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23 abril, 2012

Manifesto "Abril não Desarma" da Associação 25 de Abril

Abril não desarma

Há 38 anos, os Militares de Abril pegaram em armas para libertar o Povo da ditadura e da opressão e criar condições para a superação da crise que então se vivia.

Fizeram-no na convicta certeza de que assumiam o papel que os Portugueses esperavam de si.

Cumpridos os compromissos assumidos e finda a sua intervenção directa nos assuntos políticos da nação, a esmagadora maioria integrou-se na Associação 25 de Abril, dela fazendo depositária primeira do seu espírito libertador.

Hoje, não abdicando da nossa condição de cidadãos livres, conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe, sentimos o dever de tomar uma posição cívica e política no quadro da Constituição da República Portuguesa, face à actual crise nacional.

A nossa ética e a moral que muito prezamos, assim no-lo impõem!

Fazemo-lo como cidadãos de corpo inteiro, integrados na associação cívica e cultural que fundámos e que, felizmente, seguiu o seu caminho de integração plena na sociedade portuguesa.

Porque consideramos que:

  • Portugal não tem sido respeitado entre iguais, na construção institucional comum, a União Europeia.
  • Portugal é tratado com arrogância por poderes externos, o que os nossos governantes aceitam sem protesto e com a auto-satisfação dos subservientes.
  • O nosso estatuto real é hoje o de um “protectorado”, com dirigentes sem capacidade autónoma de decisão nos nossos destinos.
  • O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder. As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem-estar social atingem a dignidade da pessoa humana.
  • Sem uma justiça capaz, com dirigentes políticos para quem a ética é palavra vã, Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais.
  • O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho.
 Entendemos ser oportuno tomar uma posição clara contra a iniquidade, o medo e o conformismo que se estão a instalar na nossa sociedade e proclamar bem alto, perante os Portugueses, que:

- A linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril configurado na Constituição da República Portuguesa;

- O poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores;

Em conformidade, a A25A anuncia que:

- Não participará nos actos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril;

- Participará nas Comemorações Populares e outros actos locais de celebração do 25 de Abril;

- Continuará a evocar e a comemorar o 25 de Abril numa perspectiva de festa pela acção libertadora e numa perspectiva de luta pela realização dos seus ideais, tendo em consideração a autonomia de decisão e escolha dos cidadãos, nas suas múltiplas expressões.

Porque continuamos a acreditar na democracia, porque continuamos a considerar que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia, esclarecemos que a nossa atitude não visa as Instituições de soberania democráticas, não pretendendo confundi-las com os que são seus titulares e exercem o poder.

Também por isso, a Associação 25 de Abril e, especificamente, os Militares de Abril, proclamam que, hoje como ontem, não pretendem assumir qualquer protagonismo político, que só cabe ao Povo português na sua diversidade e múltiplas formas de expressão.

Nesse mesmo sentido, declaramos ter plena consciência da importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História do nosso Portugal. Por isso, declaramos a nossa confiança em que a mesma saberá manter-se firme, em defesa do seu País e do seu Povo. Por isso, aqui manifestamos também o nosso respeito pela instituição militar e o nosso empenhamento pela sua dignificação e prestígio público da sua missão patriótica.

Neste momento difícil para Portugal, queremos, pois:

1. Reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português e à consolidação e perenidade da Pátria portuguesa.

2. Apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia.

Viva Portugal!

 
In: https://www.facebook.com/note.php?note_id=377707942271148 
Se gostar - não vejo como não - recomendo que vá ao FB da "Associação 25 de Abril", e afirme "LIKE", quer na Associação, quer no documento em si, e partilhe o manifesto no FB, nos seus sites, por email ...
Façamos o que a comunicação social não faz!

25 abril, 2010

As portas que Abril abriu! de Ary dos Santos

É uma poesia datada (Julho-Agosto de 1975)  e engajada: Ary dos Santos nunca escondeu após 25 de Abril que era membro do Partido Comunista Português.

É uma longa poesia - 2.109 palavras. Mas é uma poesia que canta e conta a gesta de Abril,  sendo  premonitório quanto aos perigos que já então se anunciavam e que infelizmente se concretizaram.

"Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade."

Assim nos canta e encanta Ary. Por isso o escolhi. 

Para que o murmúrio final de que "...ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!", ecoe na nossa alma e se transforme num coro ensurdecedor que cale de vez as mentiras, patranhas e engodos que nos querem fazer engolir.

Neste tempo de sombras e tartufos é tempo de dizer : Basta!

As portas que Abril abriu!

