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01 agosto, 2012

Qualquer dia...

Zeca Afonso


No Inverno bato o queixo 
Sem mantas na manhã fria 
No Inverno bato o queixo 
Qualquer dia 
Qualquer dia 

No Inverno aperto o cinto
Enquanto o vento assobia
Qualquer dia 
Qualquer dia

No Inverno vou por lume
Lenha verde não ardia
Qualquer dia 
Qualquer dia

No Inverno penso muito
Oh que coisas eu já via
Qualquer dia 
Qualquer dia

No Inverno ganhei ódio
E juro que o não queria
Qualquer dia 
Qualquer dia

25 julho, 2012

Venham mais cinco

ZECA AFONSO



Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

19 dezembro, 2010

José Dias Coelho, artista plástico, comunista, assassinado pela PIDE (19/12/1961)


José Dias Coelho, assassinado a tiro, a sangue frio, em 19 de Dezembro de 1961.

Nesse dia, pelas oito horas da noite, cinco agentes da PIDE saltaram de um automóvel, perseguiram-no, cercaram-no, na então Rua da Creche, em Alcântara e que hoje tem o seu nome, e dispararam dois tiros.

Um tiro à queima-roupa, em pleno peito, deitou-o por terra; o outro foi disparado com ele já no chão.

Os assassinos meteram-no num carro e partiram a toda a velocidade.

Só duas horas depois, quando estava a expirar, o entregaram no Hospital da CUF.

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram quem tinha denunciado Dias Coelho nem quem lhes dera ordens.

Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.

José Dias Coelho morreu porque era comunista.

Zeca Afonso prestou-lhe homenagem com estes versos e música.



A Morte Saiu à Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada hà covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação.

Ver ainda:

Júlia Coutinho – JOSÉ DIAS COELHO – BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES

Júlia Coutinho – JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER