mundo árabe? Que faz a Igreja? (1).
Nos limites deste espaço, o melhor é dar-lhes a palavra, porque o documento é também um convite às Igrejas: "vinde e vede", conhecer os factos e descobrir as gentes desta terra, palestinianos e israelitas. Condenamos todas as formas de racismo, religioso ou étnico, incluindo o anti-semitismo e a islamofobia. Vamos aos factos.
O muro da separação, construído em terrenos palestinianos, confisca uma parte do nosso território, transforma as cidades e as vilas em prisões, faz cantões separados e dispersos. Gaza, depois da guerra cruel desencadeada por Israel (Dez.2008-Jan.2009), continua a viver em condições desumanas sob embargo permanente e corta-a, geograficamente, do resto dos territórios palestinianos.
As colónias israelitas, ao apoderarem-se da nossa terra em nome de Deus ou da força, controlam os nossos recursos naturais, sobretudo a água e as terras agrícolas, privando delas centenas de milhares de palestinianos. Esta realidade é um obstáculo a qualquer solução política.
Para nos deslocarmos ao nosso trabalho, às escolas e aos hospitais somos, diariamente, submetidos à humilhação, nos postos de controlo militar.
A separação entre os membros da mesma família, quando um dos cônjuges não é portador de um bilhete de identidade israelita, torna a vida familiar impossível a milhares de palestinianos.
A própria liberdade religiosa, a liberdade de acesso aos lugares santos, é limitada a pretexto de segurança. Os lugares santos de Jerusalém são inacessíveis a um grande número de cristãos e muçulmanos da Cisjordânia e de Gaza. Os próprios habitantes de Jerusalém não podem aceder aos seus lugares santos, em certos dias de festa, assim como os nossos padres árabes não podem entrar em Jerusalém sem dificuldade.
Os refugiados fazem parte da nossa realidade. A maior parte deles vive ainda nos campos de refugiados em condições difíceis, inaceitáveis para seres humanos. Esperam o seu retorno há várias gerações. Qual será a sua sorte?
Milhares de pessoas detidas nas prisões israelitas também fazem parte da nossa realidade. Os israelitas removem o céu e a terra por um só dos seus prisioneiros, mas quando verão a liberdade esses milhares de prisioneiros palestinianos que permanecem indefinidamente nas prisões israelitas?
2.Jerusalém é o coração da nossa realidade. É, ao mesmo tempo, símbolo de paz e sinal de conflito. Desde que o "muro" criou a separação entre os bairros palestinianos da cidade, as autoridades israelitas não param de os esvaziar dos seus habitantes palestinianos, cristãos e muçulmanos. É-lhes retirado o bilhete de identidade, isto é, o seu direito a residir em Jerusalém. As suas casas são demolidas ou confiscadas. Jerusalém, cidade da reconciliação, tornou-se a cidade da discriminação e da exclusão e, por isso, fonte de conflito, em vez de fonte de paz.
Por outro lado, Israel despreza o direito internacional e as resoluções internacionais, contando com a impotência do mundo árabe e com a da comunidade internacional perante este desprezo. Os direitos humanos são violados, apesar dos múltiplos relatórios das organizações locais e internacionais.
(...) Face a esta realidade, os israelitas pretendem justificar os seus actos como actos de legítima defesa. (...) Do nosso ponto de vista, o contrário é que é verdade. Há uma resistência palestiniana à ocupação. Se não houvesse ocupação, não havia resistência e não haveria nem medo nem insegurança. Apelamos aos israelitas a acabar com a ocupação. Verão, então, um novo mundo, no qual não haverá nem medo nem ameaças, mas segurança, justiça e paz.
A resposta palestiniana a esta realidade revestiu numerosas formas. Uns escolheram a via das negociações: é a posição oficial da Autoridade Palestina, o que, no entanto, não fez avançar o processo de paz. Outros partidos políticos recorreram à resistência armada. Israel serviu-se disso como pretexto para acusar os palestinianos de terroristas, o que lhe permitiu alterar a verdadeira natureza do conflito, apresentando-o como uma guerra israelita contra o terrorismo e não como uma resistência palestiniana legítima à ocupação israelita.
O conflito interno entre palestinianos, assim como a separação de Gaza só agravaram a tragédia. Convém notar que, embora a divisão tenha afectado os próprios palestinianos, a responsabilidade depende muito da comunidade internacional, porque ela recusou acolher, positivamente, a vontade do povo palestiniano como ela se exprimiu nos resultados das eleições, democrática e legalmente conduzidas, em 2006.
3.(...) O Ocidente quis reparar a injustiça que tinha cometido em relação aos judeus nos países da Europa. Fê-lo à nossa custa, na nossa terra. Deste modo, reparou uma injustiça, criando outra. Mais uma vez, proclamamos que a nossa palavra cristã, no meio de qualquer tragédia, é uma palavra de fé, de esperança e de amor, sem recurso à violência.
É essa palavra que é explicitada e justificada no resto do documento que todos os peregrinos à Terra Santa deviam meditar.
(1) La Documentation Catholique, 03. 01.2010, n°24-37, pp. 33-42
19 outubro, 2010
A Alemanha e o falhanço do multiculturalismo por George Friedman
Uma análise de George Friedman sobre o significado e repercussões das declarações da Senhora Angela Merkel no passado dia 16 de Outubro, numa reunião com jovens militantes do seu partido CDU (União Democrata Cristã).
Apesar de não concordar nem subscrever o seu posicionamento político, no geral, e neste caso a sua visão de “luta de culturas”, entendo que é de ter em conta as suas análises, normalmente bem informadas, construídas, documentadas e apresentadas de forma simples e directa.
Antes recordo alguns passos das declarações de Angela Merkel:
"No início dos anos 60, o nosso país chamou trabalhadores estrangeiros e eles agora vivem aqui. Durante algum tempo mentimos a nós próprios pensando: ''Eles não ficam e algum dia hão-de partir''. Isto não é a realidade"
...
"É claro que a perspectiva de que poderíamos construir uma sociedade multicultural, vivendo lado a lado e gozando da companhia uns dos outros, falhou. Falhou completamente."
...
"Nós sentimo-nos ligados aos valores cristãos. Quem não os aceita não encontra lugar aqui" [Esta afirmação tem sido curiosamente camuflada ou omitida pela generalidade da comunicação social].
Merkel não só declarou o óbito do multiculturalismo na Alemanha como abriu caminho ao recrudescimento do etnocentrismo germanófilo com as naturais consequências negativas em termos de intolerância, xenofobia e de racismo.
Note-se que o debate sobre a imigração e islamismo na Alemanha segue aceso e numa preocupante deriva onde a xenofobia e a islamofobia ganham foros de maioria, como é demonstrado num estudo publicado na passada quarta-feira, 13, pela Fundação Friedrich Ebert (com ligações ao Partido Social Democrata, na oposição) onde se concluiu que um terço dos alemães defende a repatriação dos imigrantes e mais de metade – 58,4 por cento – manifesta-se favorável a restrições à prática do islamismo.
Se as declarações de Merkel tinham por objectivo táctico aplacar e satisfazer as alas mais radicais do seu eleitorado, de facto, tiveram como resultado projectarem a discussão para um nível mais alargado, com consequências que, face à actual crise económica-financeira e ao correspondente desemprego, actuarão como um acelerador para manifestações de racismo e xenofobia, que ultrapassarão as fronteiras da Alemanha. Os sinais estavam aí, para quem os quissesse ver, há já algum tempo.
This report is republished with permission of STRATFOR
Germany and the Failure of Multiculturalism
October 19, 2010
By George Friedman
German Chancellor Angela Merkel declared at an Oct. 16 meeting of young members of her party, the Christian Democratic Union, that multiculturalism, or Multikulti, as the Germans put it, “has failed totally.” Horst Seehofer, minister-president of Bavaria and the chairman of a sister party to the Christian Democrats, said at the same meeting that the two parties were “committed to a dominant German culture and opposed to a multicultural one.” Merkel also said that the flood of immigrants is holding back the German economy, although Germany does need more highly trained specialists, as opposed to the laborers who have sought economic advantages in Germany.
