28 agosto, 2010

Vermelho e verde, por Uri Avnery (ou o Movimento de Boicote Internacional)

,Título original: Red and Green by Uri Avnery*, August 28, 2010

O Canal 10, um dos três canais de TV de Israel, exibiu nesta semana uma reportagem que certamente terá assustado muitos telespectadores. O seu título era: "Quem está organizando o Movimento Mundial do ódio contra Israel?", E o seu tema: as dezenas de grupos que, em vários países, estão realizando uma vigorosa campanha de propaganda a favor dos palestinos e contra Israel.

Os activistas entrevistados, tanto homens como mulheres, jovens e velhos - um número considerável deles judeus – protestando em supermercados contra os produtos dos colonatos e / ou de Israel, em geral, organizando grandes comícios, fazendo discursos, a mobilizando sindicatos, processando, perante a justiça, políticos e generais israelitas.

Segundo a reportagem, os vários grupos usam métodos semelhantes, mas não existe uma liderança centralizada. Citam (sem referir a fonte, é claro) o título de um dos meus últimos artigos, "Os Protocolos dos Sábios do Anti-Sião" e também afirmam que não existe tal coisa. Na verdade, não há necessidade de uma organização mundial, ele diz, porque em todo o lado existe um impulso espontâneo de sentimentos pro-palestinos e anti-israelitas. Recentemente, na sequência da operação ”Cast Lead” [agressão à Faixa de Gaza] e do incidente com a flotilha [humanitária, em águas internacionais a 31 de Maio], este processo ganhou ímpeto.

Em muitos lugares, revela a reportagem, existem agora coligações vermelho-verde: a cooperação entre movimentos dos direitos humanos de esquerda e grupos locais de imigrantes muçulmanos.

A conclusão da história: este é um grande perigo para Israel, e temos que nos mobilizar contra isto antes que seja tarde demais.

A primeira pergunta que surgiu na minha mente foi: qual o impacto que vai ter esta reportagem sobre o israelita típico?

Eu queria ter a certeza de que isto faria com que ele ou ela pensassem novamente sobre a viabilidade da ocupação. Como um dos activistas entrevistados afirmou: os israelitas devem ser levados a compreender que a ocupação tem um preço.

Eu gostaria de acreditar que esta seria a reacção da maioria dos israelitas. No entanto, receio que o efeito poderá ser muito diferente.

Como a alegre canção dos anos 70 entoa: "O mundo inteiro está contra nós / O que não é tão terrível, nós venceremos. / Para nós, não tem importância / para eles também. / / ... Aprendemos esta canção / Dos nossos antepassados / E vamos também cantá-la / Para os nossos filhos. / E os netos dos nossos netos irão cantá-la / Aqui, na Terra de Israel, / E todo mundo que está contra nós / Pode ir para o inferno. "

O autor desta canção, Yoram Taharlev ("puro de coração") conseguiu expressar uma crença básica judaica, cristalizada ao longo dos séculos de perseguição na Europa cristã, que atingiu o seu clímax durante o Holocausto. Cada criança judia aprende na escola que, quando seis milhões de judeus foram assassinados, o mundo inteiro olhava e não levantou um dedo para salvá-los.

Isso não é absolutamente verdade. Muitas dezenas de milhares de não-judeus arriscaram as suas vidas e as vidas das suas famílias para salvar os judeus - na Polónia, na Dinamarca, em França, na Holanda e noutros países, mesmo na própria Alemanha. Todos nós conhecemos pessoas que foram salvas desta forma - como o ex-presidente do Supremo Tribunal Aharon Barak, que quando criança foi contrabandeado para fora do gueto por um agricultor polaco, e o ministro Yossi Peled, que esteve escondido, durante anos, por uma família católica belga. 

Apenas alguns destes heróis, em grande parte desconhecidos, foram citados como "Justos entre as Nações" pelo Yad Vashem. (Entre nós, quantos israelitas numa situação similar arriscariam as suas vidas e as vidas dos seus filhos, para salvar um estrangeiro?)

Mas a crença de que "o mundo inteiro está contra nós" está profundamente enraizada na nossa psique nacional. Isso permite-nos ignorar a reacção do mundo ao nosso comportamento. É muito conveniente. Se o mundo inteiro nos odeia de uma maneira ou de outra, a natureza das nossas acções, boas ou más, não importa realmente. Eles iriam odiar Israel, mesmo se fôssemos anjos. Os Goyim são apenas anti-semitas. [Goyim: termo em yiddish que significa não-judeus, gentios, utilizado normalmente de forma depreciativa (sing. Goy)]

É fácil mostrar que isso também é falso. O mundo nos amou, quando fundámos o Estado de Israel e o defendemos com o nosso sangue. Um dia depois da Guerra dos Seis Dias, o mundo inteiro nos aplaudiu. Eles nos amaram, quando éramos David, eles nos odeiam quando somos Golias.

Isso não convence o mundo-contra-nós. Porquê que não há movimentos mundiais contra as atrocidades dos russos na Chechénia, ou dos chineses no Tibete? Porquê que só contra nós? Porquê que os palestinos merecem mais simpatia do que os curdos na Turquia?

