24 setembro, 2010

Norman Finkelstein em Portugal de 29/09 a 01/10

Para divulgar este acontecimento tive que arranjar o tempo que me tem faltado e

Segundo a divulgação do CES - Centro de Estdos Sociais da Universidade de Coimbra, que adapto socorrendo-me maioritariamente do seu texto:

Entre 29 de Setembro e 1 de Outubro estará em Portugal o professor Norman Finkelstein. Polémico especialista na problemática do Médio-Oriente, Norman Finkelstein dará uma conferência em Lisboa e outra no Porto, devendo orientar um seminário no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Em Lisboa, Norman Finkelstein apresentará uma conferência intitulada «The Repercussions of Israel’s Cast Lead Operation for the Future of its Occupation of the Palestinian Territories», a 29 de Setembro na Escola Secundária Luís de Camões, às 18.30.

A mesma conferência será levada ao Porto no dia 30 de Setembro , às 18 horas, na Cooperativa Árvore.

A 1 de Outubro [em Coimbra] Norman Finkelstein conduz a partir das 11 horas, na sala de seminários do CES, o seminário «Myths and Realities of the Israel-Palestinian Conflict».

São promotores das conferências e do seminário o Centro de Estudos Sociais,  a Comissão Nacional de Apoio ao Tribunal Russel para a Palestina, a Fundação Mário Soares, o Grupo de Acção Palestina, o Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, e o Sindicato dos Professores do Norte.


Nota biográfica:

Norman Finkelsten é um estudioso internacionalmente conhecido de temas que dizem respeito ao Sionismo, a Palestina e a ocupação israelita dos territórios palestinianos. É autor de vários artigos e livros com muito interesse nesse campo e é conferencista activo a favor dos direitos políticos e humanos do povo palestiniano e contra a ocupação israelita. Judeu americano, filho de sobreviventes do Holocausto, Finkelstein aplica um humanismo universalista radical e consistente à sua crítica da ocupação israelita e dos seus apologistas.

A sua crítica implacável da ocupação e dos seus apologistas tem-lhe custado muito, tendo a recusa da DePaul University em conceder-lhe emprego sido o resultado de intervenções sem precedentes e pressões notórias do lobby sionista (nomeadamente de Alan Dershowitz).

A vida e o trabalho do Finkelstein também foram objecto de um documentário com o título “American Radical”.

O seu livro mais recente, «This Time We Went Too Far: Truth and Consequences of the Gaza Invasion» (OR Books, New York, 2010) é uma análise crítica do massacre perpetrado em Gaza de Dezembro 2008-Janeiro 2009 da Operação Chumbo Derretido. O seu livro The Holocaust Industry (A Indústria do Holocausto, traduzido para o português no Brasil pela editora Record, 2001) analisa criticamente as várias formas de aproveitamento oportunista pelo Estado de Israel e os seus apologistas da realidade do Holocausto para encobrir os crimes reais cometidos pela ocupação aos palestinianos.

Para mais informações consulte-se o seu website em: http://www.normanfinkelstein.com/

16 setembro, 2010

Consequências do "fast-food"...



O novo e provocante anúncio sobre as consequências da "fast-food", produzido pela organização americana, sem fins lucrativos, Physicians Committee for Responsible Medicine*, (PCRM), [Comité de Médicos para uma Medicina Responsável], foi rodado numa morgue, e pretende chamar a atenção para a ligação entre as mortes por doença cardíaca e esse tipo de alimentação.

Previsto para ser apresentado, a partir de hoje, 16 de Setembro, no The Daily Show e nas estações locais de Washington, tem como alvo o menu altamente gordo da McDonald's e como primeiro objectivo chamar a atenção dos habitantes de Washington "para as altas taxas de mortes por doença cardíaca e a alta densidade de restaurantes fast-food existentes na cidade".

Estudos têm demonstrado que as pessoas que consomem “fast-food” têm maior risco de ficarem obesas, um factor que contribui para as doenças do coração. Altos teores de gordura e de sal estão presentes na maioria dos menus dos restaurantes de "fast-food".

* Fundada em 1985, o Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM)[Comité de Médicos para uma Medicina Responsável] é uma organização americana de saúde sem fins lucrativos que promove a medicina preventiva, conduz investigações clínicas e incentiva a adesão aos mais elevados padrões de ética e eficácia na investigação.

14 setembro, 2010

Hoje, 14/9, 19:00 Concentração pelo Boicote-Desinvestimento-Sanções a Israel

Blogmaton adere à campanha internacional de Boicote-Desinvestimento-Sanções a Israel, pela Palestina e pela Paz

"Em plena campanha internacional de Boicote-Desinvestimento-Sanções a Israel, uma equipa israelita é aceite na Liga dos Campeões e joga amanhã hoje contra o Benfica, no seu primeiro de três jogos na Europa.

Uma concentração de protesto terá lugar amanhã hoje, 14 de Setembro, a partir das 19 horas, à saída do túnel proveniente do Centro Comercial Colombo."

Este é teor de um comunicado que me foi enviado ontem, pelo Comité Palestina, e que só há pouco tive conhecimento e que subscrevo, apesar de não poder estar presente.

Este comunicado foi acompanhado por um documento em pdf que irá ser distribuído durante a concentração subscrito pela Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental, pelo Comité de Solidariedade com a Palestina e pelo Colectivo Mumia Abu-Jamal.

Nesse comunicado faltou assinalar que em Agosto, a Federação Palestina de Futebol apresentou uma reclamação na FIFA sobre a decisão israelita de impedir seis jogadores da selecção palestina de deixar a Cisjordânia para um jogo amistoso contra a Mauritânia. Que se saiba a FIFA ainda não respondeu a este acto de discriminação.

Aliás esta foi mais uma razão para a minha decisão em apoiar a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções pela Paz no Médio Oriente.

Ao longo do tempo sempre concordei em apoiar o boicote aos produtos, bens e serviços provenientes de organizações instaladas nos territórios palestinos ilegalmente ocupados por Israel - leia-se colonatos - sempre na expectativa de que a voz do povo de Israel se fizesse ouvir pelo fim da ocupação ilegal, contra a colonização e o apartheid, e pela Paz, na defesa de valores éticos e morais que tanto proclama e que muito pouco afirma em acções concretas.

O meu amigo Uri Avnery, que muito prezo, não é favorável à Campanha de Boicote, Sanções e Desinvestimento, mais alargada, contra Israel. Teme que isso una ainda mais os judeus, em torno de consignas nacionalistas, conservadoras e ultra-ortodoxas. Penso que esse clímax já ocorreu nas últimas eleições para o Knesset, em 2008.

Assim chegou o tempo, talvez mais tarde do que cedo para mim, de assumirmos as nossas responsabilidades individuais e colectivas, e exigirmos dos nossos fornecedores, dos nossos Governos e das Organizações internacionais uma maior responsabilidade na definição dos caminhos da paz que passam de uma vez por todas pelo boicote, aos produtos e serviços israelitas, pelas sanções a todos os níveis pelo não cumprimento das decisões dos órgãos internacionais, nomeadamente as resoluções dos competentes órgãos das Nações Unidas, ou pelo desrespeito das normas de direito internacional, de direito humanitário e dos direitos humanos e ainda pelo desinvestimento, nomeadamente através de subsídios e linhas de crédito atribuídas pela União Europeia e outras organizações internacionais ou nacionais.

Acresce ainda dizer no tocante ao boicote desportivo e neste caso concreto ao futebol que a desculpa do costume "A política nada tem a ver com o futebol" dos diversos organismos internacionais e nacionais, nao tem qualquer fundamento.

Se não vejamos:

Se equipas de um país (Israel) que aleatoriamente e ciclicamente não permite a saída de desportistas nacionais de um território que ilegalmente ocupa (Palestina) - a última discriminação ocorreu em Agosto e foi acima referida - e onde vigora um regime de repressão, opressão e apartheid, imposto pela força militar de ocupação, podem competir em países onde a liberdade, a democracia e os direitos humanos são valores fundamentais, normalizando e branqueando assim a sua imagem, perante o público internacional. A sua participação ganha então foros políticos.

Aliás a expressão “…sem qualquer discriminação com base na política, género, religião, raça ou qualquer outra razão;” plasmada nos estatutos da UEFA, correcta nos seus princípios fundadores, não faz qualquer sentido se for interpretada de maneira a aceitar que, um qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo possa ter o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades correctamente enunciados nesses mesmos fundamentos, sem ser sancionado.

