09 junho, 2009

Tariq Ramadan

O Professor Tariq Ramadan é Mestre em Filosofia e Literatura Francesa e Doutor em Estudos Islâmicos e Árabes pela Universidade de Genebra, tendo recebido formação intensiva e personalizada em estudos clássicos Islâmicos ministrada por académicos da Universidade de Al-Azhar, no Cairo.

Tariq Ramadan é professor de Estudos Islâmicos Contemporâneos, no Instituto Oriental (St Antony’s College) da Universidade de Oxford. É igualmente professor na Faculdade de Teologia daquela universidade.

É ao mesmo tempo professor visitante, na Faculdade de Estudos Islâmicos, no Qatar; em Marrocos (Mundiapolis) e ainda Senior Research Fellow na Universidade de Doshisha (Kioto, Japão).

Através dos seus escritos e palestras tem contribuído substancialmente para o debate sobre os Muçulmanos no Ocidente e sobre o renascimento Islâmico no mundo Muçulmano. Intervém ainda, tanto ao nível académico como social, dando conferências por todo o mundo sobre teologia, lei islâmica e jurisprudência, ética aplicada, filosofia, justiça social, economia, política e o diálogo inter-religioso e intra-comunidades.

O Professor Tariq Ramadan é actualmente Presidente do think tank do Parlamento Europeu: European Muslim Network (EMN), em Bruxelas.


Últimas obras: "The Quest for Meaning: Developing a Philosophy of Pluralism", Penguin, UK, 2010; “What I believe” OUP USA (Nov 2009); “Radical Reform, Islamic Ethics and Liberation” OUP USA (Nov 2008); tendo acabado de anunciar a publicação do seu próximo livro: "Islam and the Arab Awakening".
 
(Actualizado em 2011.11.05)

 
Site oficial

.

06 junho, 2009

Discurso no Cairo de Barak Obama (trecho sobre a Palestina)

Decidimos transcrever, na sua totalidade, a parte do discurso de Barack Obama que se refere à questão palestina, porque entendemos que é importante conhecer o que ele nos disse na globalidade para além das referências parcelares já publicadas pelos órgãos de comunicação social.

Assim que possível publicaremos o discurso total, já que este foi desde logo um marco definitivo nos caminhos para a paz e segurança no Médio Oriente.

"...
A segunda grande fonte de tensão que temos de discutir é a situação entre israelitas, palestinos e o mundo árabe.

Os estreitos laços dos Estados Unidos e Israel são bem conhecidas. Esta ligação é inquebrável. Baseia-se em laços históricos e culturais, bem como no reconhecimento de que a aspiração por uma Pátria judia está enraizada numa trágica história, que não pode ser negada.

Em todo o mundo, os judeus foram perseguidos durante séculos, e o anti-semitismo na Europa levou a algo nunca visto: o Holocausto. Amanhã, visitarei Buchenwald, que fez parte de uma série de campos onde os judeus foram escravizados, torturados, baleados e gaseados até à morte pelo Terceiro Reich. Seis milhões de judeus foram aniquilados, mais do que toda a actual população judaica de Israel. Negar essa realidade é ilegítimo, é ignorante e é odioso. Ameaçar Israel com a destruição - ou repetir estereótipos abjectos sobre os judeus - é profundamente errado e só servem para suscitar nos israelitas as mais dolorosas memórias e, ao mesmo tempo, impedir a paz que os povos da região merecem.

Por outro lado, também é inegável que o povo palestiniano - muçulmanos e cristãos - também sofreu na busca por uma pátria. Durante mais de sessenta anos, sofreu a dor de estarem desalojados. Muitos aguardam em campos de refugiados na Cisjordânia, Gaza e em terras vizinhas, uma vida de paz e segurança que nunca conseguiram ter. Sofreram humilhações quotidianas - grandes e pequenas - decorrentes da ocupação. Então, que não haja dúvidas: A situação para o povo palestino é intolerável. E os Estados Unidos não vão voltar as costas às legítimas aspirações palestinas de dignidade, oportunidade e de um estado seu.