The statements were striking in their bluntness and their willingness to speak of a dominant German culture, a concept that for obvious reasons Germans have been sensitive about asserting since World War II. The statement should be taken with utmost seriousness and considered for its social and geopolitical implications. It should also be considered in the broader context of Europe’s response to immigration, not to Germany’s response alone.
The Origins of the German Immigration Question
Let’s begin with the origins of the problem. Post-World War II Germany faced a severe labor shortage for two reasons: a labor pool depleted by the devastating war — and by Soviet prisoner-of-war camps — and the economic miracle that began on the back of revived industry in the 1950s. Initially, Germany was able to compensate by admitting ethnic Germans fleeing Central Europe and Communist East Germany. But the influx only helped assuage the population loss from World War II. Germany needed more labor to feed its burgeoning export-based industry, and in particular more unskilled laborers for manufacturing, construction and other industries.
To resolve the continuing labor shortage, Germany turned to a series of successive labor recruitment deals, first with Italy (1955). After labor from Italy dried up due to Italy’s own burgeoning economy, Germany turned to Spain (1960), Greece (1960), Turkey (1961) and then Yugoslavia (1968). Labor recruitment led to a massive influx of “Gastarbeiter,” German for “guest workers,” into German society. The Germans did not see this as something that would change German society: They regarded the migrants as temporary labor, not as immigrants in any sense. As the term implied, the workers were guests and would return to their countries of origin when they were no longer needed (many Spaniards, Italians and Portuguese did just this). This did not particularly trouble the Germans, who were primarily interested in labor.
The Germans simply didn’t expect this to be a long-term issue. They did not consider how to assimilate these migrants, a topic that rarely came up in policy discussions. Meanwhile, the presence of migrant labor allowed millions of Germans to move it from unskilled labor to white-collar jobs during the 1960s.
An economic slowdown in 1966 and full-on recession following the oil shock of 1973 changed labor conditions in Germany. Germany no longer needed a steady stream of unskilled labor and actually found itself facing mounting unemployment among migrants already in country, leading to the “Anwerbestopp,” German for “labor recruitment stop,” in 1973.
Nonetheless, the halt in migration did not resolve the fact that guest workers already were in Germany in great numbers, migrants who now wanted to bring in family members. The 1970s saw most migration switch to “family reunions” and, when the German government moved to close that loophole, asylum. As the Italians, Spanish and Portuguese returned home to tend to their countries’ own successive economic miracles, Muslim Turks became the overwhelming majority of migrants in Germany — particularly as asylum seekers flocked into Germany, most of whom were not fleeing any real government retribution. It did not help that Germany had particularly open asylum laws in large part due to guilt over the Holocaust, a loophole Turkish migrants exploited en masse following the 1980 coup d’etat in Turkey.
As the migrants transformed from a temporary exigency to a multigenerational community, the Germans had to confront the problem. At base, they did not want the migrants to become part of Germany. But if they were to remain in the country, Berlin wanted to make sure the migrants became loyal to Germany. The onus on assimilating migrants into the larger society increased as Muslim discontent rocked Europe in the 1980s. The solution Germans finally agreed upon in the mid-to-late 1980s was multiculturalism, a liberal and humane concept that offered migrants a grand bargain: Retain your culture but pledge loyalty to the state.
In this concept, Turkish immigrants, for example, would not be expected to assimilate into German culture. Rather, they would retain their own culture, including language and religion, and that culture would coexist with German culture. Thus, there would be a large number of foreigners, many of whom could not speak German and by definition did not share German and European values.
While respecting diversity, the policy seemed to amount to buying migrant loyalty. The deeper explanation was that the Germans did not want, and did not know how, to assimilate culturally, linguistically, religiously and morally diverse people. Multiculturalism did not so much represent respect for diversity as much as a way to escape the question of what it meant to be German and what pathways foreigners would follow to become Germans.
