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22 novembro, 2010

Tribunal Russell sobre a Palestina considera empresas britânicas e internacionais cúmplices dos crimes de guerra de Israel


Tribunal Russell sobre a Palestina identifica recursos jurídicos e apela a uma acção de boicote da sociedade civil [a Israel].

O Tribunal Russell sobre a Palestina anunciou o seu veredicto, esta manhã. O júri disse que tinham sido apresentadas "Provas irrefutáveis da cumplicidade empresarial em violações do direito internacional por Israel".

O jurado Michael Mansfield QC [Conselheiro da Rainha)], que presidiu à conferência de imprensa desta manhã, anunciou que o Júri apelava para a mobilização da sociedade civil para acabar com a participação das empresas nas violações israelitas de direitos humanos.

Tanto Israel quanto as empresas cúmplices, estão em clara violação aos direitos humanos internacionais e ao direito humanitário, disse. Referindo "o fornecimento de armas, a construção e manutenção do Muro de separação ilegal"e à prestação de serviços aos colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia.

Na sua declaração pública, o Tribunal Russell nomeou sete exemplos de empresas cúmplices nas violações israelitas, incluindo a empresa anglo-dinamarquesa G4S que fornece equipamento para postos de controlo israelitas na Cisjordânia.

Israel está em "flagrante violação" do direito internacional e está no lado errado da opinião pública mundial e da moralidade, afirmou Michael Mansfield.

O jurado e veterano da luta de libertação na África do Sul [e seu ex ministro] Ronnie Kasrils, declarou que "não se pode subestimar a importância" da acção da sociedade civil no boicote, desinvestimento e sanções (BDS) [a Israel].

O júri concluiu que existem implicações legais positivas para aqueles que ajam a favor do boicote, desinvestimento e sanções contra Israel. "Aqueles que desejam activamente protestar, têm o direito de o fazer", afirmou Mansfield. Aqueles que forem processados por danos criminosos têm uma defesa: a necessidade.

[Esta afirmação foi feita no contexto de decisões proferidas por tribunais britânicos, pelo que a sua assunção deverá ser ponderada à luz do regime legal aplicável e/ou de uma opção política consciente e livremente assumida].

Durante a conferência de imprensa soube-se que, em Covent Garden, estava a decorrer uma acção de activistas para encerrarem as instalações da Ahava, uma empresa israelita sedeada num colonato [ilegal] na Cisjordânia.

As declarações das empresas que optaram por se envolver com o tribunal serão anexas ao relatório final da sessão de Londres. Esse relatório estará disponível no começo de Dezembro.

Nele serão identificados recursos jurídicos específicos, no caso de muitas empresas envolvidas nas violações israelitas dos direitos humanos.

2.ª Sessão (Londres) do Tribunal Russell sobre a Palestina: Cumplicidade empresarial (em vídeo)


Poderão encontrar documentados em vídeo os trabalhos da 2.ª Sessão do TRoP, em Londres, sobre a cumplicidade empresarial nas violações de Israel ao direito internacional, (com excepção dos trabalhos da manhã do segundo dia,  onde ocorreu um um problema técnico),bastando para isso seguir os links a seguir apresentados:

Video: Day 1 morning of London Session

On November 20, 2010, in Media, News
An excerpt from the morning of Day 1 of the London Session on corporate complicity.

Video: Day 1 afternoon part 2 of London Session


On November 20, 2010, in Media, News
Full recording of London Session, Day 1, afternoon part 2.

Video: Day 2 afternoon part 1 of London Session

On November 21, 2010, in Media, News
Full recording of London Session, Day 2, afternoon part 1.

Video: Day 2 afternoon part 2 of London Session

On November 21, 2010, in Media, News
Full recording of London Session, Day 2, afternoon part 2.

Video: London Session Press Conference

On November 22, 2010, in Media, News
Full recording of the London Session’s conclusory press conference, at which the jury’s findings were delivered.

Conclusões do Tribunal Russell sobre a Palestina acerca da cumplicidade das empresas nas violações de Israel ao direito internacional.



Aqui se dá conta, ainda em inglês, das conclusões da Segunda Sessão do Tribunal Russell sobre a Palestina que analisou a cumplicidade das empresas nas violações de Israel ao direito internacional e hoje publicamente apresentadas pelo respectivo Júri. 

