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17 julho, 2010

Saramago censurado pelo Executivo da Camara do Porto (PSD/PP): aqui se dá "os nomes aos bois"

Chamou-me à atenção o título de uma crónica, dada à estampa ontem, no Público "O ódio".

Vi quem a subscrevia, mas não liguei de imediato o nome à pessoa: João Teixeira Lopes.

Então lendo percebi ao que JTL se referia. E lendo descobri o que me passara de lado, apesar da atenção diária que dedico à Comunicação Social. Ou terá sido a pouca relevância que a CS deu a este acontecimento que fez que nele não reparasse?

De facto, pesquisando encontrei uma entrada de 13 de Julho na TVI24, outra a 14 do Público - aqui mea culpa que até sou assinante - e ainda, no mesmo dia, no JN.

Mas vamos aos factos:

O vereador Rui Sá, da Câmara Municipal do Porto, apresentou um voto de homenagem a José Saramago na última reunião de vereação.

A maioria PSD/PP entendeu que a votação deveria ter dois momentos:

O primeiro, onde seria votado ou não, o reconhecimento do contributo do escritor para a “divulgação e o prestígio de Portugal” e a apresentação de condolências à família, nos seguintes termos: "... face ao falecimento de José Saramago, Escritor, Prémio Nobel da Literatura e, até hoje, o único Prémio Nobel da Literatura Português, a Câmara do Porto, ciente do importante contributo que deu para a divulgação e o prestígio de Portugal e da Língua Portuguesa curva-se respeitosamente perante a sua memória, apresenta sentidas condolências à sua família".

  • Foi aprovada com os votos favoráveis dos vereadores da CDU e do PS, a abstenção (abstenção? ... numa situação destas? apenas a viscosa falta de verticalidade moral e ética) do presidente Rui Rio, e de cinco vereadores do PSD/PP, tendo votado contra Manuel Moreira de Sampaio Pimentel Leitão do PP;
O segundo, onde seria votada, ou não, a atribuição do nome do escritor a uma rua da cidade segundo esta fórmula simples: "José Saramago, Escritor, Prémio Nobel da Literatura 1998".

  • Foi recusada pelos votos da vereação PSD/PP e a abstenção do vereador do Partido Socialista Luciano Vilhena Pereira.
Para que se saiba quem é a vereação PSD/PP aqui ficam os nomes, quanto às caras poderá vê-las aqui.

  • Rui Fernando da Silva Rio (PSD)
  • Álvaro António Magalhães Ferrão de Castello-Branco (PP)
  • Matilde Augusta Monteiro da Rocha Alves (PSD)
  • Vladimiro Mota Cardoso Feliz (PSD)
  • Manuel Moreira de Sampaio Pimentel Leitão (PP)
  • Guilhermina Rego (PSD)
  • Gonçalo Nuno de Sousa Mayan Gonçalves (PSD)
Eis assim aqui nomeados os novos censores do pensamento, aqueles que pretendem transformar o Porto numa sociedade mesquinha e sem horizontes, à medida do seu convencionalismo retrógrado, bafiento e asfixiante.

Não sei porquê, mas estas atitudes fazem-me lembrar aquela frase mítica do nacional-socialismo, sobre a cultura:

“Quando ouço falar em cultura, puxo da pistola!"

Concluindo, em minha opinião, José Saramago, não precisa do nome numa qualquer rua, de uma qualquer cidade, pois já tem o seu nome inscrito, milhões de vezes, na maior Via do Universo do Conhecimento e da Infornação: a Internet.

27 junho, 2010

A não perder: Entrevista com Janúario Torgal Ferreira, Bispo, no Ionline

Concordo e aceito um homem que viva com um homem in Ionline

O título do "Ionline", que suporta o link para a entrevista, é um chamariz. Este é apenas um dos temas - importantes - que foram abordados na entrevista com o Bispo Januário Torgal Ferreira, realizada pela jornalista Rosa Ramos. Uma boa entrevista.

Na entrevista vai passando:

Saramago; "O Evangelho segundo Jesus Cristo"; o artigo do L' Osservatore Romano" (Eu pensei que esse extremismo já tivesse passado, esse radicalismo. Não ficava mal mostrar alguma sensatez - mantendo a verdade - diante de uma pessoa que já cá não está para se defender.); comunismo;

A "esquerda" (Se as pessoas entenderem que ser de esquerda é falar dos problemas sociais, defender gente desempregada, demonstrar diante de sistemas governamentais a sua inutilidade, desvarios e erros...); CGTP;

O casamento homossexual (...casamento com o qual eu não concordo e que entendo como união.); a argumentação de Cavaco Silva aquando da promulgação (... produção cultural insuficiente da argumentação usada: dizer que não veta por causa da situação crítica que estamos a atravessar?); o movimento de homossexuais católicos; a prática da homossexualidade (Com certeza que um casal homossexual não é um teórico, não é? E os afectos traduzem-se por essa prática, por essa fusão psíquico-afectiva da unidade misteriosa que é o ser humano.) e a posição da Igreja Católica;

Planeamento familiar;

Igreja; os "novos movimentos"; ritos; centralismo do Vaticano;

Razão e fé.