Two Notions of Nation
This goes back to the European notion of the nation, which is substantially different from the American notion. For most of its history, the United States thought of itself as a nation of immigrants, but with a core culture that immigrants would have to accept in a well-known multicultural process. Anyone could become an American, so long as they accepted the language and dominant culture of the nation. This left a lot of room for uniqueness, but some values had to be shared. Citizenship became a legal concept. It required a process, an oath and shared values. Nationality could be acquired; it had a price.
To be French, Polish or Greek meant not only that you learned their respective language or adopted their values — it meant that you were French, Polish or Greek because your parents were, as were their parents. It meant a shared history of suffering and triumph. One couldn’t acquire that.
For the Europeans, multiculturalism was not the liberal and humane respect for other cultures that it pretended to be. It was a way to deal with the reality that a large pool of migrants had been invited as workers into the country. The offer of multiculturalism was a grand bargain meant to lock in migrant loyalty in exchange for allowing them to keep their culture — and to protect European culture from foreign influences by sequestering the immigrants. The Germans tried to have their workers and a German identity simultaneously. It didn’t work.
Multiculturalism resulted in the permanent alienation of the immigrants. Having been told to keep their own identity, they did not have a shared interest in the fate of Germany. They identified with the country they came from much more than with Germany. Turkey was home. Germany was a convenience. It followed that their primary loyalty was to their home and not to Germany. The idea that a commitment to one’s homeland culture was compatible with a political loyalty to the nation one lived in was simplistic. Things don’t work that way. As a result, Germany did not simply have an alien mass in its midst: Given the state of affairs between the Islamic world and the West, at least some Muslim immigrants were engaged in potential terrorism.
Multiculturalism is profoundly divisive, particularly in countries that define the nation in European terms, e.g., through nationality. What is fascinating is that the German chancellor has chosen to become the most aggressive major European leader to speak out against multiculturalism. Her reasons, political and social, are obvious. But it must also be remembered that this is Germany, which previously addressed the problem of the German nation via the Holocaust. In the 65 years since the end of World War II, the Germans have been extraordinarily careful to avoid discussions of this issue, and German leaders have not wanted to say things such as being committed to a dominant German culture. We therefore need to look at the failure of multiculturalism in Germany in another sense, namely, with regard to what is happening in Germany.
Simply put, Germany is returning to history. It has spent the past 65 years desperately trying not to confront the question of national identity, the rights of minorities in Germany and the exercise of German self-interest. The Germans have embedded themselves in multinational groupings like the European Union and NATO to try to avoid a discussion of a simple and profound concept: nationalism. Given what they did last time the matter came up, they are to be congratulated for their exercise of decent silence. But that silence is now over.
The Re-emergence of German Nation Awareness
Two things have forced the re-emergence of German national awareness. The first, of course, is the immediate issue — a large and indigestible mass of Turkish and other Muslim workers. The second is the state of the multinational organizations to which Germany tried to confine itself. NATO, a military alliance consisting mainly of countries lacking militaries worth noting, is moribund. The second is the state of the European Union. After the Greek and related economic crises, the certainties about a united Europe have frayed. Germany now sees itself as shaping EU institutions so as not to be forced into being the European Union’s ultimate financial guarantor. And this compels Germany to think about Germany beyond its relations with Europe.
It is impossible for Germany to reconsider its position on multiculturalism without, at the same time, validating the principle of the German nation. Once the principle of the nation exists, so does the idea of a national interest. Once the national interest exists, Germany exists in the context of the European Union only as what Goethe termed an “elective affinity.” What was a certainty amid the Cold War now becomes an option. And if Europe becomes an option for Germany, then not only has Germany re-entered history, but given that Germany is the leading European power, the history of Europe begins anew again.
This isn’t to say that Germany must follow any particular foreign policy given its new official view on multiculturalism; it can choose many paths. But an attack on multiculturalism is simultaneously an affirmation of German national identity. You can’t have the first without the second. And once that happens, many things become possible.