Public Statement of the Russell Tribunal on Palestine [RTP] 
following the conclusion of the London Session
on corporate complicity in Israeli violations of international law

The RTP London Session took place at the Law Society, 113 Chancery Lane, London WC2A 1PL on 20-21 November 2010.

Over the past two days, the Tribunal heard compelling evidence of corporate complicity in Israeli violations of international law, relating to: the supply of arms; the construction and maintenance of the illegal separation Wall; and in establishing, maintaining and providing services, especially financial, to illegal settlements, all of which have occurred in the context of an illegal occupation of Palestinian territory.

It is clear from the evidence of witnesses that this conduct is not only morally reprehensible, but also exposes those corporations to legal liability for very serious violations of international human rights and humanitarian law. What distinguishes the present situation from others in which international action has been called for, is that in this case both Israel and the corporations that are complicit in Israel’s unlawful actions are in clear violation of international human rights and humanitarian law.

The first session of the Tribunal, held in Barcelona in March 2010, found the EU and EU member states complicit in Israeli violations of international law, including: the illegal construction of the Wall in Palestinian territory; systematic building of illegal exclusively Jewish settlements on occupied Palestinian territory; the illegal blockade on Gaza; and numerous illegal military operations against Palestinian civilians, particularly during Operation Cast Lead in Gaza (Dec 2008-Jan 2009), which constitute war crimes and/or crimes against humanity.

Further, the RTP notes that the international community is clearly in agreement that Israel is in flagrant disregard of its international obligations; and further notes with deep regret that this wholly unsatisfactory and unacceptable state of affairs has been allowed to continue. Nonetheless, Israel’s continued impunity and disregard of its state obligations as a member of the United Nations and bound by the UN Charter, has set it apart from the rest of the international community. Accordingly, the RTP draws to the attention of all corporations complicit in Israel’s grave violations that their continued business activities place them on the wrong side of international opinion, morality and law. This clearly places both Israel and the corporations in a position in which they are undermining the very integrity and credibility of international law and the institutions that underpin it.

The main questions the jury considered in London were:
  1. Which Israeli violations of international law are corporations complicit in?
  2. What are the legal consequences of the activities of corporations that aid and abet Israeli violations?
  3. What are the remedies available and what are the obligations of states in relation to corporate complicity?

Accordingly, in answering these questions, the Tribunal’s full findings from the London Session, which will be available at the beginning of December 2010, will both summarise the key evidence that it heard about corporate complicity and identify specific legal and non-legal consequences and remedies.

The Tribunal has noted the failure of states to take appropriate action to put an end to Israel’s violations and illegal conduct, despite the requirements of international law, or to hold to account corporate complicity in Israeli actions, which has prompted civil society to step in and take action to bring about policy changes that respect human rights and international humanitarian law. This includes a very wide range of actions in support of the Palestinian call for boycott, divestment and sanctions (BDS).

Corporations play a very decisive role in enabling Israel to commit war crimes and crimes against humanity. These corporate activities can, and have been, the subject of citizen’s movements that the RTP received evidence about, including boycotts; shareholders holding corporations to account; divestments by pension funds of investments tainted by illegality; and actions that continue to put corporations in the spotlight with the purpose of bringing about change in corporate culture. In the Israeli context, civil society is taking effective action to enforce the law. Therefore, the RTP calls on states to protect the rights of all those who initiate or take such lawful BDS actions.

Twelve corporations and the EU were invited to participate in the London session but all declined. Letters were received from three corporations and the EU, which were entered into evidence. They will be annexed to the Tribunal’s final conclusions of the London session.