Recomendo a leitura pois é uma entrevista que carrega a esperança de que milhões de católicos possam vir a abraçar, um dia, uma sociedade mais aberta, mais justa, mais inclusiva, mais fraterna e progressiva, objectivo que infelizmente apenas alguns desde há muito defendem.

Bastava para tal que seguissem o exemplo radical de Cristo adaptado aos nossos tempos.

A questão é que, por cada Januário cristão, existem dezenas de aliados do obscurantismo mais reaccionário, que preferem o conúbio com a riqueza e o poder, do que com a justiça social e os mais desfavorecidos e pobres.

21 junho, 2010

O "elogio" fúnebre do Vaticano a um ser humano chamado Saramago

Já  aqui tínhamos dado conta e comentado, a partir de uma notícia do DN, do que a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, através do seu órgão "L'Osservatore Romano" entendeu comunicar sobre a morte de José Saramago.

Aqui fica a versão original em italiano já que não encontrei a sua tradução oficial para português. No entanto, na última edição semanal portuguesa, datada de 19 de Junho, encontrei, nem de propósito, um "discurso ao congresso eclesial da diocese de Roma Bento XVI recordou que a Eucaristia torna capaz de partilha. A caridade transforma os corações e a sociedade.
Bem prega Bento XVI...

L’onnipotenza (presunta) del narratore

di Claudio Toscani
"Quello di cui la morte non potrà mai essere accusata è di aver dimenticato a tempo indeterminato nel mondo qualche vecchio, solo per invecchiare sempre di più, senza alcun merito o altro motivo visibile".
Sia pure scomparso alla rispettabile età di 87 anni, di José Saramago non si potrà dire che il destino l'abbia tenuto in vita a tutti i costi, vedi la frase succitata, tolta dal romanzo Tutti i nomi, uscito in quel 1998 che lo vide provocatorio Nobel della letteratura.
"Saramago", cognome aggiunto all'anagrafico José Sousa, era nato nel 1922 ad Azinhaga in Portogallo, da una famiglia di contadini e braccianti. Trasferitosi a Lisbona nel 1924, qui aveva compiuto i suoi studi fino al diploma di tecnico meccanico. Non particolarmente complessa né movimentata, la sua vita veniva registrando vari lavori, tra cui l'editoria; un matrimonio nel 1944; un primo romanzo nel 1947 (Terra di peccato, che disconoscerà in sede di bibliografia ufficiale); l'iscrizione al Partito comunista nel 1969 e una militanza politica clandestina sino al 1974, quando la cosiddetta "rivoluzione dei garofani" (contro la dittatura di Caetano), ristabilisce le libertà democratiche.
Cinquantacinque anni compiva Saramago al suo vero primo romanzo, Manuale di pittura e di calligrafia (1977), ma nel resto della sua vita recupererà il tempo andato imponendosi in decine e decine di opere che coerentemente convergono attorno a pochi cespiti conduttori:  la Storia maiuscola in filigrana a quella del popolo; una struttura autoritaria totalmente sottomessa all'autore, più che alla voce narrante, non solo onnisciente ma anche onnipresente; una tecnica dialogica in tutto debitrice all'oralità; un intento inventivo che non si cura di celare con la fantasia l'impronta ideologica d'eterno marxista; un tono da inevitabile apocalisse il cui perturbante presagio intende celebrare il fallimento di un Creatore e della sua creazione. E, infine, una strategica modalità, tematica ed espressiva a un tempo, impegnata a rendere quel che lui stesso ha definito la "profondità della superficie":  qualcosa che allude sia a quel poco che conosciamo del tanto che rivendichiamo alla ragione, ma anche quel tanto che strappiamo alla realtà di quel poco che la ragione ci permette.
Chiamando a raccolta non molti ma primari maestri (da Kafka a Borges, da Eça de Queiros a Pessoa, da Antonio Vieira a Machado), Saramago diede da subito l'elenco degli artefici della sua formazione, collocandoli senza soluzione di continuità lungo un'onda di piena al cui estuario poneva la novecentesca inquietudine della letteratura, della storia, dell'arte, della politica e della religione, oltre che di se stesso.
E per quel che riguardava la religione, uncinata com'è stata sempre la sua mente da una destabilizzante banalizzazione del sacro e da un materialismo libertario che quanto più avanzava negli anni tanto più si radicalizzava, Saramago non si fece mai mancare il sostegno di uno sconfortante semplicismo teologico:  se Dio è all'origine di tutto, Lui è la causa di ogni effetto e l'effetto di ogni causa.