Consider that Merkel made clear that Germany needed 400,000 trained specialists. Consider also that Germany badly needs workers of all sorts who are not Muslims living in Germany, particularly in view of Germany’s demographic problems. If Germany can’t import workers for social reasons, it can export factories, call centers, medical analysis and IT support desks. Not far to the east is Russia, which has a demographic crisis of its own but nonetheless has spare labor capacity due to its reliance on purely extractive natural resources for its economy. Germany already depends on Russian energy. If it comes to rely on Russian workers, and in turn Russia comes to rely on German investment, then the map of Europe could be redrawn once again and European history restarted at an even greater pace.
Merkel’s statement is therefore of enormous importance on two levels. First, she has said aloud what many leaders already know, which is that multiculturalism can become a national catastrophe. Second, in stating this, she sets in motion other processes that could have a profound impact on not only Germany and Europe but also the global balance of power. It is not clear at this time what her intention is, which may well be to boost her center-right coalition government’s abysmal popularity. But the process that has begun is neither easily contained nor neatly managed. All of Europe, indeed, much of the world, is coping with the struggle between cultures within their borders. But the Germans are different, historically and geographically. When they begin thinking these thoughts, the stakes go up.
06 junho, 2010
Egípcios casados com israelitas podem perder nacionalidade. Uma tontice obscena
Egípcios casados com israelitas podem perder nacionalidade - Mundo - PUBLICO.PT
É pena que a maior parte dos comentários sobre estas questões, no espaço a eles dedicados pelo Público, caiam tantas vezes numa tontice tão obscena como a da decisão que o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto acaba de publicar.
É interessante notar que esta decisão saí no momento em que o presidente Hosni Moubarak corre o risco de perder influência face a uma Turquia que se ergue e se afirma, não só como potência regional, mas como o "campeão dos países islâmicos. pela mão de Tayyip Erdogan.
A primeira resposta foi ter aberto as portas de Rafah no dia 1 de Junho, - o único ponto de passagem oficial, em território egípcío, para Gaza - antes fechadas para agradar ao seu aliado Israel, ao seu patrono EUA e pelo temor que tem aos palestinos, enquanto "agentes sediciosos" que poderiam ajudar a minar o seu poder.
Quanto à questão religiosa eu diria que os islamitas lá chegarão.
As posições de Mohammed Sayyed Tantawi, o já falecido grande imã da Al-Azhar, a mais antiga e importante universidade do mundo islâmico, e referido na notícia, são a prova que o caminho se está a fazer.
Tal como o trabalho que o Prof. Tariq Ramadan, entre outros, tem desenvolvido, através de seus escritos e palestras onde tem contribuído substancialmente para o debate sobre a presença dos muçulmanos no Ocidente e sobre o ressurgimento islâmico no mundo muçulmano. Ele está activo tanto a nível académico, como público, através de palestras por todo o mundo, sobre justiça social e o diálogo entre civilizações.
A notícia do Público trazia uma fotografia onde se vê um casal muçulmano numa cerimónia de casamento onde a noiva aparece toda velada. Aliás deve ser uma fotografia de um casamento realizado em 29 de Julho de 2009 em Amã, quando se casaram 124 casais, e é pena não se ver o desfecho, que é, na maioria dos casos, o descobrir do rosto, que parece ser o que o noivo se prepara para fazer.
Confundir franjas da sociedade islamita, que tem uma visão mais integrista do Corão e por isso, onde o uso da Niqba e da Burka, estão mais arreigados na sua cultura, com a restante comunidade, é tomar a árvore pela floresta.
Entendo que a comunicação social, neste caso o Público, deveria ser mais cuidadosa a tratar destes assuntos.
Assim aquela imagem fora do seu contexto foi o suficiente para despertar os sentimentos islamofóbicos de uns tantos, que logo ali verteram toda a sua asca.
Acho que lhes faria bem seguirem este link para conhecerem as diferentes formas de cobrir a cabeça e esconder os cabelos usadas pelas mulheres muçulmanas.