Durante décadas, tem existido um impasse: dois povos com legítimas aspirações, cada um com uma dolorosa história, o que torna os compromissos difíceis. É fácil atribuir a culpa – para os palestinos a deslocação, como resultado da fundação de Israel, e para os israelitas a constante hostilidade e os ataques realizados, ao longo da sua história, dentro e fora das suas fronteiras. Mas se olharmos o conflito a partir de apenas um dos lados ou do outro, então estaremos cegos à verdade: a única solução para as aspirações de ambas as partes será encontrada através de dois estados, em que israelitas e palestinos vivam em paz e a segurança.

É do interesse de Israel, é do interesse da Palestina, é do interesse dos Estados Unidos e do interesse do mundo inteiro. É por isso que eu pretendo prosseguir pessoalmente este resultado com toda a paciência e dedicação que a tarefa exige. As obrigações – as obrigações que as partes acordaram no Roteiro são claras. Para alcançar a paz, é tempo para eles - e para todos nós – cumprirmos com as nossas responsabilidades.

Os palestinos devem desistir da violência. A resistência através da violência e da matança é errado e não terá êxito. Durante séculos, os negros nos Estados Unidos sofreram o açoite do chicote como escravos e a humilhação da segregação. Mas não foi a violência que conquistou a plena igualdade de direitos. Foi uma pacífica e resoluta perseverança nos ideais centrais dos fundamentos dos Estados Unidos. A mesma história pode ser contada pelos povos da África do Sul ao Sul da Ásia; da Europa Oriental à Indonésia. É uma história com uma verdade muito simples: que a violência é um beco sem saída. Não é sinal nem de coragem nem de força lançar foguetes contra crianças dormindo, ou fazer explodir velhotas num autocarro. Não é assim que se reivindica a autoridade moral; é assim que a ela se renúncia.

Este é o momento em que os palestinos se deveriam concentrar naquilo que podem construir. A Autoridade Palestiniana deverá desenvolver a sua capacidade de governar, com instituições que respondam às necessidades de seu povo. O Hamas tem apoio entre alguns palestinos, mas também tem de reconhecer que tem responsabilidades. Para desempenhar um papel na realização das aspirações dos palestinos, para unir o povo palestino, o Hamas tem de pôr um fim à violência, reconhecer acordos passados e reconhecer o direito de Israel a existir.

Ao mesmo tempo, Israel deve reconhecer que, tal como não lhe pode ser negado o direito de existir, o mesmo se deve aplicar à Palestina. Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da contínua colonização israelita. Esta actividade viola acordos anteriores e compromete os esforços para alcançar a paz. É tempo para essa colonização parar.

E Israel também tem de cumprir as suas obrigações para garantir que os palestinos possam viver, trabalhar e desenvolver a sua sociedade. Da mesma maneira que é devastador para as famílias palestinas, a continuidade da crise humanitária na Faixa de Gaza, esta não contribui para a segurança de Israel; nem de igual modo, a continuada a falta de oportunidades na Cisjordânia. Os progressos na vida quotidiana do povo palestino devem ser uma parte crítica do caminho para a paz, e Israel deve tomar medidas concretas para permitir esse avanço.

Por último, os Estados árabes devem reconhecer que a Iniciativa Árabe de Paz foi um importante ponto de partida, mas não o fim das suas responsabilidades. O conflito árabo-israelita não deveria ser usado para distrair as pessoas dos países árabes da existência de outros problemas. Pelo contrário, deve ser uma razão para agir ajudando o povo palestino a desenvolver as instituições que irão suster o seu Estado, reconhecendo a legitimidade de Israel, e escolhendo o progresso e não uma contraproducente concentração sobre o passado.