The RTP’s conclusions include its findings as to the potential legal liability of several corporations, including the following:

a) G4S, a multinational British/Danish corporation, supplies scanning equipment and full body scanners to several military checkpoints in the West Bank, all of which have been built as part of the Separation Wall, whose route was declared illegal by the ICJ in its Advisory Opinion of 9 July 2004.

b) Elbit Systems, a leading Israeli multinational, has an intimate and collaborative relationship with the Israeli military in developing weapons technology first used by the Israeli Army in its active combat operations, before marketing and selling the technology to countries worldwide. For example, Elbit supplied the Unmanned Aerial Vehicles (otherwise known as Drones) that were extensively and illegally used in the Gaza conflict. Despite this, the British Army has recently awarded Elbit a joint contract worth over US$1 billion for the development of the next generation of UAVs (known as the Watchkeeper programme). The British corporation UAV Engines Limited, a wholly owned Elbit subsidiary, will produce the plane’s engines. A serious concern regarding the use of drones relates to their indiscriminate nature. This is illustrated by the fact that during the Gaza conflict, for every alleged combatant targeted by drones, there were 10 civilian deaths. The Norwegian Pension Fund divested from Elbit Systems as a result of this complicity in human rights violations.

c) Caterpillar, based in the US, supply specifically modified military D9 bulldozers to Israel, which are used in: (i) the demolition of Palestinian homes; (ii) the construction of settlements and the Wall; and (iii) in urban warfare in the Gaza conflict; in all cases causing civilian deaths and injuries, and extensive property damage not justified by military necessity.

d) Cement Roadstone Holdings, an Irish multinational corporation, purchased 25% of the Israeli corporation Mashav Initiative and Development Ltd, which in turn wholly owns Nesher Israel Cement Enterprises Ltd, which is Israel’s sole cement producer, supplying 75-90% of all cement in Israel and occupied Palestine. This cement is used, amongst other things, for the construction of the illegal Separation Wall.

e) Dexia, a Franco-Belgian corporation, finances Israeli settlements in the West Bank via its Concluding subsidiary Dexia Israel Public Finance Ltd.

f) Veolia Transport, a French corporation, is involved in the construction of the East Jerusalem light railway, which Veolia is due to operate. Veolia also operates bus services to illegal Israeli settlements.

g) Carmel Agrexco, an Israeli corporation, is an exporter of agricultural produce, including oranges, olives, and avocadoes from the illegal settlements in the West Bank.

The Tribunal heard evidence that G4S, Elbit Systems and Caterpillar all acknowledge and actively boast in their promotional material about the use of their equipment during the Gaza conflict, which unlawfully inflicted loss of life and extensive and serious damage on Palestinian civilians and their property.

Civil claims against the above corporations, brought by victims of their complicity, are possible in the countries where those corporations are domiciled or have a significant presence; and corporations and corporate actors can be subject to criminal prosecution for breach of domestic law (for example, money laundering and/or concealment) and/or for the commission of international crimes, including the pillage of natural resources. In many countries domestic law incorporates international law, including international humanitarian and human rights law. This is without prejudice to universal jurisdiction or the jurisdiction of the International Criminal Court. The full conclusions of the Tribunal’s London Session will provide detailed examples of such potential litigation, and also highlight and encourage civil society/BDS actions that can achieve corporate accountability.

The Tribunal was impressed by the range and depth of the evidence given during the sessions.

The Tribunal is extremely grateful for the time, generosity and courage of the witnesses, particularly those that took part at considerable personal risk.

The Russell Tribunal will hold two more sessions in the next two years. The third session in South Africa will consider the applicability of the crime of apartheid to Israel. After the fourth session, it will publish its full conclusions.

The jury of the RTP was composed of the following members:

  • Stéphane Hessel, Ambassador of France, Honorary President of the RTP, France
  • Mairead Corrigan Maguire, Nobel Peace Laureate 1976, Northern Ireland
  • John Dugard, Professor of International law, former UN Special Rapporteur on Human Rights in the Palestinian Territories, South Africa
  • Lord Anthony Gifford QC, UK barrister and Jamaican attorney-at-law
  • Ronald Kasrils, writer and activist, former Government Minister, South Africa
  • Michael Mansfield, barrister, President of the Haldane Society of Socialist Lawyers, United Kingdom
  • José Antonio Martin Pallin, emeritus judge, Chamber II, Supreme Court, Spain
  • Cynthia McKinney, former member of the US Congress and 2008 presidential candidate, Green Party, USA

20 novembro, 2010

Tribunal Russell sobre a Palestina: Segundo dia de trabalhos

ONLive: Domingo 21 de Novembro: 10:00-13:30, 14:45-17:30 (GMT)

Programa

Segundo dia: 21 de Novembro, Domingo

Pierre Galand (Bélgica) abrirá o segundo dia de trabalhos em nome do Comité Organizador Internacional do RToP.