11 setembro, 2010

nine/eleven: Duas histórias de crimes contra a Humanidade.

11 realizadores de 11 países contribuiram com uma curta metragem de 11 minutos reflectindo sobre a tragédia e a morte, tendo por mote os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001.

É o contributo de Ken Loach, narrado pelo chileno Vladimir Vega, que aqui fica. Para que um e outro 11 de Setembro permaneçam na nossa memória.

Para que tais crimes não mais se repitam, se os pudermos impedir, e para que as palavras como "liberdade", "dignidade", "terrorismo", não possam ser confundidas, e voltem a ter valor semântico.


11 de Setembro: 1973, Santiago, Chile - 2001, Nova York, EUA



Um Brasil no Oriente?

Um Brasil no Oriente? in "CartaCapital"

Um artigo muito interessante comparando duas das potências regionais emergentes e em fase de afirmação, Brasil e Turquia, quer apresentando dados sócio-económicos, quer quanto ao seu percurso como Nações, desde a sua definição como Repúblicas, há mais de um século.

De facto Brasil e Turquia são duas potências regionais que estão a ganhar a cada dia maior relevo e credibilidade na cena internacional.

O Brasil, no entanto, em minha opinião, apresenta maiores fragilidades - existe desde logo menor coesão nacional e maior influência cultural e política norte-americana - e enfrenta maiores riscos de intervenções "amigas" para o manter no "rumo certo".

A reacção norte-americana face ao acordo Brasil-Turquia-Irão, sobre a gestão do combustível nuclear - um passo muito positivo e que no caso só honrou a diplomacia brasileira e turca - a reacção, escrevia, foi arrogantemente despropositada e ao pretender apoucar e menorizar o meritório trabalho realizado só demonstrou a sua incapacidade para "ler" o mundo de hoje, e a sua frustração por assim ter ficado ainda mais claro que a questão da periculosidade do Irão, neste momento, é a de um "tigre de papel".

Em meu entendimento, os sucessivos “insucessos” dos EUA são de sua inteira responsabilidade e meros álibis para justificarem a sua política de agressão na região.

Mas leia o artigo de Antonio Luiz Costa.

Um Brasil no Oriente?


Há muitas analogias entre o crescimento de Ancara como potência regional no Oriente Médio e o de Brasília na América do Sul

Além da parceria na tentativa de negociar um acordo do Irã com o Ocidente, há muitas semelhanças entre os momentos históricos vividos pelo Brasil e pela Turquia. Com cerca de 40% da população e do PIB e 67% das exportações do Brasil (mas volume maior de importações) o país do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan pesa menos na economia global, mas sua importância geopolítica é comparável, pois está numa das encruzilhadas estratégicas mais importantes do planeta e possui uma força militar considerável.

É o segundo país da Otan em contingente militar (depois dos EUA), tem a terceira maior força aérea (depois dos EUA e Reino Unido) e é uma potência nuclear informal, com 40 a 90 armas nucleares made in USA em seus arsenais, embora só possa usá-las de acordo com o comando da Otan (assim como a Alemanha, a Itália, a Holanda e a Bélgica).

Os dois países são comparáveis em termos de renda per capita e desenvolvimento humano. A Turquia está ligeiramente à frente no primeiro quesito e um pouco atrás no segundo, mas na mesma categoria. Ambos sofreram com décadas de alta inflação, controlada em 1995 no Brasil e em 2005 na Turquia (que converteu a antiga moeda à razão de 1 milhão para 1) e, por vezes, se alternaram no papel de paí-s com juros mais altos no mundo. Ambos também são exportadores de novelas de tevê – e as turcas, picantes pelos padrões da região, são tão populares em todos os países muçulmanos que as permitem quanto às brasileiras na América Latina.

Ao contrário do governo brasileiro, o turco tem um discurso religioso e conservador e é tido como de centro-direita, mas suas políticas social, econômica e externa não são tão diferentes quanto isso poderia fazer supor. O partido de Erdogan, Justiça e Desenvolvimento, é visto como o defensor dos interesses das maiorias contra a elite privilegiada. Seu viés conservador aparece mais na promoção do uso do véu e redução do número de mulheres em cargos executivos (de 15% para cerca de 11%), embora, por outro lado, 30 das 50 mulheres do Parlamento turco sejam de seu partido.