Os Estados Unidos irão alinhar as suas políticas, com aqueles que procuram a paz, e devemos dizer em público aquilo que dizemos em privado aos israelitas, aos palestinianos e aos árabes. Não podemos impor a paz. Mas, privadamente, muitos muçulmanos reconhecem que Israel não vai desaparecer. Da mesma forma que muitos israelitas reconhecem a necessidade de um Estado palestino. É tempo de agirmos com base naquilo que todos sabemos que é verdade.

Demasiadas lágrimas têm sido derramadas. Demasiado sangue foi derramado. Todos temos a responsabilidade de trabalhar para o dia em que as mães dos israelitas e dos palestinos possam ver seus filhos crescer sem medo; quando a Terra Santa das três grandes religiões for o lugar de paz que Deus planeou que fosse; quando Jerusalém for um seguro e duradouro lar para Judeus, Cristãos e Muçulmanos e um lugar onde todos os filhos de Abraão confraternizem pacificamente como na história da Isra [1], quando Moisés, Jesus e Maomé, que a paz esteja com eles, se juntaram para rezar.
…”
[1] A Isra, viagem nocturna, refere-se à viagem que, numa só noite, o profeta Maomé realizou de Meca a Jerusalém e depois ao paraíso e aos infernos.

04 junho, 2009

O discurso de Obama no Cairo por SMS # 7

Obama está a discursar no campus da Universidade do Cairo e seguindo as práticas da sua campanha eleitoral está a utilizar o SMS para enviar mensagens para quem se tivesse inscrito no site American.gov.

Iremos publicar esses SMS conforme os formos recebendo.

SMS # 1

I have come here to seek a new beginning between the United States and the Muslim world based upon mutual interest and mutual respect.

Eu vim aqui para buscar um novo começo entre os Estados Unidos e o mundo muçulmano com base em mútuos interesses e mútuo respeito .

SMS # 2


We reject the same thing that people of all faiths reject: the killing of innocent men, women, and children.

Rejeitamos a mesma coisa que as pessoas de todas as fés rejeitam: a matança de inocentes, homens, mulheres e crianças.

SMS # 3

America will not turn our backs on the legitimate Palestinian aspiration for dignity, opportunity, and a state of their own.

A América não vai virar as costas à legítima aspiraçãodos Palestinianos à dignidade, oportunidade e a um estado seu.

SMS # 4

No system of government can or should be imposed upon one nation by any other.

Nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto a uma nação por outra qualquer.

SMS # 5

Freedom of religion is central to the ability of peoples to live together. We must always examine the ways in which we protect it

A liberdade de religião é um elemento central para a capacidade dos povos viverem juntos. Devemos sempre examinar as formas como a protegemos.

SMS # 6

The United States will partner with any Muslim-majority country to support expanded literacy for girls.

Os Estados Unidos farão parcerias com qualquer país maioritariamente muçulmano para apoiar a expansão da alfabetização das raparigas.

SMS # 7

The people of the world can live together in peace. We know that is God's vision. Now, that must be our work.


Os povos do mundo podem viver juntos em paz. Sabemos que esta é a visão de Deus. Agora, este deve ser o nosso trabalho.

30 maio, 2009

Voz calma, Grande Pau, por Uri Avnery


Esta é a crónica de Uri Avnery datada de há uma semana atrás e que só agora é publicada por manifesta falta de recursos na oportunidade.

Continuamos a solicitar o apoio de tradutor@s pro bono, bem como de colaborador@s que tenham interesse por esta causa.

Barack Obama é frequentemente comparado a Franklin Delano Roosevelt, mas é de um outro Roosevelt que ele segue o exemplo: O Presidente Theodore Roosevelt, que, 108 anos atrás, aconselhou os seus sucessores: "Falem suavemente e tenham na mão um grande pau!".