10:30 - IV. Sector dos Serviços Financeiros

Merav Amir (Israel) apresentará uma visão geral sobre a conexão das companhias financeiras israelitas e internacionais à ocupação israelita da Palestina.

Mario Franssen (Bélgica) falará sobre o grupo Dexia.

Saskia Muller (Holanda) falará sobre o Fundo de Pensões PFZW.

11:40 - Intervalo

12:00 - V. A indústria de segurança e a indústria bélica

Um panorama da indústria de segurança e a natureza do envolvimento das empresas será apresentado por John Hilary (Reino Unido).

Maria LaHood (EUA) irá fornecer informações sobre a Caterpillar e a utilização dos seus equipamentos em acções militares israelitas.

Josh Ruebner (EUA), seguirá com informações e provas relacionadas às práticas de negócio da Caterpillar.

Merav Amir e / ou a Dra. Dalit Baum (Israel) apresentarão um relatório sobre a empresa de segurança privada britânica G4S.

13:30 - Intervalo

14:45 - V. A indústria de segurança e a indústria bélica

Shir Hever (Israel) e Jamal Juma (Palestina) falarão sobre a Elbit Systems e no seu papel nas acções de segurança do Estado de Israel.

Paulo Tropa (UK) analisará casos recentes apresentados nos tribunais contra as empresas de fabricação de armamento sedeadas no Reino Unido EDO ITT e Raytheon.

O último orador, Ben Hayes (Reino Unido) dará informações relativas aos subsídios da União Europeia à indústria de segurança [de Israel].

16:10 - Intervalo

16:30 – Tempo para as empresas referidas na sessão serem ouvidas **

Últimas questões

O Tribunal poderá querer 'voltar a ouvir' peritos que se apresentaram nesta sessão ou outros especialistas em direito internacional para pedir esclarecimentos sobre questões jurídicas à luz do que terá sido ouvido durante os dois dias de trabalhos.

Encerramento da sessão : Última ronda e visão geral dos dois dias: o que aconteceu e as perspectivas futuras.

17:30 - Fim do segundo dia

19:00 - O júri retira-se para as deliberar

Terceiro dia, segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

10:30 - Conferência de Imprensa

No Centro de Acção dos Direitos Humanos da Amnistia Internacional onde serão apresentadas as conclusões da segunda sessão do RToP.

** Todas as empresas cujas práticas de negócios serão questionadas durante a sessão foram contactadas por carta registada e convidadas a estar presentes na sessão.

Assista a partir de hoje às sessões do Tribunal Russell para a Palestina onLive

Poderá assistir a partir das 10:00 de hoje, sábado, à segunda sessão internacional do Tribunal Russell para a Palestina (RTOP), que terá lugar em Londres, nos próximos dias 20, 21 e 22 de Novembro de 2010.

Nesta sessão será examinada: “A cumplicidade das empresas internacionais nas violações do Direito Internacional dos Direitos Humanos, do Direito Internacional Humanitário, e nos Crimes de Guerra, por parte de Israel.

Para tal basta seguir o link.

Programa

Primeiro Dia: 20 de Novembro, Sábado

10:00 - Pierre Galand (Bélgica), abrirá a sessão de Londres, em nome do Comité Organizador Internacional do Tribunal Russell sobre a Palestina (RTOP).

Introdução à segunda sessão do Tribunal Russell sobre a Palestina pelo Embaixador da França Stéphane Hessel (França) e Michael Mansfield QC (Reino Unido).

10:15 - I. O quadro legal relevante para Conduta Empresarial

Os juristas, Richard Hermer QC (R.U.), Yasmine Gado (EUA) e Dr. William Bourdon (França) irão definir o quadro jurídico do tribunal. Cada perito irá analisar os detalhes das lesgislações do Reino Unido, do EUA e de França, respectivamente, e a sua relevância para a aplicação do direito internacional, bem como a sua relevância para o foco desta sessão sobre a cumplicidade empresarial.

11:30 - Intervalo

11:50 - II. Implicações das actividades empresariais nos colonatos e na sua vizinhança (Parte 1)

Dra. Dalit Baum (Israel) e Hugh Lanning (UK) irão apresentar o panorama das questões relacionadas com as práticas de negócio relacionadas com os colonatos e com a indústria dos colonatos.

Al Fayez Taneeb (Palestina) e Wael Natheef (Palestina), falarão sobre o impacto directo que esta situação tem tido nos palestinos como trabalhadores e como moradores nos e nas proximidades dos colonatos.

13:30 - Intervalo

14:45 - II. Implicações das actividades empresariais nos colonatos e na sua vizinhança (Parte 2)

Adri Nieuwhof (Holanda), falará como principal perito em regulamentação de contratos públicos e sobre a multinacional francesa, Veolia, e as suas práticas de negócios nos territórios palestinos ocupados.

Ghaleb Mashni (Palestina) dará conta do impacto que esta situação teve sobre os palestinos.

John Dorman (Irlanda) terminará a sessão avaliando a conexão entre a Cement Roadstone Holdings e a construção do Muro.

15:50 - III. Comércio e Rotulagem de Produtos dos Colonatos

Um representante da Al-Haq* (Palestina) apresentará uma panorâmica geral das questões jurídicas relacionadas com o comércio e a rotulagem dos produtos dos colonatos.

16:10 - Intervalo

16:30 - Christophe Perrin (França), apresentará um relato das práticas de negócios dos produtores agrícolas, Carmel Agrexco.

Nancy Rae e Kricorian Abileah (EUA), analisará a empresa de cosméticos Ahava e a sua produção de produtos para spa.

Phon Van Den Biesen (Holanda), analisará as questões relativas à rotulagem dos produtos provenientes dos colonatos israelitas e os trabalhos serão encerrados com a apresentação de Genevieve Coudrais (França), sobre a Soda Stream.

18:00 Encerramento do primeiro dia de trabalhos

* Al-Haq, é uma organização não-governamental de direitos humanos palestina, independente, com sede em Ramallah, na Cisjordânia. Fundada em 1979 para proteger e promover os direitos humanos e o Estado de direito nos Territórios Ocupados Palestinos (OPT), a organização tem status consultivo especial junto ao Conselho Económico e Social das Nações Unidas.

19 junho, 2010

O primeiro passo de Saramago


Esta é a capa do primeiro romance de Saramago, na sua primeira edição datada de 1947.

A sua reedição só se faz em Setembro de 1997, cinquenta anos depois, pela Editorial Caminho. Para ela escreveu Saramago este interessante "Aviso", explicando as suas razões, porque só então aceitou reintegra-lo na sua obra.

     Aviso

    O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralheria mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição, segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para comprar os livrinhos da colecção “Cadernos” da Editorial Inquérito. A sua primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste ano de 1974 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há-de acostumar. Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores, pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes, falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho-de-ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física, imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador militar. Acabou em manga-de-alpaca do último grau da escala hierárquica e tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando, com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora. Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor. Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o título do livro, sem atractivo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que não discutiu os aspectos materiais de um contrato que nunca veio a passar de simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse mais. O romance chamar-se-ia Terra do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva.

         J. S.

Actualização: 19 de Julho de 2010, 17:34

Soube agora, pelo Público, que o Governo decretou dois dias de luto nacional. Para mim é igual. Esses sinais de hipocrisia mundana, pretendem servir mais os da "situação" do que a memória de quem partiu e deixa Obra.

No meu caso, Saramago está onde sempre esteve. No meu pensamento. Como um Homem que  admiro, tanto pela Obra como pela sua coragem e persistência na defesa dos seus valores e causas. Um exemplo a ter presente.

Se muitos apenas lhe reconhecem a Obra, eu, sou dos que, para além disso, valorizo a sua solidariedade, dedicação e luta contra a injustiça, a opressão e a miséria, nomeadamente, no tocante à causa da Palestina, face à qual sempre demonstrou  interesse  e generosidade, sendo uma das personalidades mundiais que subscreveu a criação do Tribunal Russell sobre a Palestina.

Estou certo que a sua Fundação zelará pelo seu legado, para que continuemos a fruir da sua sabedoria. Espero que possa reunir o seu espólio, de forma mais profunda e alargada possível e que o coloque acessível a todos através da Internet. (Obviamente não me estou a referir a materiais que sejam sujeitos de direitos de autor e que por isso sejam um justo suporte financeiro para a sua  Família e da sua Fundação.)