Qualquer um pode responder que desde que Israel exigiu tratamento especial em todas as outras questões, estamos a ser avaliados por normas especiais quando se trata da ocupação e dos colonatos. Mas a lógica não importa. São os mitos nacionais que contam.

Ontem, o terceiro maior jornal de Israel, o Ma'ariv, publicou uma história sobre o nosso embaixador nas Nações Unidas sob o revelador título: "Atrás das linhas inimigas".
Lembro-me de um dos confrontos que tive com Golda Meir no Knesset, após o início da colonização e das reacções de zanga por todo o mundo. Como agora, as pessoas puseram toda a culpa no nosso deficiente "esclarecimento”. O Knesset realizou um debate geral.

Orador após orador declamavam os clichés do costume: a propaganda árabe é brilhante, o nosso "esclarecimento" é desprezível. Quando chegou a minha vez, disse: Não é culpa do "esclarecimento". A melhor "explicação" no mundo não pode "justificar" a ocupação e os colonatos. Se queremos ganhar a simpatia do mundo, não são as nossas palavras que devem mudar, mas as nossas acções.

Ao longo do debate, Golda Meir - como era seu costume - parou à porta da sala de plenário, fumando cigarro-atrás–de-cigarro. Resumindo, ela respondeu a todos os oradores, por sua vez, ignorando o meu discurso. Pensei que ela havia decidido boicotar-me, quando - após uma pausa dramática - ela se virou na minha direcção. "Deputado Avnery pensa que eles nos odeiam por causa do que fazemos. Não conhece os Goyim. Os Goyim gostam dos judeus quando eles são espancados e miseráveis. Eles odeiam os judeus quando são vitoriosos e bem sucedidos." Se, no Knesset, fosse permitido bater palmas todo o Parlamento teria explodido em aplausos.

Existe o perigo de que o protesto em curso por todo o mundo enfrente a mesma reacção: que a opinião pública israelita se una contra os diabólicos Goyim, em vez de se unir contra os colonos.

Alguns dos grupos de protesto não fazem qualquer diferença. As suas acções não são dirigidas ao público israelita, mas à opinião pública internacional.

Não me refiro aos anti-semitas, que estão tentando apanhar uma boleia do movimento. São uma força insignificante. Nem àqueles que acreditam que a criação do Estado de Israel foi um erro histórico, para começar, e que deve ser desmantelado.
Eu quero dizer todos os idealistas que querem acabar com o sofrimento do povo palestiniano e do roubo das suas terras pelos colonos, e ajudá-los a fundar o Estado livre da Palestina.

Estes objectivos podem ser alcançados somente através da paz entre a Palestina e Israel. E essa paz só pode acontecer se a maioria dos palestinos e a maioria dos israelitas a apoiar. A pressão vinda de fora não será suficiente.

Qualquer um que entende isto deve estar interessado num protesto mundial que não empurre a população israelita para os braços dos colonos, mas, ao contrário, isole os colonos e volte a população em geral contra eles.

Como pode isso ser alcançado?

A primeira coisa é diferenciar claramente entre o boicote aos colonatos e um boicote geral a Israel. A reportagem da TV sugere que muitos dos manifestantes não vê a fronteira entre os dois. Ela mostrou uma mulher de meia-idade britânica num supermercado, agitando algumas frutas acima da cabeça e gritando: "Isto vêm de um colonato!" Em seguida, mostrou uma manifestação contra os produtos cosméticos Ahava que são extraídas da parte palestina do Mar Morto. Mas logo depois, veio um apelo para um boicote de todos os produtos israelitas. Talvez muitos dos manifestantes - ou os editores do filme - não tenham claro a diferença.

A direita israelita também dilui essa distinção. Por exemplo: uma recente proposta de lei apresentada no Knesset quer punir aqueles que defendem um boicote aos produtos de Israel, incluindo - como se afirma explicitamente - os produtos dos colonatos.

Se o protesto mundial está claramente centrado nos colonatos, irá certamente obrigar que muitos israelitas compreendam que há uma linha clara entre o Estado legítimo de Israel e a ocupação ilegítima.

Isso também é válido para outras partes da história. Por exemplo: a iniciativa de boicotar a empresa Caterpillar, cujas monstruosas bulldozers são uma arma importante da ocupação. Quando a heróica activista da paz Rachel Corrie foi esmagado até a morte sob uma delas, a empresa deveria ter parado todos os fornecimentos adicionais a menos que assegurasse que elas não seriam utilizadas para repressão.

Enquanto suspeitos de crimes de guerra não forem julgados em Israel, ninguém se pode opor às iniciativas para processá-los no exterior.

Após a decisão tomada esta semana pelas principais companhias de teatro de Israel de actuar nos colonatos, será lógico boicotá-las no exterior. Se eles estão tão empenhados em fazer dinheiro em Ariel, não se podem queixar de perder dinheiro em Paris e Londres.

A segunda coisa é a ligação entre estes grupos e o povo israelita.

Hoje a grande maioria dos israelitas declaram que querem paz e estão dispostos a pagar o preço, mas que, infelizmente, os árabes não querem a paz. A principal corrente do campo da paz, que já trouxe centenas de milhares para a rua, está em estado de depressão. Sente-se isolada.