Ambos passam por trajetórias políticas comparáveis há mais de cem anos. Na Turquia, como no Brasil, militares positivistas derrubaram uma monarquia anacrônica, impuseram uma modernização laica e conservadora, arrogaram-se o papel de guardiões da República e desferiram golpes de Estado contra governos democraticamente eleitos.

Nos dois, a elite econômica concentrou uma parcela desproporcional da riqueza nacional – Istambul é a quarta cidade do mundo em número de bilionários, depois de Moscou, Nova York e Londres –, desprezou o Terceiro Mundo e sua-s próprias massas “atrasadas” e quis fazer-se europeia ou norte-americana. As duas elites fracassaram ao alinhar-se às potências ocidentais com a esperança de entrar em seus clubes fechados – o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a Turquia na União Europeia.

As elites, cá e lá, resistiram e conspiraram – no Brasil, com a agitação em torno do “mensalão”, na Turquia com uma tentativa de golpe logo após a posse de Erdogan, em 2003, e agitação militar ante a eleição presidencial de Abdullah Gul, do partido de Erdogan, em 2007 –, mas foram forçadas a se conformar com a eleição de “populistas” e ver esses conseguirem inéditos êxitos sociais, econômicos e diplomáticos. De 2003 a 2010, o PIB da Turquia cresceu com inflação controlada a uma média de 4,3%, ante 4% do Brasil. Este cresceu menos até 2006, mas reagiu bem melhor à crise mundial que a Turquia, muito dependente da Europa no comércio exterior.

Neste ano, a Turquia além de se projetar no cenário internacional tanto quanto o Brasil, quando Lula e Erdogan mediaram a tentativa de acordo com o Irã juntamente com os chanceleres Celso Amorim e Ahmet Davutoglu, tornou-se uma estrela regional ao defender a flotilha que tentou romper o bloqueio a Gaza, liderada por uma ONG islâmica turca que tem o apoio oficioso do governo e do partido de Erdogan.

Após a ação brutal e desastrada de Israel, Ancara acusou Tel-Aviv de pirataria, arrancou uma condenação formal da Otan e exigiu a libertação imediata e incondicional dos tripulantes e passageiros, que Israel queria submeter a julgamento. Benjamin Netanyahu, que não se dobrava ante Barack Obama e Hillary Clinton quanto a fazer concessões aos palestinos, cedeu e em seguida viu-se forçado a relaxar o bloqueio a Gaza, que dizia ser o elemento mais importante de sua política de segurança. Foi um recuo como não se via em Israel desde que os EUA forçaram sua retirada do Sinai em 1978.

Da noite para o dia, o gesto de Erdogan fez mais pela causa palestina do que anos de retórica do iraniano Mahmoud Ahmadinejad, para não falar da solidariedade vazia dos líderes árabes. Uma pesquisa, logo após o incidente, mostrou que 43% dos palestinos consideravam a Turquia como seu maior aliado, ante apenas 6% que indicaram o Irã.

Os povos do Oriente Médio que, por várias gerações, viram a Turquia com desconfiança, pela aliança com a Otan ou pela lembrança do domínio otomano, passaram a enxergá-la como porta-voz do mundo muçulmano. A Turquia busca uma política de “problemas zero” com os vizinhos – principalmente o Irã e a Rússia, que lhe fornecem, respectivamente, 30% e 60% de suas necessidades de petróleo – e sua aproximação com os governos da Síria e do Irã, que os EUA quiseram relegar ao “eixo do mal”, vem mudando a geopolítica da região.

Com exceção do Tadjiquistão (que fala uma língua aparentada ao farsi iraniano), as nações da Ásia Central – Azerbaijão, Turcomenistão, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão – falam línguas muito semelhantes ao turco e veem o país como modelo de nação que se modernizou sem abrir mão da identidade nacional e das raízes islâmicas. O crescimento da China e a recuperação da Rússia dissiparam os sonhos de hegemonia sobre a região que a Turquia alimentou após a queda da União Soviética, mas suas relações com esses países são boas e Ancara é a sua principal alternativa para reduzirem sua dependência dos dois gigantes e exportarem seu gás e petróleo ao Ocidente.