Esta semana, o mundo inteiro viu como isso é feito. Obama, sábado no Gabinete Oval, lado a lado com Binyamin Netanyahu, falou aos jornalistas. Estava sério, mas descontraído. A linguagem corporal falou claramente: Netanyahu inclinando-se assiduamente para a frente, como um bufarinheiro vendendo a sua mercadoria, Obama inclinado para trás, tranquilo e seguro de si.

Ele falou suavemente, muito suavemente. Mas inclinado contra a parede por detrás dele, escondido pela bandeira, estava na verdade um grande pau.

O MUNDO queria, naturalmente, saber o que se passou entre os dois quando se encontraram sozinhos.

Regressado a casa, Netanyahu esforçadamente tentou apresentar a reunião como um grande sucesso. Mas após os holofotes desligados, o tapete vermelho enrolado, podemos analisar o que tínhamos realmente visto e ouvido.

Entre as suas grandes proezas, Netanyahu enfatizou a questão iraniana. "Chegámos a um acordo completo", anunciou orgulhosamente uma e outra vez.

Acordo sobre o quê? Sobre a necessidade de impedir o Irão de obter "capacidade nuclear militar".

Só um momento. O que é que ouvimos, "militar"? De onde é que esta palavra apareceu de surpresa? Até agora, todos os governos israelitas insistiram que o Irão deveria ser impedido de adquirir qualquer capacidade nuclear de todo. A nova fórmula significa que o governo Netanyahu aceita agora, que o Irão tenha uma "não militar" - que nunca está muito longe da "militar" - capacidade nuclear.

Esta não é a única derrota de Netanyahu sobre a questão iraniana.

Antes da sua viagem, exigiu que Obama desse ao Irão apenas três meses, " até Outubro", e que, depois "todas as opções estariam sobre a mesa". Um ultimato, que incluía uma ameaça militar.

Nada disto ficou.

Obama disse que iria conduzir um diálogo com o Irão até o final do ano, e que então teria de avaliar o que tinha sido alcançado e considerar o que fazer a seguir. Se ele chegasse à conclusão de que não tinha havido progresso, tomaria novas medidas, incluindo a imposição de sanções mais severas.

A opção militar tinha desaparecido.

É verdade que, antes da reunião Obama dissera a um jornal que "todas as opções estão sobre a mesa", mas o facto de que ele não o repetir na presença de Netanyahu diz tudo.

Sem dúvida que Netanyahu pediu permissão para atacar o Irão, ou - no mínimo – para ameaçar de tais ataques. A resposta foi um Não absoluto.

Obama está decidido a evitar um ataque israelita. Ele tem alertado o governo de Israel de forma inequívoca. Só para ter a certeza de que a mensagem teria sido adequadamente absorvida, enviou o chefe da CIA a Israel para a entregar pessoalmente a todos os líderes israelitas.

O plano israelita para um ataque militar ao Irão foi retirado da mesa - se alguma vez esteve lá.

Netanyahu pretendia ligar o Irão com a questão palestina, de forma negativa: enquanto existir o perigo iraniano, a questão palestina não pode ser tratada.

Obama inverteu a fórmula e fez uma ligação positiva: progressos na questão palestina são uma condição prévia para um progresso sobre a questão iraniana.

Isto faz sentido: os conflitos não resolvidos estão a alimentar o Irão, dando-lhe um motivo para ameaçar Israel e enfraquecer a oposição, do Egipto e da Arábia Saudita, às ambições do Irão.

A principal mensagem de Obama diz respeito a uma questão que retornou ao centro da cena esta semana: colonatos.

Esta palavra praticamente desaparecera durante o reinado de Bush, o Júnior. É verdade, que todas as administrações dos E.U.A. se opuseram à expansão dos colonatos, mas, desde a fracassada tentativa, de James Baker, o secretário de Estado de Bush, o Velho, de impor sanções a Israel, ninguém mais se atreveu a fazer qualquer coisa acerca disso. Em Washington resmungam, com os fundamento que criaram. Em Jerusalém dissimulam, e sobre o terreno, construíram.