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos nossos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975
José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)
in: "Obra poética" - Edições Avante

25 de Abril de 1974 - A poesia está na rua


A visão da pintora Maria Helena Vieira da Silva sobre o 25 de Abril de 1974 integrando a feliz expressão poética de Sophia de Mello Breyner Andersen: A poesia está na rua

Recordações do dia 25 de Abril de 1974 - A tarde (II) - 16:15: A desconhecida ferida pela PIDE/DGS que ainda mata e fere.

No Largo do Carmo o tempo passava. Marcelo e seus acólitos cercados pelos populares e pelos militares revoltosos tardavam em render-se.

Impaciente com o desenlace que tardava resolvi descer, já de carro, pelo Camões em direcção ao Chiado.

Estou no Camões, passava das quatro da tarde, e ouço tiros. De repente desponta numa esquina meia dúzia de pessoas a fugirem transportando uma rapariga ferida.

Metemo-la no meu carro e lá a transportei em corrida desabrida até às Urgências do Hospital de S. José. Desembarquei a minha passageira e eis que logo chega um polícia que me disse para esperar que tinha que ficar com a minha identificação.

Enquanto volta costas e torna a entrar nas Urgências, meto-me no carro que estava ligado e desapareço.


Nunca soube quem ajudei naquele dia, mas estou certo que sobreviveu apesar do sangue que perdeu. Foi o primeiro incidente registado do estertor da Besta. A hora está referida: 16:15. Do nome de quem ali morreu  ou ficou ferido nada consegui até agora encontrar.

Da cronologia oficial consta:

Recordações do dia 25 de Abril de 1974 - A tarde (I) - Os capitães de Abril conquistaram a Liberdade Sozinhos?

À tarde passei pelo Largo do Carmo. Já estava pejado de gente, As pessoas irmanavam-se entoando palavras de ordem e fundiam-se com o aço dos carros de combate. Era como se os quisessem proteger com a sua própria carne. E como se o aço lhes fortalecesse a sua determinação.
 


É tempo de honrar este Povo anónimo que saiu à rua, cidadãos e cidadãs e militares - praças, cabos, furriéis e sargentos - e que por tantos terem sido, tão pouco são recordados.

Parafraseando Bertolt Brecht nas " Perguntas de um operário que lê" 1):

Os capitães  de Abril conquistaram a Liberdade
Sozinhos?


Notas:


1)
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?


Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?


Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?


No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros?


A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? 


Sobre quem
Triunfaram os Césares? 


A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? 


Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.


O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?


César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?


Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?


Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?


Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?


Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?


Tantas histórias
Quantas perguntas

Recordações do dia 25 de Abril de 1974 - A manhã

Do dia 25 de Abril de 1974, uma quinta-feira, recordo-me do nascer do dia nublado; de ir para o trabalho e que ao iniciar a descida da álea superior do Parque Eduardo VII, vindo de Campo de Ourique, em direcção a S. Sebastião da Pedreira, e de me deparar, subitamente, com uma auto-metralhadora estacionada no cruzamento com a Avenida António Augusto de Aguiar. Travo o carro, então uma Diane branca, decidindo meia-volta de regresso a casa, para escapar a possíveis complicações.

Naquele tempo éramos quase todos suspeitos de sermos perigosos subversivos até prova em contrário. E até que aquela prova se produzisse, era uso "porrada de criar bicho".

(Curiosamente o troço de via pública acima referido passou a ser designada por Alameda Cardeal Cerejeira, 1) por edital da CM  de Lisboa, datado de 14 de Abril de 1982, então presidida pelo Eng.º Kruz Abecassis, do CDS, em representação da coligação PSD-CDS.)

Regressado a penates, abri o rádio, a televisão, escutando os comunicados do Posto de Comando do MFA, enquanto ia ligando para este e para aquele, a ver se entendia o que se passava.

Como estava fundeada uma esquadra da NATO no Tejo com saída prevista para essa manhã, resolvi ir com um amigo meu até Belém para confirmar a sua saída. Lá os vimos a desfilar e voltamos para almoçar em casa dele e continuar a tentar perceber o que de facto se estava a passar.

Mas as memórias do Chile assombrava-me, com os seus milhares de mortos e de desaparecidos e de dezenas de milhares de encarcerados. O 9/11 de 1973 da besta sanguinária de Pinochet tivera o beneplácito explícito, caso dos EUA, ou implícito da maioria das "democracias ocidentais" representadas na NATO.

Assim a saída da esquadra, cumprindo o calendário, nada queria dizer. O que aconteceu no Chile poderia fácilmente repetir-se em Portugal. Por outro lado a proximidade do regime de Franco, outro bárbaro sanguinário, que continuava a torturar e a assassinar pelo garrote ou pelo fuzilamento também era motivo para preocupação.

Acresce que o meu conhecimento dos quadros das nossas Forças Armadas, adquirido durante 4 anos de SMO, dois em Portugal Continental e outros dois em Angola, não era de molde a dar-lhes grandes créditos.

A agravar a minha leitura da situação, entre eles pontuavam figuras que sempre estiveram coniventes com o regime autoritário e repressivo de Salazar e Marcelo.


A primeira página do República entreabria a porta à esperança mas a dúvida subsistia: Golpe militar para derrubar o "tíbio" Marcelo ou algo de diferente que abrisse caminho à restauração das liberdades, direitos e garantias de um Estado democrático de direito?



Notas:
1) Entendi que seria de interesse para alguns, especialmente para os mais jovens,  terem presente quem foi MANUEL GONÇALVES CEREJEIRA, 14º Cardeal Patriarca de Lisboa, (1988-1977) e qual o papel  que a esmagadora maioria da hierárquia da Igreja Católica  desempenhou na sustentação da ditatura em Portugal e no prolongamento da Guerra Colonial. Os destaques são de minha responsabilidade.

Manuel Gonçalves Cerejeira foi ordenado sacerdote a 1 de Abril de 1911 e licenciou-se, em 1912, em Teologia pela Universidade de Coimbra, tendo sido
regente da cadeira de História Medieval na Faculdade de Letras na Universidade de Coimbra, desde 1916.
 
Doutorou-se, a 30 de Janeiro de 1918, em Ciências Históricas e Geografia na Faculdade de Letras da mesma Universidade, com uma tese sobre o educador do Rei Cardeal Dom Henrique, Nicolau Clenardo.
 
Em 1919 foi nomeado professor, desempenhando, em seguida, os cargos de arquivista, paleógrafo e director do Arquivo da mesma Universidade.
 
Reestruturou, com o apoio de António de Oliveira Salazar, o Centro Académico de Democracia Cristã, um fórum de estudantes e professores, que defendia as teses das Encíclicas do Papa Leão XIII e que lutava contra os regimes republicanos, considerados como maçónicos, anticlericais e individualistas.
 
Para contrariar as ideias republicanas, colaborou como jornalista, desde 1908, com o jornal católico A Palavra e, fundou e dirigiu, entre 22 de Fevereiro de 1912 e 1914, o semanário O imparcial, publicação dos universitários católicos de Coimbra. A partir de 1914, colaborou e editou a revista católica Lusitânia.
 
Após a o golpe militar do 28 de Maio de 1926 e subsequente implantação de um regime ditatorial onde  a influência de Salazar crescia  vertiginosamente,  a carreira de Cerejeira na hierarquia da Igreja, seguiu o mesmo andamento.

Nomeado, a 23 de Março de 1928, Arcebispo de Mitilene, a 20 de Agosto desse ano, assumiu o cargo de Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa, tendo sido elevado a Patriarca de Lisboa a 18 de Novembro de 1929.

Em 1933, por designação do Episcopado Português, foi nomeado director nacional da Acção Católica.
 
Foi o grande impulsionador da Concordata assinada entre Portugal e a Santa Sé, em 7 de Maio de 1940 e contribuiu para o Acordo Missionário entre Portugal e a Santa Sé, concluido no mesmo ano.
 
A 26 de Maio de 1965, o Papa Paulo VI nomeou-o Vigário Castrense e, em 1966, foi nomeado Bispo das Forças Armadas.
 
Enquanto se manteve à frente do Patriarcado de Lisboa, o Cardeal Cerejeira esteve, quase sempre, em consonância, com o governo de Salazar, estando presente, ou fazendo-se representar, na maioria dos actos públicos, assim como nos discursos e escritos, nomeadamente, o Discurso à Juventude Portuguesa e A Opção Materialismo – Cristianismo, ambos editados, durante a crise estudantil de 1962.
 
Mediou, em 1960, durante o papado de Paulo VI, o conflito entre a Santa Sé e Portugal, devido ao colonialismo e por aquela Eminência ter recebido, no Vaticano os líderes dos movimentos africanos de libertação, que lutavam contra Portugal.
 
Não interveio no encerramento do jornal O Trabalhador, fundado pelo padre Abel Varzim mas silenciou o exílio de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto.

Em conclusão Cristo expulsou os fariseus do Templo, Cerejeira não só abriu as portas do Templo, como apoiou os crimes da ditatura, quer no plano nacional, quer no plano colonial.