12 outubro, 2010

Umberto Eco: Mundo protesta contra pena de morte no Irã, mas não se opõe à injeção letal nos EUA

Mundo protesta contra pena de morte no Irã, mas não se opõe à injeção letal nos EUA - 11/10/2010 - International Herald Tribune

[Em Portugal o protesto foi contra a pena de morte!]


Crónica de Umberto Eco no International Herald Tribune.


Tradução de Eloise De Vylder segundo a norma brasileira

No mês passado na Virgínia (EUA), Lewis foi executada por injeção letal; ninguém será punido por seu assassinato, porque ela foi legalmente condenada à morte. Ela planejou os assassinatos de seu marido e de seu filho adotivo – mortes que foram, é claro, ilegais – enquanto aqueles que a mataram, em resposta, fizeram isso com a bênção das autoridades.

Talvez tenhamos que reformular o sexto mandamento para algo como “não matarás sem permissão”. Afinal, há séculos reverenciamos as bandeiras carregadas por soldados que, quando estão em guerra, têm licença para matar, como James Bond. E agora o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad respondeu aos apelos de clemência do Ocidente em prol de uma mulher supostamente adúltera que foi condenada à morte por apedrejamento – a pena foi deixada de lado, mas as autoridades sustentam que ela ainda é uma possibilidade – dizendo, resumidamente: vocês reclamam que queremos matar legalmente uma mulher iraniana, enquanto matam legalmente uma mulher norte-americana?

Uma objeção à lógica de Ahmadinejad é a de que a mulher norte-americana planejou o assassinato de seu marido, enquanto a mulher iraniana, Sakineh Mohammadi Ashtiani, foi simplesmente infiel a seu marido. E a norte-americana foi morta sem dor, enquanto a iraniana corre o risco de ser assassinada de uma forma brutalmente dolorosa. Mas uma resposta desse tipo implica duas coisas: enquanto uma mulher infiel não deveria receber uma punição maior do que a separação legal sem pensão alimentícia, é aceitável punir uma assassina com a morte – desde que o método de execução não seja muito doloroso.

Se a nossa razão não estivesse tão cega, talvez pudéssemos ver o argumento maior: que até mesmo os assassinos não devem ser condenados à morte, que as sociedades não devem matar seus cidadãos – nem mesmo por meio de um processo legal, e nem mesmo se a execução for relativamente indolor.

Como os cidadãos de países democráticos deveriam responder ao líder de um país pouco democrático quando ele pede para que não critiquemos a pena de morte iraniana – enquanto algumas nações ocidentais ainda mantêm a cruel pena de morte em seus territórios?

A situação é embaraçosa, e eu gostaria de saber se esses ocidentais – entre os quais está a primeira-dama francesa, Carla Bruni-Sarkozy – que estão protestando contra a pena de morte iraniana também protestaram contra a dos Estados Unidos. Suspeito que muitos deles não o fizeram. Os ocidentais se dessensibilizaram diante do alto número de execuções legais nos Estados Unidos. E entretanto estamos horrorizados com a ideia de uma mulher ser brutalmente assassinada com uma chuva de pedras no Irã. Eu certamente não sou imune a isso: quando foi feito um abaixo assinado para protestar contra o apedrejamento de Ashtiani, eu o assinei imediatamente. Ao mesmo tempo, ignorei o fato de que Teresa Lewis da Virgínia estava prestes a ser assassinada.

Será que nós, ocidentais, teríamos protestado tanto se Ashtiani tivesse sido condenada à morte por injeção letal? Estamos indignados com o apedrejamento ou com a execução de pessoas que violam o sétimo mandamento - “não cometerás adultério” - em vez do sexto? Não sei, mas o fato é que as reações humanas costumam ser instintivas e irracionais.

Em agosto passado deparei-me com um site que descrevia várias formas de cozinhar um gato. Quer se tratasse de uma brincadeira ou de algo para ser levado a sério, defensores dos direitos dos animais do mundo todo se posicionaram contra o site. Eu adoro gatos. Eles são uma das poucas criaturas que não se permitem explorar por seus donos – ao contrário, eles exploram seus donos com um cinismo olímpico – e seu afeto pela casa indica uma forma de patriotismo. Então eu ficaria revoltado se me apresentassem um prato de ensopado de gato. Por outro lado, acho os coelhos tão fofos quanto os gatos, e não tenho nenhum problema em comê-los. Fico escandalizado ao ver cachorros andando livres nas casas chinesas, brincando com as crianças, quando todos sabem que os animais serão comidos no final do ano. Mas os porcos – animais altamente inteligentes, segundo me dizem – passeiam pelas fazendas ocidentais, e pouquíssimas pessoas se preocupam com o fato de que o seu destino é virar presunto. O que nos faz considerar alguns animais incomíveis quando os antropomorfizamos, ao passo que achamos outros criaturas adoráveis – bezerros, por exemplo, ou ovelhinhas – extremamente palatáveis?