Ao mesmo tempo, a Turquia melhorou as relações com vizinhos europeus. A cúpula de 23 de junho, em Istambul, do Processo de Cooperação do Sudeste Europeu, que reúne a Turquia aos 12 países dos Bálcãs, apoiou oficialmente o governo de Ancara e condenou o ataque israelense à flotilha. A Sérvia esqueceu o rancor contra a antiga dominação otomana e pediu a mediação da Turquia em conflitos com as minorias muçulmanas do país.

O atual governo grego, em especial, tem procurado pôr um ponto-final em gerações de tensão com a Turquia, depois da amarga guerra pela independência contra os otomanos no século XIX, da derrota na guerra greco-turca de 1919-1922 (que causou a expulsão de 1,5 milhão de gregos da Ásia Menor) e da humilhação em Chipre, que, em 1974, fez cair a ditadura grega (que pretendia anexar a ilha, dividida a partir daí em duas repúblicas, uma das quais é um protetorado da Turquia). A necessidade tornou-se ainda mais premente com a crise financeira: a Grécia não tem mais como sustentar as Forças Armadas proporcionalmente mais caras da Europa contra a ameaça hipotética da Turquia, que é sua aliada na Otan. Suspendeu a compra de armas e quer negociar uma solução pacífica para a reunificação do Chipre, enquanto tenta atrair investimentos turcos para sua combalida economia.

A Turquia deixou de ser apenas uma periferia da Europa, ou uma cabeça de ponte para eventuais ações da Otan contra a Rússia ou o Oriente Médio, para ser uma liderança, se não o centro geopolítico de sua própria região. Mas seria simplista dizer que deixou de pretender ser a cauda da Europa para assumir o papel de cabeça do mundo muçulmano, ou do Oriente Médio.

O governo Erdogan elegeu-se prometendo pôr o país na União Europeia, que absorve 57% das exportações turcas e fornece 40% de suas importações. Por todos os critérios objetivos de estabilização da economia, gestão fiscal e reformas econômicas e políticas, fez mais para atender às exigências da organização que os governos seculares anteriores. Inclusive no que diz respeito aos direitos humanos: a ideologia islamista do partido de Erdogan mostrou-se mais compreensiva em relação à minoria curda que o nacionalismo extremado dos secularistas herdeiros da revolução de Kemal Atatürk.

Até os anos 1990, o governo turco negava a própria existência da língua curda, mas hoje há uma tevê e uma faculdade nessa língua. O governo tem aceitado o retorno de curdos que haviam se refugiado no norte do Iraque. Investimentos consideráveis têm sido feitos para promover o desenvolvimento da região curda, em busca de uma solução pacífica – por enquanto, frustrada pela intransigência dos separatistas curdos.

Apesar disso (e de a Turquia oferecer a possibilidade de reduzir a dependência europeia de gás russo intermediando exportações da Ásia Central e Oriente Médio), cresceu ainda mais a oposição à sua adesão, com Alemanha e França a insistir no caráter “cristão” da Europa. Por outro lado, o apoio popular turco à União Europeia caiu de 70%, em 2002, para 50% hoje. A crise europeia não eliminou, em princípio, o interesse de Erdogan, que continua a tentar mostrar-se otimista, mas tornou a aceitação na organização ainda menos provável. Desemprego em alta, exploração populista do ressentimento contra imigrantes e disputas entre os próprios europeus tornam ainda mais distante a possibilidade de um acordo para a integração de um grande sócio muçulmano, que implicaria a liberdade de seu povo migrar e trabalhar em países europeus.

A própria Europa, por seus preconceitos, e os EUA e Israel, por sua agressividade, vêm empurrando a Turquia para uma posição cada vez mais distante do Ocidente. O primeiro sinal da nova política, na primeira semana do governo Erdogan, foi o veto ao uso das bases e do e-spaço aéreo turco para a invasão estadunidense do Iraque, em 2003. Neoconservadores estrilaram, mas o novo governo recebeu total apoio dos militares e do povo e o próprio Bush júnior não ousou punir o país, dada sua importância estratégica.

Ainda em 2007, Israel via a Turquia como aliada e Shimon Peres foi o primeiro presidente israelense a falar no Parlamento turco. A virada deu-se com a retaliação desproporcional de Israel a Gaza em 2008. Isso ofendeu tanto a solidariedade religiosa dos turcos com os palestinos quanto a diplomacia turca, na época engajada em mediar um acordo entre Síria e Israel, a pedido de Tel-Aviv. No ano seguinte, com a eleição de um governo israelense ainda mais radical, as relações turco-israelenses esfriaram proporcionalmente.

O governo turco condenou repetidamente o terrorismo de Estado israelense, ajudou famílias palestinas com documen-tos otomanos provando sua posse da terra desde antes da chegada dos israelenses e não fez objeções a um seriado sobre Gaza que pintou os israelenses como vilões na tevê turca. O governo israelense não conteve o discurso agressivo de radicais como o chanceler Avigdor Lieberman, que rejeitou a mediação turca com a Síria e começou a congelar a venda de armas avançadas à Turquia. Em outubro de 2009, a Turquia suspendeu uma manobra militar conjunta da Otan com a aviação de Israel – e se essa ainda foi uma medida simbólica, que não suspendeu os acordos mais gerais e o comércio de armas entre os dois países, os acontecimentos deste ano precipitaram uma ruptura real.

Além de retirar seu embaixador de Tel-Aviv – e ameaçar não restaurar relações diplomáticas plenas se Israel não pedir desculpas formais e suspender o bloqueio a Gaza –, a Turquia congelou praticamente todos os acordos militares com Israel, exceto as vendas já fechadas. São 16 acordos no valor total de 56 bilhões de dólares, incluindo mísseis, tanques e aviões de combate.

Após o confronto com Israel, sionistas e republicanos carregaram contra Ancar-a. O Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional (Jinsa) cobrou a expulsão da Turquia da Otan: “Como membro, tem acesso à inteligência relacionada a terrorismo e ao Irã… Se a Turquia acha que seus melhores amigos são o Irã, o Hamas, a Síria e o Brasil (olhando para a Venezuela no futuro), a segurança dessa informação (e a tecnologia ocidental nas armas no arsenal turco) está em risco”. O Wall Street Journal, representante da oposição, tem atacado a Turquia sistematicamente, acusando seu governo de cumplicidade com extremistas. O conservador The Weekly Standard sugeriu um golpe militar na Turquia como “mal menor”.
Washington reagiu de maneira destemperada à mediação turco-brasileira que tentou evitar sanções ao Irã, mas foi mais cauteloso ante a crise turco-israelense, que ameaça pôr a perder sua estratégia global. Para a centro-direita liberal, a democrática e basicamente ocidentalizada Turquia, por insubmissa que seja, é um contrapeso importante ao Irã e às forças radicais no Oriente Médio – assim como o nacionalismo moderado do Brasil é visto por muitos como contrapeso à Venezuela e ao bolivarianismo.

Sabe que a oposição é uma aposta arriscada e um golpe de Estado poderia radicalizar a população em um sentido antiocidental. Talvez todo o mundo árabe, visto que Erdogan tornou-se o líder mais popular da região. No momento em que o peso relativo dos EUA e do Ocidente no mundo está encolhendo, seus governos se debatem com crises financeiras e a estratégia militar no Afeganistão e Iraque caminha para um completo fracasso, Washington não está em condições de correr mais esse risco.

Robert Gates, o secretário de Defesa dos EUA, preferiu culpar a União Europeia por recusar à Turquia a ligação orgânica com o Ocidente que ela deseja. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, respondeu responsabilizando a pressão de Bush júnior sobre o mundo muçulmano.

Mais lhes vale tentar reconquistar a Turquia com vantagens comerciais e políticas. O governo Erdogan não vai durar para sempre, mas a tendência natural do país, se não puder se integrar inteiramente ao Ocidente, é assumir um papel cada vez mais importante como potência emergente independente e mediadora entre o Ocidente e a Periferia, ao lado dos BRIC e do Irã.

Antonio Luiz M. C. Costa

Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica