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16 agosto, 2010

Comunidade Israelita de Lisboa tira anti-semitismo do baú

Depois do Embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, ter vindo a terreiro usar do "Direito de resposta" para protestar grosseiramente contra a publicação, no DN de 1 de Agosto p.p., de um cartoon assinado por André Carrilho, (vide meu post "Embaixador de Israel em Portugal deveria ser considerado persona non grata" de 13 de Agosto), surge agora novo protesto, desta feita da Comunidade Israelita de Lisboa.

Porque entendo que esta situação é do interesse geral aqui fica para memória futura, a republicação do referido cartoon, a nota de protesto da CIL e o meu comentário.







DIREITO DE RESPOSTA in Diário de Notícias de 14 de Agosto de 2010

Em nome da Comunidade Israelita de Lisboa, venho por este meio protestar contra a publicação no dia 1 de Agosto do cartoon do DN da autoria de André Carrilho. O referido cartoon é ofensivo para todos os judeus, ao tentar estabelecer uma relação entre o nazismo e o comportamento do exército israelita. Do mesmo modo, ao colocar os soldados israelitas como carrascos e os palestiníanos como vítimas o cartoonista está simplesmente a falsear totalmente a realidade.
Na verdade, o cartoon alude aos judeus no seu todo, e não apenas ao Estado de Israel fundado em 1948 e consequentemente posterior à barbárie nazi.
Não basta saber desenhar, é necessário alguma decência e um conhecimento dos factos ...
Exmo. Senhor Director, solicito a publicação deste meu protesto ao abrigo do direito de resposta
José Oulman Carp Presidente da CIL - Comunidade Israelita de Lisboa

O MEU COMENTÀRIO

A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) sentiu-se ofendida com o cartoon que acima novamente publico, de António Carrilho, e pretendeu estender esse seu estado-de-alma a todos os judeus, mesmo àqueles que não representa. (Como a CIL muito bem sabe há muitos judeus por esse mundo fora, até mesmo em Israel, que não reconhecem o Estado de Israel enquanto tal.)

Afirma que é ofensivo porque tenta "... estabelecer uma relação entre o nazismo e o comportamento do exército israelita."

Eu não diviso tal relação... talvez por não ter a consciência pesada.

Para mim a ilustração que representa a violência nazi sobre o povo judeu, não pretende ser um ponto de partida para estabelecer uma relação, mas antes apenas marcar um tempo  e uma dada circunstância - a do povo judeu como vitima do nazismo - fazendo o contraponto com o tempo e a circunstância actual - a de opressor de um outro povo: o palestino.

É espantoso como um povo que tanto sofreu em razão da sua etnia, que se levantou para construir uma Nação – e dou de barato a forma como o fez, para encurtar razões - hoje, passados tantos anos, continua a ocupar as terras de outro povo, o palestino, procurando colonizá-las pelo esbulho de terras, águas e casas, usando de violência, da repressão e de políticas de apartheid, para tentar calar (matar) a sua revolta e sede de justiça.

De facto, por muito que continuem a querer esconder o Sol com a peneira, a luz da verdade, toca cada vez mais judeus por esse mundo fora, que hoje já não apoiam cegamente o Estado de Israel, e exigem a Paz, na base de uma solução de dois Estados, sobre as fronteiras de 1967, com os ajustes territoriais necessários e onde Jerusalém será a capital de ambos os Estados.

Parece que por cá ainda não é o tempo de caírem na realidade de que o caminho que tão estrenuamente apoiam é o caminho da guerra, da insegurança, da destruição dos valores morais e éticos de uma Nação, que hoje já começa a ser um "fardo" para os seus aliados, que mais cedo do que tarde será por eles alijado.

As Forças Armadas israelitas, de Forças de Defesa, constituídas por cidadãos e cidadãs, de um Estado que se pretendia “Democrático e Justo”, transformaram-se no braço armado de um Estado que cada vez mais se fundamenta, não em princípios democráticos mas numa doutrina racista centrada no etnicismo religioso e no purismo (kosher) da linhagem.

Hoje as Forças de Defesa de Israel são no fundamental forças de ocupação colonial e de repressão.