E talvez não fosse má ideia recordar que em Portugal, ainda não há muito tempo, as católicas não podiam entrar de cabeça descoberta, nem de calças, nem de braços ao léu nas igrejas e que ainda hoje o seu papel, na comunidade religiosa e civil, continua a ser menorizado e secundarizado; que é tradição que as noivas entrem cobertas por um véu, hoje em dia, cada vez mais diáfano é certo; e que muitas das "esposas de Cristo" ainda se vestem de forma muito idêntica a uma mulher muçulmana que use hijab e jilab.
Isto para não falar nos lenços de cabeça (hijabs) usados em algumas regiões do país, ou em certo tipo de ocasiões.
As diferenças, em certo estádio de desenvolvimento religioso-cultural, não são assim tão distintas, como se pode verificar nesta imagem:
É pena que a maior parte dos comentários sobre estas questões, no espaço a eles dedicados pelo Público, caiam tantas vezes numa tontice tão obscena como a da decisão que o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto acaba de publicar.
É interessante notar que esta decisão saí no momento em que o presidente Hosni Moubarak corre o risco de perder influência face a uma Turquia que se ergue e se afirma, não só como potência regional, mas como o "campeão dos países islâmicos. pela mão de Tayyip Erdogan.
A primeira resposta foi ter aberto as portas de Rafah no dia 1 de Junho, - o único ponto de passagem oficial, em território egípcío, para Gaza - antes fechadas para agradar ao seu aliado Israel, ao seu patrono EUA e pelo temor que tem aos palestinos, enquanto "agentes sediciosos" que poderiam ajudar a minar o seu poder.
Quanto à questão religiosa eu diria que os islamitas lá chegarão.
As posições de Mohammed Sayyed Tantawi, o já falecido grande imã da Al-Azhar, a mais antiga e importante universidade do mundo islâmico, e referido na notícia, são a prova que o caminho se está a fazer.
Tal como o trabalho que o Prof. Tariq Ramadan, entre outros, tem desenvolvido, através de seus escritos e palestras onde tem contribuído substancialmente para o debate sobre a presença dos muçulmanos no Ocidente e sobre o ressurgimento islâmico no mundo muçulmano. Ele está activo tanto a nível académico, como público, através de palestras por todo o mundo, sobre justiça social e o diálogo entre civilizações.
A notícia do Público trazia uma fotografia onde se vê um casal muçulmano numa cerimónia de casamento onde a noiva aparece toda velada. Aliás deve ser uma fotografia de um casamento realizado em 29 de Julho de 2009 em Amã, quando se casaram 124 casais, e é pena não se ver o desfecho, que é, na maioria dos casos, o descobrir do rosto, que parece ser o que o noivo se prepara para fazer.
Confundir franjas da sociedade islamita, que tem uma visão mais integrista do Corão e por isso, onde o uso da Niqba e da Burka, estão mais arreigados na sua cultura, com a restante comunidade, é tomar a árvore pela floresta.
Entendo que a comunicação social, neste caso o Público, deveria ser mais cuidadosa a tratar destes assuntos.
Assim aquela imagem fora do seu contexto foi o suficiente para despertar os sentimentos islamofóbicos de uns tantos, que logo ali verteram toda a sua asca.
Acho que lhes faria bem seguirem este link para conhecerem as diferentes formas de cobrir a cabeça e esconder os cabelos usadas pelas mulheres muçulmanas.
E talvez não fosse má ideia recordar que em Portugal, ainda não há muito tempo, as católicas não podiam entrar de cabeça descoberta, nem de calças, nem de braços ao léu nas igrejas e que ainda hoje o seu papel, na comunidade religiosa e civil, continua a ser menorizado e secundarizado; que é tradição que as noivas entrem cobertas por um véu, hoje em dia, cada vez mais diáfano é certo; e que muitas das "esposas de Cristo" ainda se vestem de forma muito idêntica a uma mulher muçulmana que use hijab e jilab.
hijab jilab
As diferenças, em certo estádio de desenvolvimento religioso-cultural, não são assim tão distintas, como se pode verificar nesta imagem:
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