Entre outras coisas, a sua antes estreita ligação com os palestinos, que foi criada na época de Yasser Arafat depois de Oslo, tornou-se muito frouxa. Assim tem relações com as forças de protesto no exterior.

Se as pessoas de boa vontade querem acelerar o fim da ocupação, devem apoiar os activistas da paz em Israel. Devem construir uma relação estreita com eles, quebrar a conspiração do silêncio contra eles no mundo da media e divulgar as suas corajosas acções, organizar mais eventos internacionais em que os activistas da paz palestinos e israelitas estejam presentes lado a lado. Também seria bom se para cada dez bilionários que financiam a extrema-direita em Israel, houvesse pelo menos um milionário que apoiasse a acção em busca da paz.

Tudo isto se torna impossível se houver um apelo para um boicote a todos os israelitas, independentemente das suas opiniões e acções, e Israel é apresentado como um monstro monolítico. Esta imagem não é apenas falsa, é extremamente prejudicial.

Muitos dos activistas que aparecem nesta reportagem desperta respeito e admiração. Tanta boa vontade! Tanta coragem! Se eles apontarem suas actividades na direcção certa, podem fazer muito bem - bem para os palestinos, e bem para nós, israelitas, também.

* Colunista israelita, ex-membro do Knesset (Parlamento) israelita, e chefe do bloco de paz da esquerda israelita, “Gush Shalom”. 

HOJE! Sabádo, 28 de Agosto, no Largo do Camões, às 18:00: A vida de Sakineh Ashtiani está nas nossas mãos

Sakineh Mohamadi Ashtiani

103 cidades vão unir-se hoje num protesto global contra a lapidação e a pena de morte, apelando pela vida de Sakineh Ashtiani. É às 18 horas, no Largo Camões. Contamos todos.


Apesar de não saber quem lançou a iniciativa em Portugal - de que tive conhecimento, por acaso, através da crónica de Fernanda Câncio, publicada ontem no DN - espero que seja um sucesso (eu estou fora por isso não poderei participar) e que corporize os princípios definidos pela ICAE, que desde já subscrevo.

Liberdade para Sakine Ashtiani
Não às Lapidações
Não às Execuções
Nunca Mais
Em Todo o Mundo.

Pedindo

  • A revogação da execução/lapidação de Sakineh Mohamadi Ashtiani e a sua imediata e incondicional libertação;
  • A revogação Total e Universal das execuções e das lapidações porque configuram crimes de Estado;
  • A prisão e julgamento dos dirigentes da República Islâmica do Irão responsáveis por 31 anos de execuções, lapidações e torturas;
  • A libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos Iranianos.

Apelando

À solidariedade dos amantes da Liberdade de todo o Mundo para com o povo do Irão no seu esforço para derrubar o regime Islâmico e para instaurar uma sociedade livre e igualitária

Pode assinar este apelo aqui.

27 agosto, 2010

Use os seus direitos para acabar com a pobreza! Um apelo da Amnistia Internacional



Mais de 1 bilião de pessoas em todos os continentes vivem em “bairros de lata”.

Mais de meio milhão de mulheres morrem em cada ano de complicações relacionadas com a gravidez e o parto – uma em cada minuto.

Todos os dias, em todas as regiões do mundo, as pessoas que vivem na pobreza são discriminadas – quer através de actos individuais de outros, quer pela discriminação institucional do Estado.

Nós [Amnistia Internacional] temos provas de violações de direitos humanos que aprofundam a pobreza.

Trata-se de violações dos direitos humanos que levam à discriminação, à exclusão, a mulheres que morrem durante o parto, ao despejo das suas casas, à segregação nas escolas, ou a mulheres que morrem durante a gravidez por falta de acesso aos cuidados de saúde.

Por todo o mundo, temos provas documentadas de violações dos direitos humanos que têm mantido as pessoas pobres. Juntas, essas violações dos direitos humanos e as provas destacam o mau estado dos progressos realizados para atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

Em Setembro de 2010, líderes mundiais se reunir-se-ão na Cimeira dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas de Desenvolvimento do Milénio (ODM) para acelerar os progressos para alcançar os ODM até 2015. A Amnistia Internacional estará presente, para através da sua voz exigir um maior enfoque na protecção dos direitos humanos como a solução para a pobreza global.

Assine a petição até 10 de Setembro e iremos entregar a sua assinatura aos Presidentes da Cimeira dos  Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.


Quais são os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio?

Em Setembro de 2000, chefes de Estado e de Governo de 189 países, incluindo Portugal, reuniram-se nas Nações Unidas. Ali assinaram a Declaração do Milénio, comprometendo-se a lutar contra a pobreza e fome, a desigualdade de género, a degradação ambiental e o vírus do VIH/SIDA. Assumiram ainda o compromisso de melhorar o acesso à educação, a cuidados de saúde e a água potável.