Como um chefe palestino observou: "Estamos a negociar sobre a divisão da pizza e, entretanto, Israel já está comendo."

Tem de ser repetido uma e outra vez: os assentamentos são um desastre para os palestinos, um desastre para a paz e uma dupla ou tripla catástrofe para Israel.

Primeiro, porque o seu principal objectivo é fazer com que o estabelecimento de um Estado palestiniano seja impossível e, assim, impedir a paz para sempre.

Em segundo lugar, porque eles sugam a medula da economia israelita e engolem recursos que deveriam ser utilizadas para ajudar os pobres.

Terceiro: porque os colonatos minam o Estado de direito em Israel, propagam o cancro do fascismo e empurram todo o sistema político para a direita.

Portanto Obama está certo quando coloca a questão dos colonatos à frente de tudo o resto, mesmo à frente das negociações de paz. Uma paragem total na construção dos colonatos vem antes de qualquer outra coisa. Quando um corpo sangra, a hemorragia tem de ser estancada antes de que a doença possa ser tratada. Caso contrário, o paciente vai morrer de perda de sangue e não haverá ninguém para tratar. Este é precisamente o objectivo de Netanyahu.

Esta é a razão porque Netanyahu se recusou a aceder ao pedido. De outra forma a sua coligação iria por água abaixo e seria obrigado a demitir-se ou a criar uma coligação alternativa com o Kadima. A infeliz Tzipi Livni, que não encontrou um papel na oposição, provavelmente não deixaria escapar a oportunidade.

Netanyahu tentará usar Barak contra Barack.

Com a ajuda de Ehud Barak está colocando em cena uma performance de "demolir postos avançados", a fim de desviar a atenção da construção em curso nos colonatos. Veremos se este truque tem sucesso e se a liderança dos colonos vai desempenhar o seu papel nesta charada. No dia seguinte ao regresso de Netanyahu, Ehud Barak demoliu pela sétima vez (!) Maoz Esther, um posto avançado composto de sete cabanas de madeira. Poucas horas depois, os colonos regressaram ao local.

(O exército israelita construiu uma aldeia Árabe, inteira, no Negev para fins de treino. Alguém ironizou esta semana que o exército também tinha construído este posto avançado que é lotado com soldados disfarçados de colonos, de modo que pode ser demolido, cada vez que exista pressão da América. Depois os soldados constroem tudo de novo, pronto para ser utilizado na próxima vez que a pressão seja exercida).

A RECUSA DE congelar os colonatos significa a recusa de aceitar a solução dos Dois Estados. Em vez disso, Netanyahu faz malabarismos com slogans vazios. Fala sobre "dois povos que vivem juntos em paz", mas recusou-se a falar de um Estado palestino.

Um dos seus assessores apelidou a exigência dos Dois Estados de "jogo infantil". Mas este não é, de todo, um jogo infantil. Já foi provado que, negociações onde os objectivos não tenham sido previamente definidos, não levam a qualquer lugar. O Acordo de Oslo colapsou precisamente por este motivo. Netanyahu espera que a próxima ronda de negociações, também fracasse por causa disso.

Ele não apresentou um plano de sua própria iniciativa. Não porque não tenha nenhum plano, mas porque ele sabe que ninguém o iria aceitar.

O plano de Netanyahu é: o total controlo israelita sobre todo o território entre o Mar Mediterrâneo e o rio Jordão. Ilimitada colonização judaica por todo o lado. Limitado auto-governo para uma série de enclaves palestinos com uma densa população palestina, que serão cercados por colonatos. Jerusalém, na sua totalidade permanecerá como parte de Israel. Nem um único refugiado palestino regressará ao território de Israel.

Esta mercadoria não vai encontrar compradores no mundo inteiro. Então Netanyahu, um vendedor profissional, tenta embrulhá-la num belo pacote.

Por exemplo: os palestinianos vão "governar-se a eles próprios".

Onde exactamente? Aonde serão as fronteiras? Ele já declarou que os palestinos não podem ter controlo sobre "o seu espaço aéreo ou as suas fronteiras". Um estado sem forças armadas e sem controlo sobre o seu espaço aéreo e as passagens de fronteira – parece-se suspeitosamente com os Bantustans do falecido regime racista de apartheid na África do Sul.

Eu não ficaria surpreso se, em qualquer momento no futuro, Netanyahu começasse a chamar a estas reservas nativas "um Estado palestiniano".

No entretanto, ele tenta ganhar tempo e adiar as negociações o mais tempo possível.

Ele exige que os palestinos reconheçam Israel como "o estado do povo judeu", esperando e tendo esperança que eles rejeitarão esta ideia com as duas mãos. E, de facto, aceitar isso significaria desistir desde logo, do seu principal trunfo - a questão dos refugiados - e também espetar uma faca nas costas dos 1,5 milhões de palestinos que são cidadãos de Israel.
Netanyahu está pronto para aceitar a proposta de Obama de envolver os estados árabes e outros estados muçulmanos no processo de paz - uma ideia que tem sido sempre rigorosamente rejeitada por todos os governos de Israel. Mas isto é apenas mais um dos coelhos que ele vai tirar do seu chapéu de tempos a tempos, a fim de adiar tudo.

Antes de dezenas de estados árabes, e talvez mais de cinquenta estados muçulmanos decidirem aderir ao processo, meses, talvez anos, vão passar. E, entretanto, Netanyahu exige deles um pagamento adianto, sob a forma da normalização - o que significa que todo o mundo árabe e muçulmano daria o seu único trunfo sem obter nada em troca. Pura gorjeta.

Este é o plano de trabalho de Netanyahu.

TEM Obama um plano de paz?

Se colocarmos todas as suas declarações dos últimos dias juntas, parece que ele tem.

Quando ele fala de "dois Estados para dois povos", praticamente aceita o plano de paz que, por agora, se tornou um consenso em todo o mundo: como os "parâmetros" apresentadas por Bill Clinton, nos seus últimos dias de mandato; como a parte central da proposta de paz saudita; e como os planos de paz do movimento da paz israelita (o projecto de acordo de paz da Gush Shalom, a iniciativa de Genebra, a declaração Ayalon-Nusseibeh e mais).

Em suma: um Estado Palestino soberano e viável, lado a lado com Israel; as fronteiras pré-1967 - com pequenas e acordadas trocas territoriais; o desmantelamento de todos os colonatos que não fiquem ligados a Israel, nas trocas territoriais; Jerusalém Oriental como capital da Palestina e Jerusalém Ocidental como capital de Israel; uma solução mutuamente aceitável para o problema dos refugiados; uma passagem segura entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza; acordos mútuo em matéria de segurança.

ENTRETANTO, por todo o mundo, há um consenso crescente de que a única maneira de pôr as rodas da paz em movimento novamente será Obama publicar o seu plano de paz e convocar ambas as partes a aceitá-lo. Se necessário, em referendos populares.

Obama poderia fazer isso no discurso que fará daqui a cerca de uma semana no Cairo, durante a sua primeira visita presidencial ao Médio Oriente. Não é por acaso, que não irá a Israel durante esta visita, algo quase sem precedentes para um presidente dos E.U.A.

Para fazer isso, deve estar pronto para confrontar o poderoso lobby israelita. Parece que está pronto para isso. O último presidente que se atreveu a fazer isso foi Dwight D. Eisenhower, que obrigou Israel a devolver o Sinai logo após a guerra 1956. "Ike" foi tão popular que não tinha receio do lobby. Obama não é menos popular, e talvez tenha a mesma ousadia.

Como "Teddy" Roosevelt sugeriu: quando alguém tem um grande pau, não tem que o brandir. Pode dar-se ao luxo de falar suavemente.

Espero que Obama irá efectivamente falar suavemente - mas de forma clara e inequívoca.