Escreveu Uri Avnery numa sua crónica de Julho de 2009, intitulada “Bananas”
“…/…
Desde o início da ocupação em 1967, o carácter do exército mudou completamente. O exército, que foi fundado, a fim de proteger o estado de perigos externos tornou-se um exército de ocupação, cuja tarefa é a de oprimir outro povo, esmagar sua resistência, desapropriar terras, proteger ladrões de terras chamados colonos, bloquear passagens, humilhar seres humanos, todos os dias. Evidentemente, não é só o exército que mudou, mas também o Estado que dá ao exército as suas ordens, bem como a contínua lavagem cerebral.

Num tal exército, ocorre um processo de selecção natural. Pessoas diferentes, com elevados padrões morais, que detestam estas acções, saem mais cedo ou mais tarde. O seu lugar é tomado por outros tipos, pessoas com diferentes valores, ou sem valores de todo, "soldados profissionais" que "apenas seguem ordens".
Evidentemente, tem que se ter cuidado ao generalizar. No exército de hoje ainda existem algumas pessoas que acreditam que estão cumprindo uma missão, para quem o Código Ético é mais do que apenas uma compilação de frases hipócritas.
…/…”

O autor do cartoon, André Carrilho, por ocasião do grosseiro, deselegante e despropositado comentário do Embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, teve ocasião de esclarecer que a substância do cartoon era tão somente ilustrar como "... as atrocidades do passado podem ser instrumentalizadas demagogicamente para justificarem abusos do presente."

Eu, pessoalmente, tenho uma visão mais carregada e quando olho para o que se passa nos territórios ocupados da Palestina e até em Israel, diviso o "ovo da serpente".

Se José Oulman Bensaúde Carp e seus correligionários tivessem analisado mais cuidadosamente o cartoon teriam verificado que na última ilustração uma das figuras apresenta uma braçadeira com o escudo de David. Esse símbolo é o que surge na bandeira do Estado de Israel, e também noutras bandeiras israelitas, nomeadamente na das IDF. Sendo o “Magen David” um símbolo judaico ele não é o símbolo do Judaísmo, que tanto quanto eu saiba, é o "Menorah" (o candelabro dos sete braços). Até por isso entendo como abusiva a tentativa canhestra de jogar este cartoon no caldeirão sem fundo do anti-judaísmo/anti-semitismo.

Já agora aproveito a ocasião e convido-os a juntarem-se ao  Ta'anit Tzedek - Jewish Fast for Gaza que se realizará na próxima  quinta-feira, dia 19.

13 agosto, 2010

Embaixador de Israel em Portugal deveria ser considerado persona non grata

O Embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, continua a comportar-se como um perfeito arruaceiro. Onde lhe falta a educação sobra a arrogância e a sobranceria bacocas.

Já por diversas vezes tem vocalizado de forma pouco cordata, pela linguagem e tom que usa e de que abusa, a desconsideração que o nosso País lhe merece.

Ontem mais uma vez surge a público, tentando desconsiderar e enxovalhar os cidadãos deste País, num "Direito de resposta" publicado no DN e que trancrevemos mais abaixo acompanhada pela resposta de um dos visados António Carrilho.

Infelizmente o DN não entendeu acompanhar tal resposta da republicação do cartoon, que  tanto enraiveceu tão  presunçosa personagem, para assim ficar mais claro a falta de razão da sua verborreia pouco lúcida.

Comparar o DN ao jornal nazi Der Stürme, é infame.

Evocar momentos negros da história de Portugal, nos quais um ditador, António Salazar, prestou homenagem a Hitler, pela sua morte. É ultrajante. Mas, estou certo, que tal evocação não deixa a maioria dos portugueses de consciência pesada, já que, mesmo os que viveram, em idade da razão, tal momento e ainda sobrevivem, para tal não foram dados nem achados.

Não há que fazer exames de consciência. Há antes que olhar para a história e aprender com os erros do passado, para que estes não se voltem a repetir. Ora neste caso, com o derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974, Portugal tem percorrido um caminho de liberdade, de democracia e de Paz, salvo raros momentos como o do nosso envolvimento na agressão ao Iraque, que entretanto foi rectificado.

Pelo contrário Israel há muito que se perdeu no caminho traçado pelos seus precursores. Ao invés de estarem a construir um Estado "democrático e justo", estão a transformar-se num Estado etnocêntrico e religioso, baseado na opressão de um outro povo o Palestino, a quem ocuparam as terras, colonizando-as agora pelo esbulho de terras e de casas, de forma violenta, por vezes brutal. O que se verifica hoje é a existência de uma política de apartheid, que já não poupa sequer os cidadãos israelitas, e que tem por base um racismo cego e ignóbil.