Para avaliar o cumprimento daquele compromisso, foram estabelecidos 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a alcançar até 2015:
  • Reduzir para metade a pobreza extrema e a fome
  • Alcançar o ensino primário universal
  • Promover a igualdade de género e empoderar as mulheres
  • Reduzir em dois terços a mortalidade infantil
  • Reduzir em 75% a mortalidade materna
  • Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves
  • Garantir a sustentabilidade ambiental
  • Fortalecer uma parceria global para o desenvolvimento

N.B.: As Nações Unidas tem um site, em português, de informação e apelo à acção, sobre o tema "Objectivo 2015 - Campanha do Milénio das Nações Unidas" dirigido a apoiar esta campanha em Portugal.

26 agosto, 2010

Israel não coopera com investigação do Conselho dos Direitos Humanos da ONU

Um funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) informou na passada terça-feira, 24, que Israel não está a cooperar com a Comissão de Investigação nomeada a 23 de Julho, pelo Conselho de Direitos Humanos, para investigar o incidente, ocorrido em 31 de Maio, quando uma força naval israelita interceptou, em águas internacionais, uma frota que seguia para a Faixa de Gaza com ajuda humanitária, e abordou violentamente um dos navios de pavilhão turco, o Mavi Marmara, provocando a morte de nove activistas que seguiam a bordo, oito turcos e um turco-americano e dezenas de feridos.

Juan Carlos Monge, que é o responsável por acompanhar os peritos investigadores da Comissão, disse que estavam a entrevistar testemunhas e a dialogarem com as autoridades da Turquia e da Jordânia, mas, afirmou, que a Comissão só poderá falar com os soldados israelitas envolvidos no ocorrido se tiver autorização do governo de Israel.

Israel não fez comentários a esse respeito, mas desde a criação desta Comissão fontes oficiais israelitas mostraram pouca vontade de cooperar.

A comissão apresentará as suas conclusões no próximo dia 27 de Setembro.

Recorde-se que o episódio causou revolta na comunidade internacional e fez com que as relações entre Turquia e Israel, anteriormente aliados, se deteriorasem gravemente. 

O incidente também fez com que as atenções internacionais se voltassem para o bloqueio de Israel à Faixa de Gaza, obrigando Israel a uma alteração na sua política quanto à entrada de bens essenciais e de mercadorias no território palestino – altamente aleatória e restritiva quer quanto à quantidade, quer quanto à variedade.

Esta alteração é uma mera tentativa para alterar a percepção da opinião pública mundial quanto a este crime no tocante aos direitos humanitários e os direitos humanos. No entanto esta “revisão” tem mostrado até agora um alcance bastante limitado, conforme se pode verificar consultando os relatórios semanais da agência das Nações Unidas, OCHA, quanto à situação nos territórios palestinos ocupados.

Por outro lado Israel continua a restringir as exportações e a mobilidade das pessoas.

Neste momento Israel conduz uma investigação interna sobre o caso, através de uma comissão nomeada pelo governo, a Comissão Turkel, que depois de alguma pressão se viu obrigado a ampliar os poderes dessa comissão e a nela integrar dois observadores estrangeiros, também eles escolhidos entre “amigos”. Solução que continua a ser julgada insatisfatória por sectores da sociedade israelita.

Esta investigação, que foi montada para não responder a uma exigência internacional para a realização de uma investigação independente, segue-se a uma outra realizada no âmbito militar cujas conclusões se restringiram aos erros de planeamento e execução deixando de lado as vítimas.

Existem ainda duas outras comissões a investigar o incidente

Uma da Turquia, de nomeação governamental, e outra recém-nomeada (a 2 de Agosto) pelo Secretário-Geral da ONU, numa tentativa clara, em minha opinião, de minimizar o trabalho e os eventuais resultados da comissão de especialistas independentes nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos.

Essa comissão aliás só avançou após ter recebido o acordo de Israel, que por certo condicionou directamente, ou indirectamente através dos E.U.A., a sua composição e assim os seus resultados.

Aliás basta atentar na sua composição – não de especialistas mas sim de políticos – onde campeia como vice-presidente, um estrénuo aliado dos interesses norte-americanos na América do Sul: Alváro Uribe.

De facto, voltando um pouco atrás, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU nomeou em 23 de Julho, uma comissão de inquérito internacional independente, de peritos, ao ataque israelita ao comboio naval de ajuda humanitária, face à inacção do secretário-geral Ban Ki-moon, que ia dilatando no tempo a sua obrigação de nomear a comissão de inquérito a que estava obrigado por deliberação do Conselho de Segurança, de 1 de Junho.

Entretanto esta decisão "obrigou" Ban Ki-moon, em meu entendimento, para tentar "controlar" o processo, a finalmente nomear uma nova comissão, passados 60 (sessenta) dias.

É que a nomeação de uma comissão de investigação internacional e independente não ia de encontro dos melhores interesses de Israel e logo dos Estados Unidos e dos seus aliados.

Os resultados de uma tal investigação poderão ser tão ou mais ruinosos para a credibilidade de Israel do que os do “Relatório Goldstone” sobre a agressão à Faixa de Gaza que se encontra “congelado” para ver se a opinião pública internacional o esquece.