Un populista estremistico come lui, che si era fatto carico del perché del male nel mondo, avrebbe dovuto anzitutto investire del problema tutte le storte strutture umane, da storico-politiche a socio-economiche, invece di saltare al per altro aborrito piano metafisico e incolpare, fin troppo comodamente e a parte ogni altra considerazione, un Dio in cui non aveva mai creduto, per via della Sua onnipotenza, della Sua onniscienza, della Sua onniveggenza. Prerogative, per così dire, che ben avrebbero potuto nascondere un mistero, oltre che la divina infinità delle risposte per l'umana totalità delle domande. Ma non per lui.
Giunto tardi al romanzo, si era rifatto, come s'è detto, con una serie di narrazioni. Dal 1980 in poi, nella bibliografia dell'opera di Saramago, si transita da Memoriale del Convento a L'anno della morte di Ricardo Reis (1984), che torna alla storia del Portogallo nel 1936; da La zattera di pietra (1986), avventura ecologica e demoniaca che immagina la deriva della Spagna dell'oceano tra magico quotidiano, metafora politica e nuove soluzioni atlantiche, a Storia dell'assedio di Lisbona (1989), libro in cui un revisore editoriale, inserendo una particella negativa (un "non") in un saggio storico, dà a Saramago il destro per giocare a falsificare l'evento, più per gioco che per convinta ideologia.
È il 1991 quando, inaugurando ciò che la critica ha chiamato il suo secondo tempo, lo scrittore pubblica Vangelo secondo Gesù, sfida alla memorie del cristianesimo di cui non si sa cosa salvare se, tra l'altro, Cristo è figlio di un Padre che imperturbato lo manda al sacrificio; che sembra intendersela con Satana più che con gli uomini; che sovrintende l'universo con potestà senza misericordia. E Cristo non sa nulla di Sé se non a un passo dalla croce; e Maria Gli è stata madre occasionale; e Lazzaro è lasciato nella tomba per non destinarlo a morte suppletiva.
Irriverenza a parte, la sterilità logica, prima che teologica, di tali assunti narrativi, non produce la perseguita decostruzione ontologica, ma si ritorce in una faziosità dialettica di tale evidenza da vietargli ogni credibile scopo.
Il secondo tempo di Saramago si diversifica poi con Cecità (1995), affresco apocalittico che denuncia la notte dell'etica in cui siamo sprofondati. Poi in campo esistenziale, sia con Tutti i nomi (1997), altra apocalisse dal pessimismo assoluto sospesa su una indifferenziata comunità di morti e di vivi, sia con Il racconto dell'isola sconosciuta (1998), parabola sull'uguaglianza dell'uomo tra gli uomini. In campo intellettuale, prima con La caverna (2000), che tra Kafka, Huxley e Orwell, dispiega un allarme meno disperato del solito e addirittura aperto alla speranza; poi, con L'uomo duplicato (2003), dove colui che si scopre identico a una comparsa televisiva finisce per smarrirsi in un garbuglio fattuale, psichico e spirituale.
Avvicinandosi alla fine, Saramago ci ha lasciato un "testamentario" Saggio sulla lucidità (del 2004), critica al funzionamento, se non alla funzionalità, delle odierne democrazie, contro le quali l'autore auspica una schiacciante maggioranza di "schede bianche", la più invisa espressione di volontà politica per un potere che solo così dovrebbe deflagrare. Poi, un "giocoso" Don Giovanni o il dissoluto assolto (del 2005), ossia il ritratto di un onore sociale offeso, giacché al grande amatore non riesce, nel testo, ciò per cui è da sempre famoso.
Fertile, comunque, la discesa creativa degli anni appena precedenti la scomparsa:  dall'itinerante carovana di Il viaggio dell'elefante (2009), pittoresco, umoristico e "peripatetico", all'inaccettabile Caino (2010), romanzo-saggio sull'ingiustizia di Dio, parodiante antilettura biblica, per non dire di altri titoli che andrebbero segnalati, a onor del vero, ma quasi sempre per polemica o pretesto.
Saramago è stato dunque un uomo e un intellettuale di nessuna ammissione metafisica, fino all'ultimo inchiodato in una sua pervicace fiducia nel materialismo storico, alias marxismo. Lucidamente autocollocatosi dalla parte della zizzania nell'evangelico campo di grano, si dichiarava insonne al solo pensiero delle crociate, o dell'inquisizione, dimenticando il ricordo dei gulag, delle "purghe", dei genocidi, dei samizdat culturali e religiosi.