Na minha visão, os seis milhões de judeus mortos no Holocausto, ombreiam com os outros, muitos mais, que nele pereceram. E há muito que não pertencem a Yad Vashem. Há muito que eles são património de toda a Humanidade.

Israel quer capturar a memória dos Justos como mero álibi para os seus desmandos, para  sobre ela,   justificar a violência, a tortura, a prisão, a perseguição, a descriminação. Sem respeito pela sua memória.

O cartoon de André Carrilho, que Sua Excelência entende por desprezível, expressa apenas a visão do seu autor, que pode não ser perfeita, mas que de alguma forma apresenta um certo equilíbrio, e em meu entendimento nada tem de anti-semitismo. 

Felizmente para André Carrilho que vive em Portugal, nos dias de hoje. Assim não tem que se preocupar com uma PIDE, uma Gestapo ou uma Shabak, que o venha buscar, sem aviso, pela calada da noite e o leve para sítio muitas vezes desconhecido, por "delito de opinião contra a segurança do Estado".

Na minha opinião, o Senhor Embaixador, apesar de lhe terem feito um briefing sobre alguns passos da História de Portugal, deveria ler pessoalmente a parte que se refere ao período da ditadura. Iria encontrar semelhanças embaraçosas no que ocorreu naquele tempo em Portugal e nas então colónias, e que ocorre hoje em Israel e Territórios Ocupados da Palestina: polícias políticas e de "segurança do Estado"; Tribunais Plenários e Tribunais Militares; tortura, prisões e campos de concentração; colonização violenta e agressiva...

Entendo que caberá ao Senhor Embaixador de Israel, apresentar dez milhões de desculpas aos Portugueses e ao mesmo tempo seis milhões de milhões de desculpas aos Justos por se servir da sua memória de forma tão despudorada e sem vergonha.

Mais entendo que caberá ao Governo de Portugal declarar o Senhor Embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, como persona non grata.


Aqui fica o cartoon que "enraiveceu" e "repugnou" Sua Excelência o Embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, para assim poderem avaliar o desarrazoado da sua diabrite. 



DIREITO DE RESPOSTA in Diário de Notícias de 12 de Agosto de 2010


Sr. Director, [João Marcelino]

Foi com um misto de raiva e repugnância que vi o cartoon publicado no vosso jornal no domingo, dia 1 de Agosto, com o título "Déjà-Vu Evolução das Espécies", que na sua essência nos lembra, mais do que tudo, o jornal nazi Der Stürmer publicado nos anos 30 do século passado.

Não me é claro qual o contexto e o timing para a expressão de tal ódio ao povo judeu, mas esta não é a primeira vez que o cartoonista desse jornal utiliza estereótipos para expressar a generalidade dos seus pontos de vista.

Estou ciente do facto de em Portugal não se saber o suficiente acerca dos horrores nazis. É por essa razão que os acontecimentos do passado são tratados de uma forma tão ligeira, superficial e gratuita.

Assim, presumo que nem o Sr. nem o seu cartoonista saberão que Portugal foi um dos poucos países que, após a morte de Hitler, declarou vários dias de luto nacional e colocou bandeiras a meia haste.

Talvez seja necessário fazerem um exame à consciência colectiva.

Não sei se o Sr. ou o seu cartoonista alguma vez visitaram o Memorial de Yad Vashem, em Jerusalém. Sugiro que o façam. É a oportunidade de pedirem seis milhões de vezes desculpa pelo vosso desprezível cartoon.

Ehud Gol
Embaixador de Israel

NOTA DO AUTOR:

O Sr. Embaixador de Israel, ao não se referir à substância do cartoon em questão, acaba por sublinhá-la.

A saber que as atrocidades do passado podem ser instrumentalizadas demagogicamente para justificarem abusos do presente.

Não há no cartoon nenhuma indicação de ódio ao povo Judeu (que não confundo com determinadas políticas do Estado de Israel, o verdadeiro objecto do cartoon), nem nenhuma negação dos horrores do Holocausto.

Procura-se, isso sim, reflectir sobre como a história e a sua memória molda os papéis de vítimas e de agressores, num quadro que, por muito que queira, nunca será a preto e branco.

André Carrilho