Assim a tentativa era escusar-se a nomear uma tal comissão e a tentar tapar o Sol com a peneira, utilizando porventura os resultados da Comissão Turkel.

Não sendo possível era preciso encontrar rapidamente uma solução e em 9 (nove) dias apenas Ban Ki-moon tira uma Comissão de Investigação política da cartola, chefiada por Geoffrey Palmer, (ex-primeiro-ministro neozelandês) a que Israel “forçadamente” aderiu tentando evitar um "mal maior" tipo "Relatório Goldstone".

Esta comissão "política" é composta, para além de Palmer, por Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia, como vice-presidente, e por um representante da Turquia e outro de Israel.

Curiosamente a Comissão espera concluir os seus trabalhos em meados de Setembro, ou seja, antes da Comissão de Investigação nomeada pelo CDH.

Em meu entendimento esta comissão, desde logo pela sua composição, não atingirá o objectivo a que se propôs: a descoberta da verdade sobre o ataque israelita de 31 de Maio ao comboio de navios transportando ajuda humanitária para a faixa de Gaza, onde se destaca a abordagem em águas internacionais, ao navio mercante de pavilhão turco Mavi Marmara, donde resultou a morte de 9 civis e ferimentos em dezenas de outros.

A polémica sobre António Lobo Antunes e um documento de 2003

Já numa entrevista realizada por Sara Belo Luís e publicada em 27.11.2003 na Visão, e que abaixo transcrevo, António Lobo Antunes (ALA) desfiava algumas das suas recordações sobre a Guerra Colonial em que participou, como tenente-médico, em Angola, nas chamadas "Terras do Fim do Mundo", (Cuando Cubanco), em cumprimento do então Serviço Militar Obrigatório (SMO).

Essa entrevista de 2003, e que na altura parece ter passado despercebida aos nossos "Centuriões", vem de alguma forma dar consistência às declarações de ALA, polemizadas agora por uma "carta aberta", a ele dirigida, pelo presidente da Liga dos Combatentes (LC), general Chito Rodrigues.

Essas declarações, transcritas na referida "carta aberta", surgiram numa outra entrevista publicada há já UM ANO em livro, e onde ALA avança com mais pormenores sobre as suas vivências da Guerra Colonial.

"No meu batalhão [em Angola] éramos 600 militares e tivemos 150 baixas. Era uma violência indescritível (...) Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. (...) E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros."

Nessa "carta aberta" o general Chito Rodrigues, convida ALA a "esclarecer, confirmar, negar ou dar a sua interpretação sobre [as essas] afirmações".

Entretanto desde há já algum tempo, pelo que se diz, existiriam ameaças à integridade física de ALA, pelas suas afirmações, p(b)ostadas por seus ex-"camaradas ("camarada" aqui é trato de "tropa"). NEM UM SÓ DESMENTIDO FACTUAL, ao que parece. Apenas ameaças...

Com esta "carta aberta" o general Chito Rodrigues, talvez tenha aberto uma caixa de Pandora.

Todos os que passaram pela Guerra Colonial sabem mais do que contam. Por terem estado directamente envolvidos em incidentes menos honrosos ou horrorosos, ou por terem ouvido contar. O receio, a vergonha, o desejo de esquecer o que os faz sofrer, calam mais forte.

Talvez seja altura para, os que ainda sobrevivem, contarem as suas histórias. As dos massacres, das carnificinas, das violações e de outras até aqui, quase que inarráveis violências. E também as boas: as da ajuda desinteressada (fora da Psico) à população, na construção, no ensino e na saúde; os momentos de convívio e os de solidariedade perante a desgraça.

Estou seguro e certo que aqueles incidentes são a excepção e não a regra. Circunscritos a determinadas circunstâncias e comandos. Ontem poderiam existir justificações de oportunidade, políticas e/ou militares para os escalões superiores abafarem estes crimes. Desde finais de 75 tais justificações são inaceitáveis.

Sobre a pretensa "cobardia" de António Lobo Antunes (ALA)

Gostaria de realçar o seguinte. Naquela altura ALA não "fugiu" à tropa. Nem por medo; nem por questões políticas, ideológicas, filosóficas ou religiosas; nem pela simples intenção de não querer perder anos de vida ou suportar a incomodidade e correr risco de vida.

E para ele seria simples fazê-lo. Não lhe faltaria dinheiro, contactos e apoio.

Tal como porventura lhe seria fácil ser colocado em sítio menos perigoso através de estratagema ou influência.

Por isso me espanta a polémica sobre a sua "cobardia".

Aliás a crónica de Ferreira Fernandes para o DN "Bardamerda para a cobardia" só nos permite concluir que um ser humano, que apesar de ameaçado, se expõe publicamente de forma tão assídua ou é inconsciente ou não se deixa vergar pela ameaça. Parece-me ser o caso de ALA. E aqui, um breve esclarecimento. Não conheço pessoalmente nem sou fã de ALA enquanto escritor.