(L'Osservatore Romano - 20 giugno 2010)

20 junho, 2010

"L'Osservatore Romano" apelida Saramago de "populista e extremista"

"L'Osservatore Romano" apelida Saramago de "populista e extremista" - Portugal - DN

Antes o ataque aberto que a desconsideração do silêncio.

Chamar populista a Saramago é tentativa falhada de o denegrir. De facto querendo-o atacar politicamente, acertaram literalmente na sua caracterização.

Saramago foi um populista, pois produziu parte da sua obra, tendo o povo mais simples como tema e retratando-o com simpatia critica, mas sem paternalismo.

De ser extremista... quem mais extremista e radical que Jesus Cristo.

Quanto a ser marxista, ou seja acreditar na utopia de uma sociedade sem classes, numa sociedade mais justa, mais solidária e fraterna é sonho, estou certo, que Jesus Cristo, não desdenharia abraçar.

Quanto à ideologia anti-religiosa, de facto Saramago era ateu confesso e um homem livre a quem agradava desmascarar mitos, superstições, efabulações, tão próprias das religiões. E que o fez com acutilante e certeira arte.

O fel do "L'Osservatore Romano" só tem um efeito: destacar a sua mesquinhez e demonstrar a impiedade dos que se reclamam seguidores de um deus de amor.

Saramago afirmou: "Foi a Morte que inventou deus" (a grafia é minha, pois que só ouvi as suas palavras).

E eu com a devida distância acrescentava... e a religião a justificação para o preconceito, a intolerância e o ódio.

19 junho, 2010

O primeiro passo de Saramago


Esta é a capa do primeiro romance de Saramago, na sua primeira edição datada de 1947.

A sua reedição só se faz em Setembro de 1997, cinquenta anos depois, pela Editorial Caminho. Para ela escreveu Saramago este interessante "Aviso", explicando as suas razões, porque só então aceitou reintegra-lo na sua obra.

     Aviso

    O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralheria mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição, segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para comprar os livrinhos da colecção “Cadernos” da Editorial Inquérito. A sua primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste ano de 1974 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há-de acostumar. Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores, pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes, falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho-de-ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física, imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador militar. Acabou em manga-de-alpaca do último grau da escala hierárquica e tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando, com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora. Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor. Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o título do livro, sem atractivo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que não discutiu os aspectos materiais de um contrato que nunca veio a passar de simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse mais. O romance chamar-se-ia Terra do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva.

         J. S.

Actualização: 19 de Julho de 2010, 17:34

Soube agora, pelo Público, que o Governo decretou dois dias de luto nacional. Para mim é igual. Esses sinais de hipocrisia mundana, pretendem servir mais os da "situação" do que a memória de quem partiu e deixa Obra.

No meu caso, Saramago está onde sempre esteve. No meu pensamento. Como um Homem que  admiro, tanto pela Obra como pela sua coragem e persistência na defesa dos seus valores e causas. Um exemplo a ter presente.

Se muitos apenas lhe reconhecem a Obra, eu, sou dos que, para além disso, valorizo a sua solidariedade, dedicação e luta contra a injustiça, a opressão e a miséria, nomeadamente, no tocante à causa da Palestina, face à qual sempre demonstrou  interesse  e generosidade, sendo uma das personalidades mundiais que subscreveu a criação do Tribunal Russell sobre a Palestina.

Estou certo que a sua Fundação zelará pelo seu legado, para que continuemos a fruir da sua sabedoria. Espero que possa reunir o seu espólio, de forma mais profunda e alargada possível e que o coloque acessível a todos através da Internet. (Obviamente não me estou a referir a materiais que sejam sujeitos de direitos de autor e que por isso sejam um justo suporte financeiro para a sua  Família e da sua Fundação.)

23 maio, 2010

A visitar: "Outros Cadernos de Saramago"

Outros Cadernos de Saramago

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No passado dia 18 de Maio foi anunciado no blog da Fundação José Saramago, o lançamento de uma nova secção que tem por o título “Outros Cadernos de Saramago” onde:
"...
 irão aparecendo anotações ou fragmentos já acabados das várias obras. Também poemas ou breves reflexões escritas em viagem. Ou declarações que o nosso autor um dia proferiu e que o explicam e nos explicam. Tudo isto será o conteúdo de “Outros Cadernos de Saramago”, que assim se irá renovando dia a dia. E quando José Saramago quiser escrever uma nova entrada, então, nesse dia, regressaremos ao “Caderno”, o que tem aberto neste momento, em que se empenha num novo livro de enigmático título que o autor revelará quando achar conveniente."

Aqui fica a dica.