29 maio, 2009

MPT responde às questões sobre a Palestina

Estas são as respostas que Pedro Quartin Graça, Presidente do Partido da Terra (MPT) nos enviou.
Obrigado pela sua colaboração e pela possibilidade de ficarmos a conhecer a posição dos candidatos do MPT às Europeias 2009, no tocante à Palestina.
(Poderão encontrar o questionário com o rationale de cada tema no nosso postQuestões sobre a Palestina dirigidas aos candidatos às Eleições Europeias

Tema 1: Colonatos

Concorda que Israel deve retirar os seus colonos da Cisjordânia, incluindo de Jerusalém Oriental?

Cisjordânia sim; Jerusalém Oriental é um caso problemático a estudar

Tema 2: Anexação de Jerusalém Oriental

Concorda que Israel deve reverter a anexação de Jerusalém Oriental?

Jerusalém Oriental é um caso problemático a estudar

Tema 3: Anexação dos Montes Golan

Concorda que Israel deve reverter a anexação dos Montes Golan?

Sim
Tema 4: O “Muro”

Concorda que Israel deve respeitar o acórdão do Tribunal Internacional de Justiça e desmantelar o muro?

Sim

Tema 5: Postos de Controlo & Barreiras na Cisjordânia

Concorda que Israel deve retirar os seus postos de controlo e barreiras na Cisjordânia?

Trata-se de um caso problemático a estudar

Tema 6: O bloqueio da Faixa de Gaza

Concorda que Israel deve permitir que os pontos de passagem com Gaza "operem continuamente", como acordado em Novembro de 2005, e termine, de uma vez por todas, com o bloqueio da Faixa de Gaza?

Trata-se de um caso problemático a estudar

Tema 7: Abertura das instalações nucleares à inspecção da Agência Internacional de Energia Atómica (International Atomic Energy Agency - IAEA).

Concorda que Israel deveria abrir suas instalações nucleares à inspecção da IAEA?

Sim

Tema 8: Armas europeias utilizadas em violação do direito internacional humanitário.

Que tipo de medidas vai tomar a fim de que os Estados Membros da UE respeitem estas novas normas nas suas relações com Israel?

Todas as que se imponham para assegurar a paz mundial e na região

Tema 9: Responsabilização por Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade

Como tenciona agir a fim de garantir que as pessoas responsáveis por tais violações serão julgadas?

Levá-las a Tribunal

Tema 10: Reforço das relações entre a União Europeia & Israel

Concorda que a UE não deve "melhorar" as suas relações com Israel até que exista um progresso significativo no processo de paz?

Se for eleito, vai fazer tudo o que estiver no seu alcance para evitar qualquer "reforço" até que tal condição seja respeitada?

Sou favorável ao incremento generalizado das relações diplomáticas multilaterais

Tema 11: Suspensão do Acordo Euro-Med

Tenciona apelar para a suspensão do acordo de associação até que a lei seja respeitada, em conformidade com a resolução do Parlamento Europeu, de Abril de 2002?

Sou favorável ao incremento generalizado das relações diplomáticas multilaterais

Tema 12: Reparação para os projectos financiados pela União Europeia
Pretende pedir reparações para os projectos financiados pela UE, que foram destruídos por Israel?

Trata-se de um caso a estudar

Tema 13: Hamas

Concorda que o Hamas tem de ser uma parte da solução do problema na Palestina?

Como entende que a UE pode facilitar a implementação de um diálogo com o Hamas?

Concorda que a UE deve cooperar com o Hamas, desde que este mantenha um cessar-fogo?

Tendo isto em mente, vai pedir a retirada do Hamas da lista europeia de organizações terroristas?

Sim, genericamente

Tema 14: Conferência de Paz

Vai pedir que se realize uma conferência internacional (com base no direito internacional, com uma agenda e garantias de execução), a realizar sob os auspícios da ONU?

Sim