A entrevista realizada por Sara Belo Luís a António Lobo Antunes, publicada em 27.11.2003 na Visão:

Esteve dois anos na guerra colonial cujo absurdo haveria de retratar em Os Cus de Judas. Ao regressar de Angola, António Lobo Antunes não era o mesmo homem. Em Lisboa tinha deixado a mulher (com quem havia casado pouco antes de partir) e uma filha que ainda não conhecia. Trazia também a certeza de que pretendia desistir da cirurgia e antes preferir uma especialidade médica que lhe permitisse escrever. Acabou por escolher psiquiatria, à qual foi buscar as técnicas de análise que, depois, utilizou para dissecar o País.

Agora (2003), aos 61 anos, regressa ao território que sempre marcou a sua ficção. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, o volume de 554 páginas que as Publicações Dom Quixote acabam de lançar, era para falar das seitas religiosas mas acabou por tornar-se um romance sobre o tráfico (o de diamantes e o de influências), sobre o percurso de três homens (Seabra, Miguéis e Morais) que partem de Portugal para a terra devastada pelas guerras (a colonial e a civil) e pela cupidez humana. Em entrevista à Visão, o escritor desfia – como nunca o havia feito – as suas memórias de África. As do inferno e as do paraíso.

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo é o livro do ajuste de contas com Angola?

Não tenho contas a acertar com ninguém. Estou em paz com os outros. O que sinto é que não vou ter tempo para fazer os livros que gostaria de escrever. Como Mozart que, nas margens do Requiem, escrevia «Não vou ter tempo»...

E uma espécie de catarse?

Também não sinto que tenha de me libertar de alguma coisa. Angola nunca saiu de dentro de mim. Ocupa um lugar muito profundo, mais até do que eu imagino ou penso. Vejo Angola como um paraíso perdido. Lembro-me da terra, dos cheiros, das cores, dos horizontes, de toda aquela sensualidade. Como, aliás, também acontece em relação à Beira Alta, onde agora vou cada vez mais. É uma espécie de regresso à infância onde fui tão feliz. Quando passo Carregal do Sal sinto logo o cheiro da Beira Alta. Dá-me uma certa paz interior.

Como é possível ter uma imagem de paraíso de algo que foi um inferno?

Mas tudo aquilo que envolvia a guerra era de uma beleza imensa. É curioso porque, afinal, foi um tempo doloroso.

De que maneira é que um romance sobre seitas religiosas se transforma num romance que tem o tráfico de diamantes como pano de fundo?

O outro romance começava em Angola e era para acabar com a casa destruída que aparece logo no princípio deste. Pensei que o livro pedia muito mais do que aquilo. Porque é que havia de estar a tocar uma gaita-de-beiços se podia estar a tocar um piano sem fim?

Esta é a imagem que tem da Angola pós-independência?

Enquanto escrevia o livro, interroguei-me várias vezes se não iria arranjar problemas.

Em que sentido?

Com a riqueza de Angola, não acredito que tenham desaparecido todos esses europeus e africanos que ainda hoje tentam explorar aquela terra. No livro também está presente a minha indignação em relação a todo esse neocolonialismo. Como é que se fazem determinadas coisas em nome da democracia e da amizade? Eu não queria entrar muito por aqui… Já deve ter reparado que sou sempre muito cauteloso. Por vezes tenho imensa vontade de escrever para a Visão sobre esse processo da Casa Pia, mas não me atrevo a fazê-lo porque as pessoas não teriam possibilidade de me responder.

A pergunta é para o psiquiatra…

... esse, coitado, já não existe.

Ainda deve saber umas coisas…

... poucas.

Arrisco, mesmo assim, a pergunta para ele: a questão da guerra está resolvida em si?

O psiquiatra? A questão da guerra? Não pode chamar-se àquilo uma guerra. Morria-se sem se ver ninguém. As minas, não se via quem as punha e, nas emboscadas, era tudo muito rápido. Uma guerra pressupõe um adversário e ali, ele era completamente invisível.

Não havia combates?

No sentido clássico do termo, não. Para fazerem sentido, as emboscadas não podiam demorar muito. Uns minutos e desapareciam. Depois, havia as populações, que me fascinavam.

Esse foi, de algum modo, o lado bom da guerra?

Sim, esse contacto foi decisivo para mim. Aprendi muito com aqueles povos, através da sua relação com a vida e com a morte. Apercebi-me também que o tempo africano – que é elástico, indefinido – podia servir-me para me mover melhor no espaço do romance.

Nunca teve oportunidade de regressar a Angola?

Oportunidade há sempre. Acho é que, se voltasse, não saía de lá. Gostava de ter u passaporte angolano, teria muito orgulho nisso. Não quero dizer que me sinta menos português, gosto cada vez mais de ser daqui, sinto-me muito bem no meu país.

Mas porque é que gostava de ter passaporte angolano?

Afectivamente, estou muito ligado àquela terra e àquelas pessoas.

Isso não é um contra-senso? No fundo, lutou contra a independência angolana…

Bom, eu fazia parte de um exército…

Que dependia de um governo que era contra a independência das colónias.

É verdade. Isto não pretende ser uma justificação, mas, naquela época, a gente tinha a sensação de que a ditadura era eterna. Ou se ia à guerra (como o Partido Comunista, que mandava os seus militantes ir à guerra) ou, então, ia fazer-se a revolução para os cafés de Paris. E, a certa altura, reparei que a maior parte das pessoas que emigrava fazia-o quando sabia que ia. Porque tinham medo. Aquilo metia medo. No entanto, as minhas razões não tinham nada a ver com estas. Não fui nem por valentia nem por ideais políticos. Ernesto Melo Antunes, o meu capitão, dizia que a revolução se fazia por dentro. A mim, contudo, a revolução não me dizia grande coisa… Sempre tive uma vida protegida, passei ao lado de todos os movimentos contra a ditadura; por cobardia, provavelmente.

Era um privilegiado.

Claro que sim. Nessa altura, de um modo geral, os rapazes que iam para as faculdades eram privilegiados. Mas não foi só por isso que a política – e até o próprio movimento estudantil – me passou ao lado. Eu nem às aulas ia, passei a faculdade a escrever e a jogar xadrez. Vivia completamente centrado sobre mim mesmo. Talvez esteja grato a Angola porque foi lá que aprendi a existência dos outros. Até então o meu mundo era ptolemaico. Na guerra, senti pela primeira vez uma camaradagem real, que ainda hoje se mantém.

Ainda se vêem?

Sim, de vez em quando. Nesse momento percebi que eu não era o centro do mundo.

Mantinha um diário?

Não, nunca fiz diários. Mas é curioso que, durante todo o tempo que estive em África, li e escrevi muito. À noite, enquanto escrevia os meus romances, tinha a sensação de estar em Lisboa porque havia um soldado que imitava os pregões dos ardinas.

Lembra-se do dia em que foi mobilizado?

Eu já sabia que ia, só não sabia era quando. Fiz a segunda parte da recruta no Hospital da Estrela e, depois, fui colocado no de Tomar. Estive lá uns meses e, um dia, o director chamou-me e disse-me que eu tinha que me apresentar em Santa Margarida. Só soube que ia para Angola já no barco.

Foi lá que conheceu Ernesto Melo Antunes?

Só vou encontrar o batalhão com que fui em Santa Margarida uns meses antes de embarcar, a 6 de Janeiro de 1971.

E para onde foi?

Fui para as Terras do Fim do Mundo, na fronteira com a Zâmbia, no saliente do Cazombo. Chegámos lá e, pendurada no arame farpado, estava uma tabuleta que dizia «Lisboa, 10 mil quilómetros. Moscovo, 13 mil». O leste angolano não correspondia nada à ideia que fazemos de África. É arenoso, com pouca vegetação e, de noite, fazia muito frio.

Não havia o que habitualmente se chama mato?

Havia, mas parecia sempre igual. Outra das coisas que me espantava era a capacidade que os nossos guias tinham em orientar-se. Havia um que lhe bastava pôr a orelha contra o chão para pressentir uma coluna ainda a quilómetros de distância. Outro, via mosquitos na outra banda e, aos domingos, punha uns óculos graduadíssimos. E nós, miúdos de 20 anos, não entendendo o significado simbólico do acto, fazíamos troça. Não percebíamos que aquela maneira de ser correspondia a uma cultura milenar. Vínhamos com toda uma carga de coisas europeias...

O médico recém-licenciado também descobriu outras «ciências»?

Sob o aspecto médico eram culturas muito mais avançadas que as nossas. Não havia cáries, por exemplo. E lavavam os dentes com um pau… Doutro ponto de vista, a organização social era perfeita, não havia conflitos sociais e as decisões eram tomadas em assembleias muito complicadas. Uma vez, numa aldeia, estiveram uma tarde inteira para deliberar se me davam um galo. Eram muito sábios e, sentindo o absurdo daquela situação fugiam para norte. Nós queimávamos as aldeias com desfolhantes e com tudo isso de que é proibido falar. Eu vi napalm. O marechal Costa Gomes, que era meu comandante-chefe, dizia que não existia napalm. Nós tínhamos napalm e bombardeávamos com napalm. Esta é a verdade. E quem disser o contrário está a mentir.

No terreno dizia-se que o regime estava a definhar?

Não, não se tinha a noção porque não tínhamos notícias nenhumas. O nosso batalhão, composto por três companhias de combate, cobria um território com a mesma extensão de Portugal Continental do Mondego ao Algarve. Naquela altura, o MPLA estava a entrar pela Zâmbia com o objectivo de cercar o planalto central. Era, portanto, uma zona tremenda. E era suposto nós servirmos de tampão. Mas como é que três companhias e combate – ou seja, 450 homens – podem patrulhar uma zona tão grande? Era impossível.

Discutia-se política?

Não, não se discutia política. Nem era possível discutir. Nunca assisti a cenas como as de Manoel de Oliveira no qual os militares vão nos Unimogs a discutir a legitimidade da guerra. A partir do momento em que morreu o primeiro rapaz, até o Melo Antunes (que era um homem muito politizado, que discordava da guerra) deixou de falar nisso. Nesse momento disse «Vamos vingar o Ferreira». O primeiro morto desencadeia uma raiva enorme. Ninguém queria ir para o mato, ninguém queria matar ninguém. Não aquele país, olhávamos para o céu, não conhecíamos as estrelas. Nada daquilo nos fazia lembrar Portugal. Absolutamente nada. Estávamos ali, não havia nada à volta. Só havia a casa do chefe do posto em ruínas onde eu dormia. Portanto, que vontade tinha eu de combater? O quê? Quem?