Nós, seres humanos, somos animais muito estranhos, capazes de um grande amor e de um cinismo assustador, igualmente preparados para proteger um peixinho dourado quanto para ferver uma lagosta viva, para esmagar uma lagarta sem remorso e considerar bárbaro matar uma borboleta. Da mesma forma, aplicamos regras diferentes quando confrontados com duas sentenças de morte – escandalizados por uma, enquanto fechamos os olhos para a outra. Às vezes sou tentado a concordar com o escritor de origem romena Emil Mihai Cioran, que dizia que a criação, depois que escapou das mãos de Deus, deve ter sido entregue para um demiurgo: desmazelado e atrapalhado, talvez até um pouco beberrão, que ia trabalhar com algumas ideias muito confusas na cabeça.

Netanyahu propõe "presente envenenado" contra moratória

FT.com / Middle East - Netanyahu offers deal on settlements

"Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, ofereceu-se para renovar a moratória sobre a construção de novos colonatos judaicos na Cisjordânia - mas somente se os líderes palestinos concordarem em troca a reconhecer Israel como "a pátria do povo judeu"."

A visão de Tobias Buck, correspondente do FT, desde Jerusalém.

Os EUA devem financiar a saída dos colonos israelitas

FT.com / Comment / Opinion - America should fund Israeli settlers to leave

Uma opinião de Diana Buttu, consultora jurídica do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e membro da Harvard Kennedy School.

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10 outubro, 2010

Recordemos neste dia Sakineh Ashtiani


Que depois de condenada à morte por apedrejamento, por pretenso adultério, passou a condenada à forca, por alegado assassínio do seu marido, e que se não fosse por isso, seria por outra qualquer razão.

O que importa é salvar a face de um regime que não tolera ser posto em causa e que, apesar de todos os dias, os seus dirigentes, por certo, o invocarem, logo esquecem um dos princípios mais sagrados de toda a humanidade: a misericórdia.

Por aqui, em Portugal, as vozes que se ouviram em alta grita a 28 de Agosto, foram esmorecendo, talvez até que exista nova onda mediática, que lhes dê alento.

Neste dia que em que se repudia a pena de morte teria sido bom contar com algumas daquelas vozes.

Mas podemos começar aqui. Aceitam-se inscrições desde já para criar um círculo de apoiantes que tenha por objectivo a libertação de Sakineh Ashianti.

10.10.10 - Dia Europeu e Mundial contra a Pena de Morte



Não sei a que se deve a falta de tantas outras organizações na convocatória desta louvável iniciativa. Entre elas a CGTP-IN, que sempre seguiu os bons princípios da solidariedade internacional, ou a Amnistia Internacional, que sempre lutou contra a pena de morte. Isto para não falar noutras, muitas outras, organizações da sociedade civil.

Será que os organizadores não contactaram com mais ninguém?

Se não contactaram terá sido por vesgo sectarismo, por oportunismo de falso “vanguardismo” ou porque já desistiram de convidar outras organizações, para não receber um “Não!” como resposta, ou porventura, o que é mais grave, o vazio do silêncio?

Será que existiram organizações convidadas que não tenha aderido, por questões de “imagem”, por falsas questões ideológicas, por sectarismo partidário, por mero tacticismo oportunista – não estando presentes não reconhecemos os outros como iguais, nem lhes damos importância, retirando peso à iniciativa - ou porque tem outros assuntos de maior importância a tratar?

Seria bom clarificar a situação, porque me parece estar a instalar-se uma desmedida apatia, em Portugal, perante a necessária afirmação e defesa dos direitos humanos e humanitários e a correspondente materialização em acções de solidariedade moral e material.

No meu caso, apesar de não partilhar com algumas das organizações subscritoras, a sua estratégia, as tácticas, a forma e o tom das suas comunicações e até o “modus operandi” de alguns dos seus dirigentes, existe um Bem Maior a ter presente.

E esse, é hoje, a abolição da pena de morte.

É por isso que eu digo presente!

E saúdo nessas organizações todos os seus activistas, porque são eles que, apesar das possíveis diferenças de visão que possam existir, nestes tempos incertos e difíceis, estão a chamar, de forma directa, a nossa consciência para a acção solidária em defesa da Vida, honrando a nossa história, já que, Portugal foi o primeiro país do Mundo a abolir de forma definitiva a pena de morte.