Estavam apenas preocupados em chegar ao dia seguinte?

Eu queria voltar vivo. Tínhamos sido treinados para a guerra, mas o objectivo era acumular o maior número de pontos possíveis para irmos para um sítio com menos guerra. Um prisioneiro tantos pontos, uma arma apreendida tantos pontos e, ao fim de não sei quantos pontos, mudávamos de lugar. Nunca ouvi – entre oficiais ou soldados – uma única palavra contra o a favor da guerra. A gente queria era sair dali. O mais depressa possível. Não queria falar da crueldade e da violência porque, no meio das atrocidades, também havia uma grande generosidade. Os nossos soldados ganhavam uma miséria e estavam sempre na aflição de saber como é que estavam as suas famílias em Portugal. As notícias que chegavam eram poucas, o correio só vinha uma vez por semana...

Que atrocidades não conseguiu esquecer?

Coisas horríveis. Havia uma delegação da PIDE junto à sede do batalhão e eu assisti a dois ou três interrogatórios. Nunca vi o exército fazer tais coisas. Lembro-me de um soba me dizer «O Sr. PIDE manda mais que o Senhor Governador». A PIDE era, de facto, o terror dos civis. Noutro dia, fizeram-se uns prisioneiros e, como era preciso comunicar à polícia, veio um PIDE de helicóptero. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi dar um pontapé na barriga de uma mulher grávida. O Melo Antunes puxou da pistola e apontou-a ao PIDE. Nem imagina os problemas que ele teve por causa disso… Estávamos ali, mas de vez em quando vinham uns do «ar condicionado» para dizer como é que devíamos fazer a guerra. Recebiam o mesmo subsídio e apareciam de camuflado novinho em folha. E nós de camuflado todo desbotado...

Tudo isso é político…

Eram ordens militares. E não vinham embrulhadas em qualquer consideração do género «Estamos a defender Portugal». Não me recordo de um comandante, um general, um coronel ou um brigadeiro me falar da pátria. Não me lembro de alguma vez ter ouvido um discurso patriótico que advogasse a civilização contra o comunismo ateu.

A morte torna-se mesmo uma rotina na guerra?

Fazia sempre sofrer muito. Uma vez levei para o meu quarto um rapaz que tinha morrido numa emboscada. Não quis que o tirassem de lá. Estava só a dormir. A morte de um camarada era uma coisa horrível. E mesmo os feridos, que nunca mais voltávamos a ver. Quando havia amputações, eu fazia o penso ao coto, vinha um helicóptero e levava-os.

Como é que vê, hoje, as diferenças entre a guerra que conheceu e estas guerras cirúrgicas?

Não conheço estas, só conheci aquela. Mas a guerra é sempre um momento absurdo porque ninguém ganha. Isto foi o que, de mais claro, trouxe da guerra. Na guerra não há vencedores. Todos – militares, famílias, populações – são vencidos. E os militares são os que menos culpa têm porque se limitam a fazer aquilo que o poder político pretende. Sob este aspecto, o exército português sempre foi muito disciplinado. O Melo Antunes, por exemplo, impunha uma disciplina completamente feroz que eu não compreendia. Ele contrapunha que aquela era a maneira de termos menos baixas. Obrigava-nos, entre outras coisas, a pôr gravata para jantar, na areia...

A disciplina passava por aí?

Também, o que não o impedia depois de jogar vólei com os soldados. Estes, de resto, eram muito bem treinados. Quando uma coluna foi atacada, o alferes teve medo e escondeu-se debaixo de um cepo. O pelotão ficou uma presa fácil porque todos estavam à espera que aquilo funcionasse.

O medo era encarado como um sinal de fragilidade?

Borrar-se de medo? Cagar-se de medo? Tudo isto é real, não são figuras de retórica. Ele tinha as calças do camuflado encharcadas de merda. Casos destes, no entanto, não havia muitos. Todos tínhamos medo, mas os nossos soldados eram de facto extraordinários. Não eram como os americanos que estavam lá no Vietname e, de dois em dois meses, tiravam uma semana de férias. Em Angola nunca vi ninguém negar-se a ir para a mata. Quando o rapaz que tinha sido sorteado para conduzir o rebenta-minas – a viatura, como então dizíamos que ia à frente – vinha despedir-se de mim, fazia-o sem quaisquer dramatismos. Ao princípio ainda marcávamos os dias no calendário, mas a partir de certa altura a vida já não tinha grande valor. Uma das cruzes de guerra que tivemos foi o apontador de metralhadora, já ferido no pescoço, ter continuado a disparar para salvar os que estavam cá em baixo. Havia um espírito de corpo muito intenso. Lá, éramos todos a mesma coisa. Estou a conseguir falar disto sem falar do horror...

Ainda sonha com a guerra?

Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia…e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

Parava a guerra?

Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto ou do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

Não vou pôr isso na entrevista…

Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?